A inclusão de pessoas transgênero em diferentes contextos esportivos e clínicos tem gerado intenso debate, especialmente no que se refere a possíveis diferenças persistentes na composição corporal e no desempenho físico após a terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG). Apesar de hipóteses teóricas sugerirem vantagens residuais relacionadas à exposição prévia a testosterona, a literatura disponível apresenta resultados heterogêneos e, muitas vezes, de baixa qualidade metodológica. Nesse cenário, torna-se essencial uma síntese crítica e abrangente das evidências existentes para subsidiar decisões clínicas, esportivas e regulatórias.
Novo estudo
Nesse contexto, estudo recente realizado no Brasil, teve o objetivo de comparar a composição corporal e a aptidão física entre indivíduos transgênero e cisgênero. Como objetivos secundários, os autores avaliaram as mudanças longitudinais associadas à THAG em mulheres e homens trans, bem como comparações cruzadas entre mulheres trans e homens cis, e homens trans e mulheres cis, buscando esclarecer o impacto da terapia hormonal ao longo do tempo.
Métodos
Trata-se de uma revisão sistemática com metanálise, registrada no PROSPERO e conduzida conforme as diretrizes PRISMA. Foram incluídos estudos observacionais e ensaios clínicos que avaliaram composição corporal e/ou desempenho físico em indivíduos transgênero antes e após THAG ou em comparação com controles cisgênero. As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Embase, Web of Science e SportDiscus, resultando na inclusão de 52 estudos (n=6.485 participantes), dos quais 43 foram elegíveis para meta-análise. A qualidade metodológica e o risco de viés foram avaliados por ferramentas apropriadas, e a certeza da evidência foi graduada pelo sistema GRADE.
Resultados
Os resultados mostraram que mulheres trans apresentaram maior massa magra absoluta do que mulheres cis, porém sem diferenças significativas em força muscular de membros superiores, membros inferiores ou consumo máximo de oxigênio (VO₂máx). Em comparação com homens cis, mulheres trans exibiram menor massa magra, menor força muscular e menor VO₂máx, além de maior percentual de gordura corporal. Nos homens trans, observou-se maior percentual de gordura e menor massa magra e força muscular em comparação aos homens cis, embora superiores aos valores observados em mulheres cis em algumas análises.
As análises longitudinais demonstraram que, em mulheres trans, a THAG esteve associada a aumento progressivo da massa gorda e redução da massa magra e da força de membros superiores ao longo de 1 a 3 anos de tratamento. Em contrapartida, homens trans apresentaram redução da massa gorda e aumento consistente da massa magra e da força muscular após o início da terapia com testosterona. Apesar dessas alterações corporais, a evidência sobre desempenho funcional apresentou elevada heterogeneidade e, em grande parte, baixa certeza.
Conclusão e mensagem prática
Conclui-se que, embora mulheres trans mantenham maior massa magra absoluta em relação a mulheres cis, essa diferença não se traduz em vantagens funcionais mensuráveis em força ou capacidade aeróbia após 1 a 3 anos de THAG. De modo geral, as evidências disponíveis, majoritariamente de baixa a moderada qualidade, não sustentam a hipótese de vantagens atléticas inerentes ou persistentes em mulheres trans após a terapia hormonal, reforçando a necessidade de interpretações individualizadas e baseadas em dados ao discutir implicações clínicas e políticas.
Autoria

Erik Trovão
Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE
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