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Endocrinologia3 março 2026

Manejo da doença arterial oclusiva periférica em pacientes com diabetes

Pacientes com diabetes e DAOP constituem um grupo de risco cardiovascular muito elevado, com maior incidência de IAM, AVC, isquemia crítica de membro e amputações.

A doença arterial oclusiva periférica (DAOP) permanece amplamente subdiagnosticada em pacientes com diabetes mellitus, apesar do alto risco de eventos cardiovasculares maiores e complicações de membros inferiores. Um novo posicionamento publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC) reforça a necessidade de rastreamento sistemático e abordagem terapêutica intensiva nessa população. 

 

  • Rastreamento e diagnóstico: mudança de paradigma 

Uma das principais mensagens do documento é a ampliação do rastreamento. 

 

Recomenda-se: 

Realize exames completos dos pés, incluindo palpação para pulsos, pelo menos uma vez por ano. 

* Rastreamento com índice tornozelo-braquial (ITB) em pacientes com diabetes e idade ≥ 65 anos ou a partir dos 50 anos com fatores de risco adicionais (Tabagismo, duração do diabetes ≥10 anos, qualquer doença microvascular, complicações nos pés ou outra lesão de órgão-alvo) 

* Considerar rastreio mais precoce em pacientes com múltiplos fatores de risco ou doença aterosclerótica estabelecida. 

* Reconhecer que muitos pacientes diabéticos são assintomáticos ou apresentam sintomas atípicos. 

* Em casos de ITB >1,40 (frequente no diabetes pela calcificação arterial medial), realizar índice hálux-braquial ou exames de imagem vascular. 

O diagnóstico precoce permite intervenção antes da instalação de isquemia crítica. 

 

  • Estratificação de risco: foco no risco de membro 

A diretriz enfatiza que o paciente com diabetes não deve ser avaliado apenas sob a óptica cardiovascular clássica. 

 Fatores que aumentam risco de eventos de membro: 

* Doença renal crônica 

* Neuropatia periférica 

* História prévia de úlceras 

* Infecção ou deformidade nos pés 

A presença concomitante de DAOP e diabetes define uma condição de risco global extremamente elevado. 

  • Terapia antitrombótica: abordagem mais intensiva 

Para DAOP sintomática: 

* Antiagregação plaquetária é mandatória. 

* AAS ou clopidogrel são opções válidas. 

Em pacientes com alto risco isquêmico e baixo risco hemorrágico: 

* Considerar terapia de dupla via antitrombótica (rivaroxabana em baixa dose – 2,5 mg 2x ao dia – associada ao AAS), especialmente após revascularização. 

A diretriz destaca que pacientes com diabetes parecem obter benefício particularmente relevante dessa estratégia, desde que o risco de sangramento seja cuidadosamente avaliado. 

 

  • Terapia hipolipemiante: metas agressivas 

Todos os pacientes com DAOP devem receber: 

* Estatinas de alta intensidade 

* Meta de redução ≥50% do LDL-C 

Se necessário: 

* Associação com ezetimiba 

* Considerar inibidores de PCSK9 em risco muito elevado não controlado 

A meta lipídica agressiva é fundamental para redução de eventos cardiovasculares e progressão da doença. 

 

  • Controle Glicêmico com Foco Cardiovascular 

O documento reforça que o objetivo não é apenas reduzir HbA1c, mas reduzir risco cardiovascular e de membro. Recomendações: 

* Controle individualizado, evitando hipoglicemia. 

* Priorizar drogas com benefício cardiovascular comprovado. 

* Inibidores de SGLT2 e agonistas de GLP-1 devem ser considerados. 

* Monitorar cuidadosamente infecções e integridade dos pés. 

  • Controle Pressórico e Modificação de Fatores de Risco 

* Meta pressórica <130/80 mmHg na maioria dos pacientes. 

* IECA ou BRA são preferenciais, sobretudo na presença de nefropatia. 

* Cessação do tabagismo é mandatória. 

O tabagismo é um dos principais determinantes de progressão da DAOP e amputação. 

 

  • Exercício Supervisionado: Tratamento de Primeira Linha 

Programas estruturados de exercício supervisionado: 

* Melhoram capacidade funcional 

* Aumentam distância de caminhada 

* Melhoram qualidade de vida 

Devem ser considerados antes de procedimentos invasivos na claudicação estável. 

 

  • Isquemia Crítica de Membro (CLTI): Urgência Multidisciplinar 

A isquemia crítica exige: 

* Avaliação urgente 

* Abordagem multidisciplinar 

* Classificação da gravidade baseada em ferida, isquemia e infecção 

A revascularização é recomendada sempre que anatomicamente viável, com objetivo de preservação do membro. 

Pacientes com diabetes frequentemente apresentam doença distal e abaixo do joelho mais complexa. 

 

  • Estratégia de Revascularização 

Indicada em: 

* Claudicação limitante refratária 

* CLTI 

A escolha entre abordagem endovascular e cirurgia aberta deve ser individualizada, baseada em: 

* Anatomia 

* Complexidade da lesão 

* Expectativa funcional 

* Risco cirúrgico 

 

  • Prevenção de Amputações: Pilar Central 

Exame regular dos pés deve ser prática obrigatória. Inclui: 

* Avaliação de pulsos 

* Pesquisa de neuropatia 

* Educação para autocuidado 

* Tratamento precoce de lesões 

Modelos assistenciais integrados reduzem risco de amputações maiores.

Considerações finais 

A nova declaração científica publicada no American College of Cardiology reforça que: 

* Diabetes + DAOP = risco cardiovascular e de membro extremamente elevado. 

* O rastreamento ativo deve fazer parte da prática clínica rotineira. 

* O tratamento deve ser intensivo, multimodal e multidisciplinar. 

O grande avanço da diretriz é deslocar o foco exclusivo no controle glicêmico para uma estratégia abrangente de proteção vascular global e preservação de membro, antecipando intervenções antes da instalação de complicações irreversíveis. 

 

Autoria

Foto de Luciano de França Albuquerque

Luciano de França Albuquerque

Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

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