Com o aumento da prevalência de sobrepeso/obesidade no universo infantil, emerge-se a necessidade de intervenções eficazes para reduzir a incidência crescente dessas condições. No entanto, um alerta é pertinente visto que muitas das intervenções estão associadas com o aumento do risco de transtornos alimentares em crianças e adolescentes.
Recentemente, foi lançado um artigo que visou entender como estratégias comportamentais para manejo do peso em adolescentes com sobrepeso e obesidade pode influenciar na ocorrência de transtornos alimentares. Vamos ver o que artigo nos trouxe de informações.
Introdução:
O manejo comportamental do excesso de peso é multifatorial e inclui dieta, atividade física e mudanças psicossociais. Os principais guidelines de Pediatria recomendam que o tratamento medicamentoso ou cirúrgico seja aliado à medidas de mudança de estilo de vida e melhorias na saúde comportamental.
A Colaboração de Transtornos Alimentares e Terapia relacionada ao Peso (EDIT) vem tentando elucidar o impacto do controle comportamental do peso no risco de desenvolvimento de transtornos alimentares. Ela reúne pesquisadores, clínicos e pessoas com experiência vivida em sobrepeso/obesidade e transtornos alimentares.
Sendo assim, o intuito da presente revisão foi descrever características de implementação e as estratégias de intervenções comportamentais para o controle de peso que foram capazes de mensurar resultados de transtornos alimentares em adolescentes.
Metodologia:
Foram pesquisados artigos em base de dados eletrônicas relacionados a adolescentes com sobrepeso/obesidade e aferição do risco de transtorno alimentar antes e após a intervenção.
Os ensaios elegíveis recrutaram adolescentes (definidos pela OMS com idade entre 10 e 19 anos) com sobrepeso ou obesidade definidos como escore Z do IMC > 1 e precisavam incluir: pelo menos uma intervenção comportamental de controle de peso com objetivo de melhorar resultado relacionado ao peso; pelo menos um grupo de comparação e mensuração do risco de transtorno alimentar na linha de base e após intervenção ou durante acompanhamento com ferramentas médicas validadas.
Os critérios de exclusão foram: se intervenções fossem cirurgia bariátrica, intervenções pós cirúrgicas, farmacoterapia ou suplementação de nutrientes, intervenções que visassem tratar causas secundárias de obesidade ( ex: Síndrome de Prader-Willi) ou qualquer outra condição médica ( ex: apnéia do sono), distúrbios alimentares ou prevenção da obesidade.
Resultados:
Dos 11.860 registros coletados, 23 ensaios clínicos randomizados (ECR) com 54 braços de intervenções foram incluídos. Os estudos foram publicados de 2000 a 2020. A maioria das intervenções focou em perda e manutenção de peso (54%), sendo baseadas em abordagem cognitivo-comportamental. A maioria das intervenções visava um público alvo que tivesse uma pessoa de apoio (70%).
A duração mediana das intervenções foi de 26 semanas (variando de 8 a 52 semanas), sendo semanalmente em 35% dos casos ou escalonada ( ex: semanal e depois mensal) em 41% dos casos. A maioria das estratégias incluíram abordagem de alimentação saudável ( 89%), prática de atividade física ( 89%) e resolução de problemas relacionados a impedimentos de mudança alimentar. No entanto, poucas incluíram estratégias de saúde mental (17%).
Discussão:
A presente revisão avaliou inúmeras intervenções no controle de peso de adolescentes com sobrepeso/obesidade e trouxe a reflexão de que cada uma delas deve ser bem avaliada antes de ser aplicada devido aos seus riscos e benefícios. Embora 65% das intervenções incluísse “prescrição dietética” (que foi associada a maior risco de transtorno alimentar), essas intervenções também promoviam estratégias para promover hábitos de vida saudáveis. Tal constatação revela como a combinação das intervenções pode ser complexa e requer estudos mais aprofundados.
O estudo contou como ponto forte o fato de ter selecionado uma vasta gama de ensaios clínicos de forma a tentar compreender as diversas intervenções no comportamento do controle de peso, porém como principal fator limitante foi o fato de que as intervenções avaliaram o risco de transtorno alimentar antes e depois da intervenção e , portanto, não representaram todas as intervenções de controle de peso.
Conclusão:
As intervenções para manejo de peso em adolescentes são complexas e variam no modo que são aplicadas para modificar comportamentos. Entender cada uma delas é a chave crucial para tratar e prevenir o sobrepeso e a obesidade em adolescentes, reduzindo o risco de transtornos alimentares.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Editora-médica de Endocrinologia do Portal Afya.
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