O aumento da longevidade da população mundial vem sendo alvo de muitos estudos. No intuito de tentar identificar possíveis fatores de associação para uma vida mais longa e saudável, recentemente foi publicado um artigo que visou avaliar os horários das refeições em uma população de idosos e suas relações com morbidade e mortalidade.
Introdução
A crononutrição, o estudo dos horários das refeições, tem surgido como fator de risco modificável para diversos eventos de saúde. Muitos estudos já evidenciaram que horários de refeições mais tardios podem prejudicar as intervenções para perda ponderal, propiciando o acúmulo de gordura visceral e aumento de índice de massa corporal (IMC).
Sendo assim, o presente estudo visou abordar os horários das refeições e suas associações em morbi-mortalidade de uma subpopulação de idosos.
Metodologia
Foram recrutados 6375 indivíduos entre 42 e 94 anos do Estudo Longitudinal de Cognição e Velhice saudável da Universidade de Manchester no Reino Unido que foram acompanhados de 1983 a 2017.
Ao longo do período, os pacientes foram avaliados com questionários que envolviam horários das refeições e padrões comportamentais e de sono. No início do estudo, os dados demográficos foram coletados bem como peso e altura.
Diferentes modelos foram utilizados para examinar os horários das refeições com doenças e fatores comportamentais, pontuações genéticas para cronotipo e obesidade e mortalidade.
Resultados
Dos indivíduos recrutados, a média de idade foi de 64 anos, 71,5% eram do sexo feminino e 83,3% estavam desempregados. A média dos horários das refeições foi: 8:22 para o café da manhã, 12:38 para o almoço e 17:51 para o jantar. Em média, os participantes demoraram 31 minutos para tomar o café da manhã após acordar e realizavam o jantar 5,38 horas antes de irem dormir.
Os resultados mostraram que idades mais avançadas estão associadas com horários de refeições mais tardios a exemplo de café da manhã e jantar, com uma janela alimentar diária mais curta. Doenças físicas e psicológicas como fadiga, problemas de saúde bucal, depressão, ansiedade e multimorbidade estão primariamente associadas a café da manhã mais tardio, bem como o aumento da mortalidade.
Perfis genéticos relacionados a um cronotipo vespertino estão ligados à refeições mais tardias.
As taxas de sobrevida em 10 anos nos grupos que comem cedo e tarde foram de respectivamente 89,5% e 86,7%.
Discussão
Esse estudo longitudinal acompanhou por quase um pouco mais de três décadas uma população majoritariamente idosa e as relações de horários de refeições com morbimortalidade.
O principal ponto de força do estudo foi a avaliação repetida dos horários das refeições de uma grande comunidade idosa por um longo período.
Em contrapartida, os fatores limitantes foram: falta de padrões estabelecidos para a crononutrição, o que pôde dificultar comparação entre estudos. Além disso, outras variáveis não puderam ser examinadas tais como: frequência alimentar, variabilidade dos horários das refeições, consumo inter refeições e condições assintomáticas que foram subdiagnosticadas ao longo do período do estudo.
Conclusão
O horário das refeições, principalmente o café da manhã, vai mudando ao longo da vida podendo refletir sobre a saúde em indivíduos idosos e implicações em morbimortalidade.
São necessários mais estudos, principalmente com ensaios clínicos randomizados para explorar o potencial dos horários das principais refeições como forma de estratégia para auxiliar na longevidade da população.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Editora-médica de Endocrinologia do Portal Afya.
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