A American Thyroid Association publicou em maio de 2026 a atualização de suas diretrizes para doença tireoidiana na gestação, substituindo o documento anterior de 2017. Para o hipotireoidismo durante a gestação, as mudanças são relevantes e merecem atenção na prática clínica.

O papel do anti-TPO na tomada de decisão foi reduzido
Uma das mudanças mais significativas diz respeito ao hipotireoidismo subclínico, pois a positividade para anticorpos antitireoperoxidase (anti-TPO) deixou de ser critério para orientar a decisão de iniciar levotiroxina. Ensaios clínicos randomizados não demonstraram benefício do tratamento em gestantes eutireoidianas com anti-TPO positivo, e as diferenças nos desfechos adversos entre pacientes anti-TPO positivas e negativas com hipotireoidismo subclínico são pequenas. O status desse anticorpo ainda tem utilidade para fins etiológicos, prognósticos e para orientar a frequência de seguimento, mas saiu do fluxograma terapêutico principal.
Hipotireoidismo franco
Para o hipotireoidismo franco (aquele em que o T4 livre está abaixo do limite inferior da normalidade) de início na gestação, a diretriz orienta uma decisão baseada nos níveis de TSH. Quando o TSH está elevado, porém abaixo de 6 mU/L, a ATA recomenda realizar um teste confirmatório em até três semanas antes de iniciar levotiroxina. Estudos recentes mostram que pelo menos metade dessas alterações se normaliza espontaneamente em poucas semanas. Quando o TSH é igual ou superior a 6 mU/L, ou quando o hipotireoidismo persiste na reavaliação, o tratamento com levotiroxina está indicado. A dose inicial pode ser estimada pelos critérios de reposição plena (1,5 a 1,7 mcg/kg/dia) acrescida de 20 a 30% para cobrir as necessidades gestacionais aumentadas. Outras formulações, como liotironina isolada ou extrato tireoidiano, não devem ser utilizadas na gestação.
Hipotireoidismo subclínico
No hipotireoidismo subclínico gestacional, a conduta depende do nível do TSH e do momento do diagnóstico. Quando o TSH é superior a 10 mU/L, o tratamento com levotiroxina está indicado independentemente do trimestre. Quando o TSH está entre o limite superior da normalidade e 10 mU/L, o trimestre do diagnóstico passa a ser o principal critério. No primeiro trimestre, o tratamento pode ser considerado (recomendação condicional, evidência baixa). Antes de iniciar levotiroxina, é razoável aguardar uma reavaliação da função tireoidiana em uma a três semanas, já que o TSH pode normalizar espontaneamente em parcela significativa das pacientes. Se o TSH persistir elevado, a decisão de tratar deve ser compartilhada com a paciente, com aconselhamento sobre a incerteza do benefício e os riscos do subtratamento. A partir do segundo trimestre, o tratamento não deve ser iniciado de rotina. A conduta recomendada é repetir a função tireoidiana após quatro a seis semanas. Grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício do tratamento iniciado após o primeiro trimestre sobre desfechos obstétricos ou neurodesenvolvimento da prole.
A distinção entre primeiro e segundo trimestre é pragmática e não reflete fisiologia tireoidiana. A diretriz permite flexibilidade quando o diagnóstico ocorre próximo a esse limite, com ajuste caso a caso.
Monitoramento durante a gestação
Para gestantes em uso de levotiroxina, a estratégia de monitoramento recomendada inclui dosagem de TSH a cada quatro semanas até metade da gestação e pelo menos uma vez próximo à 30ª semana. O alvo terapêutico é manter o TSH dentro do intervalo de referência, com valor abaixo de 2,5 mU/L como razoável para reduzir o risco de subtratamento. Ao nascimento, a dose pode retornar ao nível pré-gestacional, com reavaliação laboratorial seis semanas após o parto.
Conclusão
A atualização de 2026 reflete um movimento mais conservador em relação ao diagnóstico e tratamento do hipotireoidismo na gestação. Até então, as últimas diretrizes, incluindo um posicionamento brasileiro, orientavam tratamento precoce do hipotireodismo subclínico e consideravam uso de levotiroxina até mesmo para mulheres eutireoideas com TSH entre 2,5 e 4,0 que tivessem anti-TPO positivo. As novas recomendações são baseadas em evidências publicadas ao longo dos últimos anos e terão grande impacto na forma como manejamos nossas pacientes no consultório.
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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