Publicado já agora em 2026 na revista Endocrine Practice , o artigo “Glucocorticoid-Induced Hyperglycemia in Patients With Cancer: Mechanisms, Clinical Implications, and Management Strategies”, revisa de forma narrativa os mecanismos fisiopatológicos, fatores de risco, implicações clínicas e estratégias de diagnóstico e monitorização da hiperglicemia induzida por glicocorticoides (GCIH), com ênfase em pacientes oncológicos. A revisão integra evidências provenientes de estudos clínicos e recomendações de especialistas para discutir um problema frequente, porém frequentemente subdiagnosticado, especialmente em cenários nos quais glicocorticoides são amplamente utilizados como parte de protocolos quimioterápicos ou como terapia adjuvante no manejo de complicações do câncer.
A hiperglicemia induzida por glicocorticoides decorre de múltiplos mecanismos fisiopatológicos. Entre os principais estão o aumento da resistência periférica à insulina, o estímulo à produção hepática de glicose e a disfunção das células β pancreáticas. Os glicocorticoides reduzem a captação de glicose em tecidos periféricos, especialmente músculo esquelético e tecido adiposo, em parte pela inibição da translocação do transportador GLUT4. Além disso, promovem lipólise e aumento de ácidos graxos livres, agravando a resistência insulínica. Paralelamente, estimulam a gliconeogênese hepática por meio da indução de enzimas envolvidas nesse processo, enquanto a exposição prolongada pode comprometer a secreção de insulina e induzir apoptose de células β, contribuindo para a deterioração do controle glicêmico.
Do ponto de vista epidemiológico, a hiperglicemia relacionada ao uso de glicocorticoides é comum em diversas condições clínicas e pode ocorrer mesmo em indivíduos sem diagnóstico prévio de diabetes. A incidência de diabetes induzido por glicocorticoides pode variar entre 15% e 40%, dependendo da população estudada e do regime terapêutico utilizado. Entre os principais fatores de risco destacam-se idade avançada, obesidade, história familiar de diabetes tipo 2, hemoglobina glicada basal ≥6%, disfunção renal e exposição a doses mais elevadas ou regimes prolongados de glicocorticoides. A potência do agente também influencia o risco, sendo fármacos de longa duração, como dexametasona, associados a maior impacto hiperglicêmico.
A apresentação clínica da GCIH costuma ser insidiosa e frequentemente subdiagnosticada, especialmente em pacientes sem diabetes prévio. Embora os critérios diagnósticos clássicos de hiperglicemia da American Diabetes Association — glicemia de jejum ≥126 mg/dL ou glicemia casual ≥200 mg/dL — sejam aplicáveis, esses parâmetros podem não capturar adequadamente o padrão glicêmico típico induzido por glicocorticoides. Caracteristicamente, ocorre elevação da glicemia no período pós-prandial e no período vespertino, especialmente quando glicocorticoides de administração matinal são utilizados, podendo resultar em valores normais de glicemia de jejum e atraso no reconhecimento da disfunção metabólica.
Nesse contexto, estratégias adequadas de monitorização glicêmica tornam-se fundamentais para o diagnóstico precoce. A monitorização capilar da glicose deve ser considerada desde o início da terapia com glicocorticoides, especialmente em pacientes de alto risco ou submetidos a doses moderadas a altas. Medidas de glicemia duas horas após o almoço ou no final da tarde são particularmente úteis, pois coincidem com o pico hiperglicêmico observado cerca de 6–12 horas após a administração matinal do corticosteroide. Em ambiente hospitalar, recomenda-se monitorização pré-prandial e ao deitar, enquanto em pacientes ambulatoriais a monitorização direcionada pós-prandial pode ser suficiente em indivíduos de menor risco.
Tecnologias de monitorização contínua da glicose (CGM) têm emergido como ferramentas promissoras para detectar variações circadianas da glicemia e identificar picos hiperglicêmicos frequentemente não captados por medições isoladas. Além disso, a avaliação basal da hemoglobina glicada é recomendada antes do início da terapia esteroide para identificar disfunção glicêmica pré-existente; contudo, sua utilidade na monitorização de curto prazo é limitada. Nesses casos, marcadores alternativos como a frutosamina podem fornecer informações complementares, refletindo o controle glicêmico médio nas últimas duas a três semanas e sendo potencialmente mais sensíveis às variações rápidas induzidas por glicocorticoides.
Autoria

Erik Trovão
Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE
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