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Endocrinologia18 março 2026

Estudo FINE-ONE: um marco no manejo da doença renal no Diabetes tipo 1

Estudo FINE-ONE mostra que a finerenona reduz albuminúria em pacientes com DM1 e doença renal, ampliando opções terapêuticas.
Por Ícaro Sampaio

Este ano de 2026 tem se destacado na linha do tempo da endocrinologia como um verdadeiro marco no que se refere às possibilidades terapêuticas para pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1). Além da recente recomendação da American Diabetes Association sobre uso de análogos de GLP-1 para pessoas com DM1, e da aprovação do teplizumabe aqui no Brasil, foi publicado neste mês de março o aguardado estudo FINE-ONE. Vamos discutir esse importante trial em quatro pontos: 

Qual foi a novidade?

Por mais de três décadas, o tratamento da doença renal do diabetes (DRD) em pessoas com DM1 permaneceu praticamente inalterado. Desde os primeiros estudos dos anos 1990, os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) eram a única classe farmacológica com evidência relevante de nefroproteção nessa população. Enquanto no diabetes mellitus tipo 2 uma revolução terapêutica ocorria com inibidores do SGLT2, finerenona e análogos do GLP-1, os pacientes com DM1 permaneciam “órfãos” de novas opções. 

O ensaio FINE-ONE, publicado no New England Journal of Medicine em março de 2026, rompeu essa lacuna. Trata-se do primeiro estudo de fase 3 a demonstrar eficácia e segurança de um agente que não seja IECA/BRA em adultos com DM1 e DRC, utilizando como desfecho primário a redução da relação albumina/creatinina urinária (RAC) ao longo de 6 meses. 

O que é afinerenonae como atua? 

A finerenona é um antagonista não esteroidal do receptor de mineralocorticoides (MR), mecanisticamente distinto da espironolactona e da eplerenona. Sua estrutura química confere maior seletividade ao MR, menor penetração tecidual inespecífica e um perfil de segurança mais favorável, com menor risco de ginecomastia e de hipercalemia grave em comparação aos antagonistas esteroidais. No contexto da DRD, a ativação crônica e excessiva do MR, mediada tanto pela aldosterona quanto pela própria glicotoxicidade, promove retenção de sódio, inflamação intrarrenal e fibrose túbulo-intersticial. A finerenona bloqueia essas vias, reduzindo a albuminúria por mecanismos predominantemente intrarrenais, independentes de grandes modificações hemodinâmicas sistêmicas. 

Quais foram os principais resultados?

O FINE-ONE randomizou 242 adultos com DM1, TFGe entre 25 e 90 mL/min/1,73 m², RAC entre 200 e 5.000 mg/g e uso estável de IECA ou BRA. A finerenona foi administrada a 10 ou 20 mg/dia conforme a TFGe basal. O desfecho primário, variação relativa da RAC ao longo de 6 meses, teve redução de 34% com finerenona versus 12% com placebo, correspondendo a uma redução 25% maior com a droga ativa. Aos 6 meses, 54,3% dos pacientes do grupo finerenona atingiram redução ≥30% na RAC, comparado a 32,7% no placebo.  

E sobre a segurança? 

O perfil de segurança da finerenona no DM1 foi comparável ao já descrito no DM2. A taxa global de eventos adversos foi semelhante entre os grupos (47,1% vs. 49,2%). A hipercalemia foi o evento adverso mais frequente e clinicamente relevante, ocorrendo em 10,1% dos pacientes com finerenona versus 3,3% com placebo; apenas 1,7% necessitaram interromper o tratamento por essa razão.  

O FINE-ONE estabelece a finerenona como uma opção terapêutica para a DRD no DM1, tornando muito provável sua incorporação às diretrizes clínicas e o desenvolvimento de estudos com desfechos renais e cardiovasculares de longo prazo (“desfechos duros”) nessa população. 

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

  • Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
  • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
  • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
  • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  • Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE

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