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Endocrinologia3 julho 2026

EndoRecife 2026: Tratamento do lipedema sob olhar multidisciplinar

Tratamento do lipedema envolve transições hormonais, manejo metabólico, incretinas e abordagem multidisciplinar individualizada.
Por Redação Afya

As transições hormonais ao longo da vida da mulher exercem papel fundamental na manifestação e progressão do lipedema, reforçando a natureza hormonal da doença. Embora sua fisiopatologia ainda não esteja completamente elucidada, evidências atuais apontam para uma interação complexa entre predisposição genética, alterações hormonais, disfunção do tecido adiposo e comprometimento vascular e linfático. Uma das sessões do segundo dia do congresso EndoRecife 2026, que tem cobertura do Portal Afya, abordou o tema.

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Predisposição genética e influência hormonal no lipedema

A base genética do lipedema é considerada um dos principais determinantes da doença. Estudos com gêmeas monozigóticas demonstram elevada concordância entre os casos, reforçando a importante contribuição hereditária para seu desenvolvimento.

A predominância quase exclusiva em mulheres destaca o papel central dos hormônios sexuais femininos, especialmente do estrogênio, na gênese da doença. Além do acúmulo desproporcional de tecido adiposo subcutâneo, o lipedema pode cursar com comprometimento vascular e linfático, sendo relativamente frequente a coexistência com linfedema.

Do ponto de vista imunológico, observa-se predomínio de macrófagos do subtipo M2, perfil associado a uma resposta predominantemente anti-inflamatória e de remodelamento tecidual.

Outra característica marcante é o depósito preferencial de gordura em regiões periféricas, padrão que parece conferir, de forma relativa, menor risco para diabetes mellitus tipo 2 e outras complicações metabólicas quando comparado ao acúmulo de gordura visceral.

Puberdade, gestação e menopausa são períodos críticos para o lipedema

A puberdade representa o principal período de início do lipedema. Aproximadamente 62% dos casos têm suas primeiras manifestações nessa fase, coincidindo com o aumento expressivo da produção estrogênica.

Durante a adolescência, o estrogênio promove modificações na arquitetura do tecido adiposo subcutâneo, favorecendo o depósito periférico de gordura e contribuindo para o aparecimento da doença em indivíduos geneticamente predispostos.

A gestação constitui outro momento clássico de exacerbação clínica. O aumento dos níveis de estrogênio pode intensificar o acúmulo de gordura característico do lipedema, enquanto a elevação da progesterona, por seus efeitos mineralocorticoides, favorece retenção hídrica e edema, contribuindo para piora dos sintomas.

Embora possa parecer paradoxal, a menopausa também está associada à progressão ou mesmo ao surgimento tardio da doença. Atualmente, quatro hipóteses principais procuram explicar esse fenômeno:

  • desequilíbrio hormonal global decorrente da transição menopausal;
  • alterações no eixo somatotrófico;
  • mudanças metabólicas relacionadas ao envelhecimento;
  • modificações no metabolismo do estrogênio e na expressão de seus receptores.

Durante a peri e a pós-menopausa, ocorre redistribuição da gordura corporal, com aumento do percentual de gordura e redução da massa magra. Paralelamente, a queda estrogênica associa-se à elevação de marcadores inflamatórios.

A redução da massa muscular também compromete a bomba muscular da panturrilha, diminuindo o retorno venoso e favorecendo edema e sintomas locais.

Como consequência, muitas mulheres atravessam essas transições hormonais sem receber o diagnóstico correto, retardando o início de um tratamento adequado.

Terapia hormonal ainda carece de evidências no tratamento do lipedema

Até o momento, não existem estudos que demonstrem benefício ou prejuízo da terapia hormonal da menopausa sobre a evolução do lipedema.

Assim, a presença de lipedema, isoladamente, não deve ser utilizada como critério para indicar ou contraindicar terapia hormonal. A decisão deve seguir as indicações habituais da endocrinologia e da ginecologia.

Agonistas de GLP-1 e GIP: qual o papel no tratamento do lipedema?

O uso de agonistas do receptor de GLP-1 e dos agonistas duplos GIP/GLP-1 tem despertado crescente interesse no tratamento do lipedema, embora as evidências ainda sejam limitadas.

O racional para sua utilização baseia-se em diversos mecanismos potencialmente benéficos:

  • redução do peso corporal;
  • melhora do retorno venoso;
  • redução da inflamação sistêmica, incluindo diminuição dos níveis de proteína C reativa;
  • controle de comorbidades metabólicas que podem estar associadas e até piorar o lipedema.

Entretanto, é importante destacar que a melhora clínica nem sempre acompanha proporcionalmente a perda ponderal.

Existe uma importante dissonância clínica entre emagrecimento e resolução da doença. A perda significativa de peso não implica, necessariamente, regressão das alterações estruturais do lipedema, uma vez que o tecido adiposo fibrótico característico da doença pode permanecer praticamente inalterado.

Além disso, deve-se considerar o risco de desnutrição relativa e de perda excessiva de massa muscular durante tratamentos intensivos para redução de peso.

Em síntese, as incretinas podem contribuir para redução da inflamação, melhora da dor e controle das comorbidades, mas não representam terapia curativa nem devem ser encaradas como o ponto central do tratamento do lipedema.

Foi discutida ainda a hipótese de utilização de baixas doses de tirzepatida, em torno de 1,5 mg por semana, com objetivo predominantemente anti-inflamatório, associada à melhora relativa do quadro clínico em um relato de caso. Apesar de biologicamente plausível, essa estratégia ainda não possui respaldo em evidências científicas.

Diagnóstico precoce e tratamento multidisciplinar seguem como base

O reconhecimento precoce do lipedema continua sendo fundamental. Entre as características clínicas que auxiliam no diagnóstico, destacam-se história familiar positiva e alterações cutâneas com aspecto de “casca de laranja”.

Atualmente, não existe tratamento farmacológico específico para a doença. O manejo deve ser individualizado e multidisciplinar, contemplando:

  • intervenções nutricionais, com preferência por dieta pobre em alimentos ultraprocessados e com perfil anti-inflamatório;
  • programa de exercícios físicos individualizado;
  • modulação metabólica e tratamento das comorbidades e deficiências nutricionais;
  • descongestão linfática e terapia compressiva;
  • lipoaspiração ou outras abordagens cirúrgicas em casos selecionados, como método de remoção mecânica do tecido adiposo patológico.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Equipe de Jornalistas da Afya.

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