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Endocrinologia6 julho 2026

EndoRecife 2026: Como evitar o reganho de peso após uso de incretinomiméticos

Reganho de peso após incretinomiméticos reforça a necessidade de tratamento contínuo, ajuste de dose e preservação muscular

O avanço dos agonistas do receptor de GLP-1 e dos agonistas duplos GIP/GLP-1 revolucionou o tratamento da obesidade, permitindo perdas ponderais antes alcançadas apenas com a cirurgia bariátrica. Entretanto, um novo desafio passou a ocupar lugar central na prática clínica: como manter o peso perdido ao longo dos anos?

No congresso EndoRecife 2026, que ocorreu entre os dias 2 e 4 de julho na capital de Pernambuco, foram discutidas as evidências atuais sobre estratégias de manutenção do peso após o emagrecimento, bem como o papel da terapia farmacológica contínua, da preservação da massa muscular e das perspectivas futuras nessa área.

GIP perda de peso

Obesidade é doença crônica e exige tratamento de longo prazo

Embora a expectativa pessoal de muitos pacientes seja perder entre 20% e 40% do peso apenas com dieta e exercício físico, sabe-se que, na prática, perdas iguais ou superiores a 10% do peso corporal já proporcionam benefícios clínicos expressivos e constituem um dos principais objetivos terapêuticos.

Atualmente, o arsenal farmacológico disponível permite atingir reduções de peso cada vez mais expressivas. No entanto, a principal questão deixa de ser apenas como perder peso e passa a ser como evitar o reganho de peso.

O conceito enfatizado durante a apresentação foi claro: a obesidade é uma doença crônica e, portanto, deve ser encarada como uma condição que exige tratamento contínuo e de longo prazo.

Por que ocorre reganho de peso após a perda ponderal?

O reganho ponderal após a interrupção do tratamento é consequência de uma série de adaptações metabólicas que favorecem a recuperação do peso perdido.

Entre os principais mecanismos, destacam-se:

  • redução dos sinais anorexigênicos;
  • queda dos níveis de leptina;
  • redução do gasto energético basal;
  • aumento compensatório da fome.

Estima-se que, para cada quilograma de peso perdido, ocorra aumento aproximado de 100 kcal por dia no apetite, refletindo uma resposta biológica que favorece a recuperação do peso corporal.

Além disso, a redução da taxa metabólica basal contribui para esse processo. Para cada 1 kg de gordura perdido, observa-se redução de aproximadamente 4 a 5 kcal/dia no metabolismo basal. Já a perda de 1 kg de massa muscular exerce impacto ainda maior, reduzindo a taxa metabólica basal em cerca de 13 a 15 kcal/dia. Esse dado reforça a importância da preservação da massa magra durante o tratamento da obesidade.

Manutenção da medicação é a principal estratégia contra o reganho de peso

As diretrizes atuais recomendam que o tratamento farmacológico seja mantido em longo prazo e, sempre que possível, com o mesmo agente responsável pela perda ponderal inicial, evitando trocas desnecessárias.

Estudos de extensão com semaglutida e tirzepatida demonstram que, enquanto o tratamento é mantido, a perda de peso tende a permanecer estável, com baixo risco de reganho.

Em contrapartida, a suspensão da medicação resulta em recuperação progressiva do peso, frequentemente aproximando o paciente do peso inicial após cerca de um ano.

Além do reganho ponderal, a interrupção da terapia está associada à perda dos benefícios metabólicos conquistados durante o tratamento, incluindo piora do controle glicêmico, aumento de marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa, e recrudescimento de outras comorbidades relacionadas à obesidade.

Evidências reforçam a segurança do tratamento prolongado

Os dados atualmente disponíveis sustentam a utilização prolongada das terapias incretinomiméticas. O estudo SELECT, conduzido em indivíduos com elevado risco cardiovascular, demonstrou manutenção da perda ponderal e perfil de segurança favorável durante o acompanhamento prolongado.

Da mesma forma, estudos com retatrutida, incluindo seguimento de 104 semanas, evidenciam manutenção sustentada da perda de peso ao longo de aproximadamente dois anos de tratamento.

Outro aspecto ressaltado foi o perfil de tolerabilidade dessas medicações. Os efeitos adversos concentram-se predominantemente nas primeiras 12 semanas de tratamento, tornando-se significativamente menos frequentes após esse período.

Reduzir a dose após atingir a meta aumenta o risco de reganho?

Uma das questões mais debatidas atualmente é se seria possível reduzir a dose do medicamento durante a fase de manutenção.

Estudos como o programa SURMOUNT foram desenhados para explorar essa estratégia. Após o período inicial de emagrecimento, parte dos pacientes teve a dose reduzida para 5 mg, enquanto outro grupo recebeu placebo. Caso ocorresse reganho ponderal significativo após 24 semanas, previa-se a introdução de uma terapia de resgate.

Os resultados reforçam que os pacientes que permaneceram utilizando a maior dose previamente eficaz e bem tolerada apresentaram melhor manutenção do peso perdido.

Já os indivíduos que migraram para placebo recuperaram grande parte do peso previamente perdido, aproximando-se novamente do peso basal. Nos pacientes submetidos posteriormente à terapia de resgate, observou-se nova perda de peso, embora nem sempre suficiente para recuperar integralmente o benefício obtido inicialmente.

Dessa forma, a principal mensagem prática foi: sempre que possível, a estratégia preferencial é manter a maior dose eficaz e bem tolerada utilizada durante o tratamento.

Formulações orais podem ampliar estratégias de manutenção

Outra estratégia discutida foi a possibilidade de transição para agonistas orais do receptor de GLP-1, especialmente o orforglipron. A via oral desperta grande interesse por parte dos pacientes e pode representar uma alternativa na fase de manutenção.

Os estudos sugerem que a transição para o orforglipron permite preservar parte importante da perda ponderal obtida previamente. Entretanto, foi enfatizada a necessidade de acompanhamento clínico sistemático, uma vez que medicamentos com menor potência para redução de peso podem apresentar desempenho inferior na manutenção do emagrecimento em comparação às formulações injetáveis.

Preservar massa muscular pode ser determinante no longo prazo

Outro tema abordado foi a importância da preservação da massa muscular durante o tratamento. Como a perda de músculo reduz significativamente a taxa metabólica basal, estratégias capazes de minimizar esse efeito podem desempenhar papel importante na manutenção do peso perdido.

Nesse contexto, o bimagrumabe foi citado como uma perspectiva promissora. Por promover preservação — e potencialmente aumento — da massa muscular, a droga poderia atenuar a redução do metabolismo basal decorrente da perda de peso, favorecendo maior estabilidade ponderal.

Além disso, seu mecanismo de ação parece ser independente da ingestão calórica, uma vez que o medicamento não atua por supressão do apetite.

Embora os resultados iniciais sejam promissores, ainda são necessários novos estudos para definir seu papel na prática clínica, inclusive em associação às terapias incretinomiméticas.

Acompanhamento contínuo segue essencial para evitar reganho de peso

Por fim, foi enfatizado que a manutenção do peso não depende exclusivamente da farmacoterapia. O seguimento clínico regular mostrou-se um componente fundamental da estratégia terapêutica.

Pacientes acompanhados com maior frequência tendem a apresentar melhor adesão ao tratamento e maior preservação da massa muscular.

Nesse cenário, o manejo ideal da obesidade continua fundamentado na integração de três pilares: ajuste nutricional individualizado, prática regular de exercício físico e tratamento farmacológico contínuo quando indicado.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Júlia Terra Knifis

Júlia Terra Knifis

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