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Endocrinologia14 julho 2026

Efeitos do exercício na glicemia no diabetes tipo 1: estudo de mundo real

Estudo avalia se risco de hipoglicemia induzida pelo exercício continua sendo uma das principais barreiras no diabetes tipo 1.

A prática regular de atividade física é amplamente recomendada para pessoas com diabetes tipo 1 devido aos seus benefícios sobre o controle glicêmico, aptidão cardiovascular, composição corporal, redução da necessidade de insulina e qualidade de vida. Entretanto, o risco de hipoglicemia induzida pelo exercício continua sendo uma das principais barreiras para a adoção regular da atividade física nessa população.

A literatura demonstra que diferentes modalidades de exercício exercem efeitos distintos sobre a glicemia. Em geral, exercícios aeróbicos promovem reduções mais pronunciadas da glicose durante a atividade, enquanto exercícios anaeróbicos tendem a produzir respostas glicêmicas mais complexas. Além disso, a hipoglicemia pós-exercício apresenta padrão bifásico, podendo ocorrer tanto imediatamente após a atividade quanto várias horas depois, especialmente durante a noite.

Apesar da existência de estudos experimentais sobre o tema, permaneciam dúvidas sobre como diferentes tipos de exercício e o horário de sua realização influenciam o risco de hipoglicemia e os perfis glicêmicos em condições reais de vida. Com o avanço dos sistemas de monitorização contínua da glicose (CGM) e dispositivos vestíveis, tornou-se possível avaliar esses fenômenos em larga escala. O objetivo deste estudo, realizado por um grupo de pesquisadores da Alemanha, Áustria e Suiça, foi analisar os efeitos de diferentes modalidades de exercício sobre o controle glicêmico e o risco de hipoglicemia em indivíduos com diabetes tipo 1 utilizando dados de mundo real provenientes de CGM e registros de atividade física.

Métodos

Trata-se de um estudo observacional de dados de mundo real que utilizou informações obtidas de usuários do aplicativo mySugr integradas aos dados do Apple Health e de sistemas de monitorização contínua da glicose. Foram incluídos 3.248 indivíduos com diabetes tipo 1 que forneceram consentimento para utilização de seus dados e que apresentavam cobertura mensal de pelo menos 90% no CGM. Os dados incluídos foram originalmente coletados entre março de 2015 e janeiro de 2025.

As modalidades de atividade foram classificadas em três categorias: caminhada, exercício aeróbico excluindo caminhada (que incluia principalmente corrida e ciclismo) e exercício anaeróbico. Os investigadores avaliaram os efeitos agudos do exercício sobre a glicemia, as alterações glicêmicas ao longo das 24 horas subsequentes, mudanças nos indicadores de tempo no alvo (TIR), tempo abaixo do alvo (TBR) e tempo acima do alvo (TAR), além da probabilidade de hipoglicemia aguda (até duas horas após o exercício) e hipoglicemia noturna (entre meia-noite e seis horas da manhã). Também foi analisada a influência do horário da atividade física, comparando exercícios realizados antes e após 15h30.

Resultados

Foram analisadas 428.058 sessões de exercício. A duração média de cada sessão (independente da modalidade) foi de aproximadamente 45 minutos. A população apresentava idade média de 41,2 anos, duração média do diabetes de 19 anos. 58,5% dos indivíduos eram do sexo masculino. O índice de manejo glicêmico (GMI) médio foi de 7,05%.

Independentemente da modalidade, o exercício reduziu a glicemia média em aproximadamente 19 mg/dL. Entretanto, houve diferenças importantes entre os tipos de atividade. O exercício aeróbico produziu a maior redução aguda da glicose (26 mg/dL), seguido pela caminhada (22 mg/dL), enquanto o exercício anaeróbico apresentou a menor queda (9 mg/dL).

Analisando o período de 24 horas após a atividade, observou-se que todas as modalidades mantiveram níveis glicêmicos inferiores aos observados em dias sedentários. Contudo, o exercício anaeróbico apresentou o maior efeito sustentado de redução glicêmica, seguido pelo exercício aeróbico e pela caminhada. A diferença média em relação aos dias sedentários foi de 8 mg/dL para exercícios anaeróbicos, 6 mg/dL para exercícios aeróbicos e 4 mg/dL para caminhada.

Em relação às métricas de CGM, todas as modalidades aumentaram o TIR e reduziram o TAR. O maior benefício foi observado com exercícios anaeróbicos, que aumentaram o TIR em 3,93%, comparado a 2,94% para exercícios aeróbicos e 2,08% para caminhada.

O risco de hipoglicemia aumentou após todas as formas de exercício, tanto no período imediato quanto durante a noite. O padrão observado confirmou a existência de dois picos principais de risco: um logo após o exercício e outro durante o período noturno.

As modalidades diferiram quanto ao perfil de risco: o exercício aeróbico apresentou a maior probabilidade de hipoglicemia aguda, a caminhada apresentou risco intermediário e o exercício anaeróbico apresentou a menor probabilidade de hipoglicemia imediata. Quanto à hipoglicemia noturna, a caminhada apresentou menor risco que as modalidades mais intensas, enquanto exercícios aeróbicos e anaeróbicos tiveram probabilidades semelhantes de eventos noturnos.

A análise do horário da atividade mostrou que exercícios realizados após 15h30 não aumentaram de forma clinicamente relevante o risco de hipoglicemia noturna quando comparados aos realizados mais cedo. Embora pequenas diferenças estatísticas tenham sido observadas em algumas análises, os tamanhos de efeito foram muito reduzidos, sugerindo relevância clínica mínima.

Conclusões

Neste amplo estudo de mundo real envolvendo mais de 420 mil sessões de exercício em pessoas com diabetes tipo 1, todas as modalidades de atividade física melhoraram o controle glicêmico quando comparadas aos dias sedentários.

Os exercícios aeróbicos produziram as maiores reduções agudas da glicose e o maior risco de hipoglicemia imediata após a atividade. Em contraste, os exercícios anaeróbicos apresentaram menor risco de hipoglicemia aguda e proporcionaram os maiores benefícios glicêmicos sustentados ao longo das 24 horas subsequentes, com maior aumento do tempo em faixa glicêmica.

A caminhada demonstrou perfil intermediário de redução glicêmica e apresentou o menor risco de hipoglicemia noturna. Além disso, o horário de realização do exercício não se mostrou um determinante clinicamente relevante para o risco de hipoglicemia noturna.

Os autores concluem que diferentes modalidades de exercício apresentam perfis distintos de benefício glicêmico e risco de hipoglicemia, informação que pode auxiliar profissionais de saúde na individualização das recomendações de atividade física para pessoas com diabetes tipo 1.

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.

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