A obesidade é reconhecida atualmente como uma doença crônica, multifatorial e recidivante, marcada por elevada dificuldade na manutenção da perda ponderal no longo prazo. Nesse contexto, o chamado weight cycling — ou “efeito sanfona” — caracteriza-se pela alternância repetida entre perda e recuperação de peso corporal, fenômeno extremamente frequente em indivíduos com obesidade. Em uma recente revisão publicada no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, Magkos e Stefan discutem criticamente se essas oscilações ponderais seriam metabolicamente deletérias ou apenas reflexo da própria história natural da obesidade.
Os autores destacam que a recuperação parcial ou total do peso após intervenções para obesidade é a regra, e não a exceção. Mesmo com terapias modernas baseadas em incretinas, capazes de promover reduções de 15–25% do peso corporal, o reganho ponderal frequentemente ocorre após a suspensão do tratamento. Meta-análises sugerem que, após intervenções comportamentais, o peso pode retornar progressivamente ao basal ao longo de aproximadamente cinco anos, enquanto a interrupção de agonistas incretínicos pode levar à recuperação de 55–65% do peso perdido já no primeiro ano. Entretanto, os autores ressaltam que a existência de reganho não implica necessariamente dano metabólico adicional em relação ao estado basal.
Historicamente, o “efeito sanfona” ganhou reputação negativa por supostamente promover maior recuperação de massa adiposa, redução progressiva de massa magra, queda da taxa metabólica basal e agravamento do risco cardiometabólico. Contudo, a revisão demonstra que grande parte dessa associação deriva de estudos observacionais sujeitos a importantes vieses, especialmente causalidade reversa. Indivíduos geneticamente predispostos à obesidade, com maior dificuldade de controle alimentar ou maior risco metabólico basal, tendem naturalmente a realizar mais tentativas frustradas de perda de peso, criando a falsa impressão de que o weight cycling seria o causador das complicações metabólicas observadas.
Outro ponto central discutido é a adaptação metabólica após perda de peso. Embora a redução do gasto energético de repouso ocorra proporcionalmente à diminuição da massa corporal e da massa magra, os autores argumentam que não existem evidências robustas de que o weight cycling produza uma supressão metabólica permanente ou clinicamente relevante. Em muitos estudos controlados, o gasto energético final mostrou-se compatível com o novo peso e composição corporal atingidos. Além disso, a perda de massa magra parece depender mais da magnitude da perda ponderal, idade, ingestão proteica e prática de exercício físico do que do fenômeno de weight cycling em si. Estratégias como dieta hiperproteica e treinamento resistido demonstram capacidade significativa de preservar massa muscular durante o emagrecimento.
A revisão também explora o impacto do weight cycling sobre glicemia, resistência à insulina e composição corporal. Em modelos animais, alguns estudos identificaram alterações inflamatórias e piora da tolerância à glicose; entretanto, quando comparados a animais persistentemente obesos, os animais submetidos a ciclos de perda e ganho de peso frequentemente apresentaram menor adiposidade e melhor perfil metabólico. Em humanos, os dados disponíveis não sustentam associação consistente entre weight cycling e maior risco de diabetes tipo 2, mortalidade cardiovascular ou sarcopenia independentemente da adiposidade total. Os autores reforçam que muitos dos desfechos negativos atribuídos ao efeito sanfona provavelmente refletem maior tempo cumulativo de exposição à obesidade, envelhecimento, perda de peso involuntária ou persistência do ambiente obesogênico.
Dessa forma, a principal mensagem do artigo é que pacientes com obesidade não devem ser desencorajados a buscar perda de peso pelo receio do “efeito sanfona”. A evidência atual sugere que os benefícios metabólicos, cardiovasculares e funcionais obtidos mesmo com reduções transitórias de peso superam amplamente os potenciais riscos associados às flutuações ponderais. Além disso, o weight cycling parece representar uma etapa quase inevitável no processo de tratamento de uma doença crônica e recidivante como a obesidade. A revisão reforça ainda a necessidade de estratégias de longo prazo, incluindo manutenção farmacológica, atividade física regular, maior ingestão proteica e acompanhamento contínuo, visando reduzir o reganho ponderal e preservar composição corporal e saúde metabólica ao longo do tempo.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Redator em Endopapers. Mestre em Neurociências UFPE. Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Editor associado do livro Endocrinologia Clínica 7a edição 2020. Preceptor da residência em endocrinologia do HC – UFPE.
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