A insuficiência hepática é uma das disfunções orgânicas mais complexas, sendo capaz de afetar outros diversos sistemas do corpo humano. Consequentemente, há muitos estudos envolvido acerca dessa condição de modo a refinar seu diagnóstico e melhorar as possibilidades terapêuticas.
Baseado na relevância do tema, recentemente foi publicado um artigo que visou avaliar a associação entre função tireoidiana e prognóstico de pacientes com insuficiência hepática. Vamos ver o que o artigo nos trouxe de informações.
Introdução:
A insuficiência hepática é uma condição clínica caracterizada por deterioração da função hepática, ativação de inflamação sistêmica e progressão para falência múltipla de órgãos. Apesar de todos os avanços na medicina, a sua mortalidade ainda é elevada.
O eixo tireoidiano é crucial para a regulação metabólica: o fígado faz a mediação da deiodinação, conjugação e clearance do hormônio tireoidiano, enquanto os hormônios tireoidianos regulam a nível hepático o metabolismo glicêmico, lipídico e proteico.
Na insuficiência hepática, esse eixo é interrompido resultando na síndrome da doença não tireoidiana, condição caracterizada por testes de função tireoidiana anormais na ausência de uma doença tireoidiana primária.
Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar a associação entre disfunção tireoidiana e prognóstico em pacientes com insuficiência hepática.
Metodologia:
Em base de dados eletrônicos foram pesquisados estudos até agosto de 2025 que averiguassem a associação entre função tireoidiana, especificamente valores de TSH, T3L, T4L, e o prognóstico em pacientes com insuficiência hepática, incluindo mortalidade, admissão em unidade de terapia intensiva e falência de órgãos.
Os critérios de inclusão foram: estudos prospectivos ou retrospectivos de coorte, com pacientes adultos diagnosticados com insuficiência hepática e com função tireoidiana aferida no momento da admissão e durante a internação levando-se em consideração valores de T3L, T4L e TSH.
Já os critérios de exclusão foram: estudos de revisão, metanálises, resumos, editorais, cartas e comentários; estudos envolvendo participantes com menos de 18 anos e/ou gestantes e estudos com pacientes com malignidades ou distúrbios infecciosos graves.
Resultados:
Foram selecionados 11 estudos com 3595 participantes de 4 países (China, Áustria, Alemanha e Brasil), sendo a maioria com tempo de seguimento variando entre 28 dias e dois anos. A disfunção tireoidiana foi fortemente associada a aumento de mortalidade em pacientes com insuficiência hepática em ambos os sexos. Dos parâmetros de função tireoidiana os níveis de T3L foram os mais associados a esse aumento.
Por fim, quando foi feita a análise por subgrupo, percebeu-se que quando os pacientes apresentavam disfunção tireoidiana, a maioria deles estava associada à insuficiência hepática por hepatite B.
Discussão:
O objetivo do presente estudo foi avaliar a disfunção tireoidiana associada a prognóstico de pacientes com insuficiência hepática. Os achados revelaram que níveis baixos de T3L foram fortemente associados a aumento da mortalidade nesses pacientes.
No entanto, essa aplicação pode sofrer com alguns fatores de confudimento, a exemplo do fato de que anormalidades tireoidianas na insuficiência hepática são altamente dinâmicas e influenciadas por fatores não tireoidianos, o que pode não refletir uma disfunção tireoidiana de fato.
Ainda assim, o fato de T3l ser o marcador mais associado à mortalidade, o torna um um potencial exame de rastreio em pacientes com insuficiência hepática para avaliação do prognóstico.
Por fim, o presente estudo não foi capaz de avaliar se a reposição de hormônio tireoidiano seria benéfica nesse cenário.
Conclusão:
A disfunção tireoidiana, particularmente, baixos níveis de T3L, é associada a elevada mortalidade em pacientes com insuficiência hepática. Tais achados sugerem que a rotina da avaliação da função tireoidiana nesses pacientes pode auxiliar a identificar pacientes de alto risco.
No entanto, ainda não necessários mais estudos para elucidar os mecanismos de tal associação e possíveis aplicações terapêuticas para melhora do prognóstico.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.