A disestesia é um distúrbio sensorial caracterizado por sensações desagradáveis, como queimação, formigamento, dor em choque ou desconforto cutâneo, que podem surgir espontaneamente ou após estímulos leves. Embora classicamente associada a neuropatias periféricas, lesões do sistema nervoso ou condições metabólicas, a disestesia tem sido recentemente descrita como um possível evento adverso relacionado ao uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), especialmente com o uso de doses mais elevadas dessas medicações.
Em quatro ensaios clínicos recentes controlados por placebo, a disestesia foi relatada como efeito colateral associado à semaglutida.
A incidência de disestesia nesses estudos foi a seguinte:
- Estudo OASIS-4: 5% com 25 mg de semaglutida oral diariamente.
- Estudo OASIS-1: 13% com 50 mg de semaglutida oral diariamente.
- Estudo STEP UP: 23% e 6% com semaglutida injetada em doses semanais de 7,2 mg e 2,4 mg, respectivamente — e 19% e 5% em um estudo separado das mesmas duas doses.
Os mecanismos fisiopatológicos envolvidos ainda não estão totalmente esclarecidos. Uma das hipóteses é que os agonistas de GLP-1 possam modular vias centrais e periféricas relacionadas à percepção sensorial, uma vez que receptores de GLP-1 estão presentes no sistema nervoso central. Alterações rápidas no peso corporal, mudanças metabólicas abruptas ou efeitos indiretos sobre fibras nervosas periféricas também têm sido considerados como possíveis contribuintes para o desenvolvimento da disestesia nesses pacientes.
Do ponto de vista clínico, a disestesia associada aos agonistas de GLP-1 costuma ser descrita como um sintoma incômodo, mas geralmente não grave. Ainda assim, pode impactar a adesão ao tratamento e a qualidade de vida, especialmente quando persistente. O reconhecimento desse efeito adverso é fundamental para que o profissional de saúde possa orientar adequadamente o paciente, diferenciar a condição de outras causas neurológicas e avaliar a necessidade de ajuste de dose ou suspensão da medicação.
Por fim, à medida que o uso de agonistas de GLP-1 se expande e novas formulações e doses são estudadas, é provável que a disestesia passe a ser mais frequentemente reconhecida na prática clínica. A conscientização dos profissionais e o acompanhamento cuidadoso dos sintomas neurossensoriais são essenciais para garantir o uso seguro dessas terapias, equilibrando seus expressivos benefícios metabólicos com a identificação precoce de eventos adversos menos comuns.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
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