A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) atualizou sua diretriz de tratamento farmacológico da obesidade em 2026, em um contexto de expansão da prevalência, alta carga de complicações e crescente impacto assistencial e econômico no Brasil. O documento parte de uma premissa correta e cada vez mais incontornável: obesidade é doença crônica, multifatorial e recidivante, não apenas um marcador antropométrico. A fisiopatologia envolve disfunção neuroendócrina da regulação do peso, adiposidade ectópica e inflamação metabólica, o que ajuda a explicar sua associação com doença cardiovascular, MASLD, apneia do sono, osteoartrite e outras comorbidades.

Objetivo e escopo
O texto busca orientar quando indicar farmacoterapia, quais metas terapêuticas perseguir e como escolher medicamentos em cenários clínicos específicos, incluindo risco cardiovascular, insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, pré-diabetes, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, osteoartrite, apneia obstrutiva do sono e risco de sarcopenia. Em relação ao posicionamento da ABESO de 2024, a principal mudança é a incorporação de novos ensaios clínicos randomizados e metanálises, com ênfase maior em desfechos clínicos além da balança, no uso de fármacos de alta potência e em critérios de indicação que consideram também distribuição de gordura e complicações relacionadas à adiposidade, e não só o IMC clássico.
Como a diretriz foi construída
Metodologicamente, trata-se de um documento mais robusto do que muitos consensos narrativos. A elaboração seguiu princípios do AGREE II, com comissão de 27 especialistas, participação de representante de pacientes, busca em PubMed/MEDLINE e Cochrane Library, além de diretrizes internacionais e dados de congressos, contemplando evidências disponíveis até fevereiro de 2026. As recomendações foram graduadas segundo os critérios da European Society of Cardiology (ESC) e validadas por método Delphi modificado em duas rodadas, com consenso pré-definido em 80% ou mais. Foram aprovadas 32 recomendações, com declaração estruturada de conflitos de interesse e previsão de atualização a cada dois anos.
Recomendações centrais
A mensagem prática é clara: mudança de estilo de vida continua mandatória, mas não deve funcionar como barreira para retardar farmacoterapia em pacientes elegíveis. A diretriz recomenda tratamento medicamentoso em IMC ≥30 kg/m², ou ≥27 kg/m² com complicações relacionadas à adiposidade, e admite considerá-lo mesmo fora desses cortes quando há adiposidade central aumentada e complicações clínicas. Define como alvo razoável, para a maioria, perda de peso de 10% ou mais, mas enfatiza individualização conforme idade, fragilidade, sarcopenia, comorbidades e objetivo clínico. Também reforça manutenção em longo prazo, reconhecendo a natureza crônica da doença, e propõe priorizar, quando viável, fármacos de maior potência, especialmente semaglutida e tirzepatida.
Onde a diretriz avança
O documento dá um passo importante ao deslocar o foco do “peso ideal” para a melhora de desfechos clínicos, funcionalidade e qualidade de vida. Entre as recomendações mais úteis, destacam-se: semaglutida para pacientes com obesidade, sem diabetes, e doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida; semaglutida ou tirzepatida em insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; farmacoterapia para prevenir progressão de pré-diabetes; semaglutida em MASH com fibrose; tirzepatida para redução da gravidade da apneia obstrutiva do sono; e rastreio sistemático de sarcopenia em idosos ou pacientes de risco. Em contrapartida, a diretriz é assertiva ao desaconselhar sibutramina em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica e ao não recomendar fórmulas magistrais ou medicamentos sem respaldo em ensaios clínicos randomizados.
Limites e aplicação prática
As conclusões são, em geral, metodologicamente consistentes, mas nem todas as recomendações têm a mesma solidez: várias dependem de evidência indireta, análises post hoc, poucos estudos dedicados a certos desfechos ou consenso de especialistas. Persistem lacunas sobre custo-efetividade no Brasil, acesso no Sistema Único de Saúde e na saúde suplementar, uso em IMCs mais baixos, combinação de fármacos e impacto em desfechos duros de longo prazo fora de cenários já estudados. Para quem atende no ambulatório, a lição é evitar inércia terapêutica e escolher o fármaco pela meta clínica e pela comorbidade predominante; na enfermaria e no plantão, vale reconhecer obesidade como doença crônica que exige continuidade assistencial, revisar contraindicações e evitar condutas sem evidência, especialmente manipulações e usos potencialmente iatrogênicos.
Autoria
Paulo Melo
Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Residência Médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Piauí e Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Belo Horizonte. Possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. É mestrando e professor da área de endocrinologia na Afya Educação Médica.
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