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Endocrinologia31 agosto 2026

Diabetes materno aumenta risco de TEA e TDAH na prole?

Revisão avalia associação entre diabetes materno, TEA e TDAH na prole, com maior consistência para TDAH.

O diabetes materno — abrangendo diabetes mellitus gestacional e diabetes tipo 1 ou tipo 2 pré-existente — está associado a desfechos perinatais adversos.

Evidências também sugerem que a hiperglicemia materna e a resistência à insulina podem estar associadas a desfechos de neurodesenvolvimento a longo prazo, especialmente transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Grandes estudos de coorte de base populacional demonstram risco elevado de TEA e TDAH entre crianças expostas ao diabetes materno in utero. A magnitude desse risco varia conforme o tipo de diabetes, o momento do diagnóstico e a modalidade de tratamento.

Como foi conduzida a revisão?

O artigo é uma short review, publicada em julho de 2026 na revista Frontiers in Clinical Diabetes and Healthcare.

A revisão sintetizou evidências epidemiológicas e mecanísticas atuais que associam o diabetes materno à incidência de TEA e TDAH na prole.

O objetivo foi discutir não apenas a associação observada em estudos populacionais, mas também possíveis mecanismos biológicos envolvidos e fatores maternos que podem modular esse risco.

O que as evidências mostram sobre TEA e TDAH?

As evidências atuais corroboram a existência de associação entre diabetes materno e risco aumentado de TEA e TDAH na prole.

A associação parece ser mais forte e consistente para TDAH, especialmente na prole de mães com diabetes tipo 1.

Em uma grande coorte populacional citada na revisão, com 333.182 crianças, das quais 37.878 foram expostas ao diabetes materno, a incidência de TDAH foi maior entre filhos de mães com diabetes tipo 1, seguida por diabetes tipo 2 e diabetes gestacional.

Esse padrão sugere que tanto o tipo de diabetes quanto a exposição metabólica durante a gestação podem influenciar o risco observado.

Quais mecanismos podem explicar essa relação?

Os mecanismos biológicos propostos incluem:

  • estresse oxidativo induzido pela hiperglicemia;
  • modificações epigenéticas;
  • desregulação hormonal envolvendo estrogênio, progesterona e andrógenos;
  • maior incidência de parto prematuro.

Essas vias poderiam interferir no desenvolvimento cerebral fetal e ajudar a explicar parte da associação entre diabetes materno e desfechos neuropsiquiátricos na infância.

Ainda assim, esses mecanismos permanecem hipóteses biológicas plausíveis, e não comprovação definitiva de causalidade.

Quais fatores maternos modulam o risco?

Fatores maternos também podem influenciar a magnitude da associação.

Entre eles estão:

  • obesidade;
  • idade materna avançada;
  • tratamentos de fertilidade;
  • tipo de diabetes;
  • momento do diagnóstico;
  • controle glicêmico.

Esses fatores podem atuar como modificadores de risco ou como confundidores, dificultando a separação entre o efeito do diabetes em si e o efeito de condições associadas.

É possível afirmar causalidade?

Apesar do acúmulo de evidências, a causalidade permanece incerta.

A heterogeneidade entre os estudos e a presença de confusão residual limitam a inferência causal.

Isso significa que os achados devem ser interpretados como associação, e não como prova de que o diabetes materno cause diretamente TEA ou TDAH.

Além disso, a magnitude do risco varia de acordo com o tipo de diabetes, o momento do diagnóstico, o controle glicêmico e fatores maternos como obesidade e idade.

O que ainda precisa ser estudado?

São necessários estudos prospectivos bem delineados, que incluam fenotipagem detalhada, perfil glicêmico e investigação de mecanismos.

Esses estudos podem ajudar a esclarecer se o risco observado está diretamente relacionado à hiperglicemia, à resistência à insulina, a fatores inflamatórios, a exposições hormonais, ao parto prematuro ou a características maternas associadas.

Também podem contribuir para embasar estratégias preventivas em gestações complicadas pelo diabetes.

Mensagem prática

O diabetes materno, incluindo diabetes gestacional e diabetes pré-existente, está associado a maior risco de TEA e TDAH na prole, segundo evidências epidemiológicas reunidas em revisão recente.

A associação parece mais forte e consistente para TDAH, especialmente em filhos de mães com diabetes tipo 1.

No entanto, os dados ainda não permitem afirmar causalidade.

Na prática, o estudo reforça a importância do cuidado metabólico antes e durante a gestação, com controle glicêmico, manejo de obesidade, acompanhamento pré-natal adequado e atenção ao desenvolvimento infantil após o nascimento.

A mensagem principal é evitar alarmismo: o diabetes materno pode estar associado a maior risco, mas a presença de diabetes na gestação não determina que a criança desenvolverá TEA ou TDAH.

Autoria

Foto de Letícia Japiassú

Letícia Japiassú

Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina Unirio. Pós Graduação em Endocrinnologia PUC-RJ. Especialista em Clínica Médica, Nutrologia e Terapia Nutricional Parenteral e Enteral.

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