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Endocrinologia13 dezembro 2025

Semaglutida na Doença Renal Crônica reduz eventos cardiorrenais?

Uma recente revisão sistemática e metanálise reuniu os ensaios clínicos randomizados mais recentes, comparando a medicação versus placebo em pacientes com DRC, com e sem DM2.
Por Paulo Melo

A Doença Renal Crônica (DRC) afeta mais de meio bilhão de pessoas e vem se tornando uma das maiores causas globais de mortalidade. O diagnóstico se baseia na redução sustentada da taxa de filtração glomerular e/ou na presença de albuminúria persistente. A DRC é uma condição sabidamente associada a risco cardiovascular aumentado, pior qualidade de vida e elevada probabilidade de progressão para falência renal. A etiologia é multifatorial, mas o diabetes tipo 2 (DM2) responde por quase metade dos casos. 

Nas últimas décadas, tivemos mudanças importantes no tratamento desses pacientes. Além das já consolidadas terapias que atuam no sistema renina-angiotensina-aldosterona, emergiram classes capazes de reduzir eventos cardiovasculares e renais de maneira consistente: os inibidores do SGLT2 e os agonistas do receptor de GLP-1. Em particular, a semaglutida tem se destacado pela redução de risco cardiovascular, perda ponderal e possível efeito renoprotetor. Estudos prévios demonstraram redução importante em MACE e eventos renais em populações com diabetes, mas com limitações relevantes pelo número reduzido de ensaios, heterogeneidade e ausência de dados robustos em indivíduos com DRC sem diabetes. 

Com o objetivo de avaliar de forma mais abrangente os desfechos cardiovasculares e renais da semaglutida em um número maior de pacientes, uma recente revisão sistemática e metanálise reuniu os ensaios clínicos randomizados mais recentes, comparando a medicação versus placebo em pacientes com DRC, com e sem DM2. 

 

Metodologia: 

 A metanálise foi conduzida seguindo rigorosamente PRISMA e AMSTAR 2, incluindo estudos até maio de 2025. Foram considerados apenas ensaios clínicos randomizados com grupo placebo, envolvendo adultos com DRC, independentemente da presença de DM2. Após triagem inicial de 2617 registros, 91 artigos foram avaliados integralmente, e somente cinco RCTs preencheram todos os critérios de inclusão, os demais foram excluídos por ausência de grupo controle, falta de desfechos clínicos relevantes ou por serem estudos não revisados por pares. 

Os estudos foram multicêntricos, majoritariamente fase 3, realizados em diferentes regiões, incluindo coortes exclusivamente com diabetes e um ensaio recente em portadores de DRC não diabéticos. Os desfechos primários avaliados foram: mortalidade cardiovascular, MACE, eventos renais maiores, infarto não fatal e AVC não fatal. Entre os secundários: mortalidade por todas as causas, eventos adversos graves, hospitalizações por angina instável ou insuficiência cardíaca e uso de medicações cardiovasculares. No geral, os riscos de vieses foram baixos e a revisão apresenta qualidade moderada por sua seleção e análise robusta, mas limitada pelo pequeno número de ensaios e pela heterogeneidade em alguns desfechos secundários. 

 

Resultados e Discussão: 

 A análise combinada englobou 12.785 pacientes, majoritariamente diabéticos, com perfis basais semelhantes entre grupos. A semaglutida reduziu de forma significativa três desfechos primários: mortalidade cardiovascular (26% de redução), MACE (22%) e eventos renais maiores (20%), todos com baixa ou nula heterogeneidade, sinalização clara de consistência entre os estudos. Infarto não fatal e AVC não fatal não apresentaram significância, embora as tendências favorecessem a intervenção, inclusive, após análise de sensibilidade, houve impacto positivo sobre AVC não fatal ao excluir um estudo específico. 

Entre os desfechos secundários, houve redução discreta, porém significativa, da mortalidade por todas as causas e dos eventos adversos graves, além de menor uso de medicações cardiovasculares. Por outro lado, hospitalizações por angina instável ou insuficiência cardíaca não foram reduzidas. 

Dessa forma, estes resultados ampliam as evidências favoráveis aos agonistas de GLP-1 como agentes cardiorrenais, inclusive na DRC sem diabetes, ainda que essa população careça de mais estudos. Os achados consolidam a semaglutida como opção terapêutica de amplo impacto nesse grupo de pacientes, mas reforço que os inibidores de SGLT2 ainda permanecem como primeira linha no manejo da DRC. 

 

Conclusão:
 A metanálise reforça que a semaglutida não apenas é segura como reduz eventos cardiovasculares e renais em pacientes com DRC, com ou sem diabetes. Apesar disso, as limitações pelo número reduzido de estudos, seguimento relativamente curto e predominância de pacientes diabéticos, exigem cautela ao extrapolar para toda a população com DRC. Ainda assim, as evidências são consistentes e alinhadas às atuais diretrizes. 

Os achados são compatíveis com as recomendações da Diretriz da SBD 2025: SGLT2i como primeira escolha para pacientes com DM2, RAC ≥ 30 mg/g e TFG > 20 mL/min/1,73m², independentemente da HbA1c, e Semaglutida recomendada em portadores de DRC diabética com TFG > 25 mL/min/1,73m² e RAC > 100 mg/g, como adjuvante, buscando redução adicional de risco renal. 

A classe dos análogos de GLP-1 vem se consolidando como eixo fundamental no tratamento do paciente com diabetes e DRC, especialmente pela combinação de perda de peso, impacto cardiovascular e segurança. Embora os inibidores do SGLT2 persistam como superiores em proteção renal, esta metanálise reafirma que os agonistas, em particular a semaglutida, podem melhorar de forma significativa a capacidade de reduzir eventos graves em uma população de alto risco. 

Autoria

Foto de Paulo Melo

Paulo Melo

Conteudista médico na Afya. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com residências em Endocrinologia pela Santa Casa Belo Horizonte. Atualmente, mestrando em Ciências e Saúde (UFPI) e professor do Afya Centro Universitário.

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