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Endocrinologia13 julho 2026

Cálcio e vitamina D previnem fraturas e quedas? Veja o que mostra a metanálise

Metanálise mostra pouco ou nenhum benefício clínico de cálcio, vitamina D ou da combinação na prevenção de fraturas e quedas.

Fraturas e quedas representam importantes causas de morbidade, perda funcional, institucionalização e mortalidade, especialmente em idosos. Aproximadamente um terço dos adultos com 65 anos ou mais sofre ao menos uma queda por ano, e as fraturas decorrentes dessas quedas geram elevado impacto clínico e econômico.

O cálcio e a vitamina D desempenham papel fundamental na homeostase óssea e na função muscular. Estudos observacionais associaram baixos níveis de vitamina D e baixa ingestão de cálcio a menor densidade mineral óssea, diminuição de função muscular, maior risco de quedas e fraturas. Com base em resultados iniciais promissores de ensaios clínicos realizados nas décadas de 1990 e 2000, a suplementação de vitamina D, isoladamente ou em combinação com cálcio, passou a ser amplamente recomendada por diretrizes clínicas para prevenção de fraturas e quedas.

Entretanto, revisões sistemáticas mais recentes produziram resultados conflitantes, particularmente em relação à suplementação combinada. Além disso, grandes estudos publicados nos últimos anos ampliaram substancialmente a base de evidências disponível. Diante desse cenário, um grupo de autores canadense realizou uma revisão sistemática e meta-análise atualizada para determinar o efeito da suplementação de cálcio, vitamina D ou da combinação de ambos na prevenção de fraturas e quedas em adultos. Os achados foram publicados no periódico BMJ em 2026.

cálcio e vitamina D fraturas e quedas

Métodos

Foi conduzida uma revisão sistemática com meta-análise de ensaios clínicos randomizados (RCTs) comparando suplementação de cálcio, vitamina D ou cálcio associado à vitamina D versus placebo ou ausência de tratamento, em adultos com idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos estudos envolvendo medicamentos para osteoporose, corticosteroides de uso prolongado ou análogos ativos da vitamina D.

O desfecho primário foi o risco de qualquer fratura. Os desfechos secundários incluíram fratura de quadril, fraturas não-vertebrais, fraturas vertebrais, risco de quedas e número total de quedas. A qualidade metodológica foi avaliada por meio da ferramenta RoB2 e a certeza da evidência foi classificada pelo sistema GRADE.

Resultados

Após a busca inicial de 12250 RCTs, foram incluídos 69 estudos envolvendo 153.902 participantes. A maioria dos estudos foi conduzida em idosos residentes na comunidade, sem alto risco basal para quedas ou fraturas. A idade mediana dos participantes foi de 71,2 anos, e 84% dos estudos incluíram populações com idade média igual ou superior a 65 anos.

Dos 69 estudos, 16 avaliaram cálcio isoladamente, 46 avaliaram vitamina D isoladamente e 17 estudaram a combinação de cálcio e vitamina D. A mediana de acompanhamento foi de dois anos. A maioria das evidências foi considerada de qualidade moderada a alta.

A suplementação de cálcio isolado não reduziu significativamente o risco de qualquer fratura, fraturas não-vertebrais, fraturas de quadril, fraturas vertebrais ou quedas. Não houve diferença nas análises de subgrupo. O

A vitamina D isolada também não demonstrou benefício para nenhum dos desfechos avaliados. O risco de qualquer fratura foi idêntico entre os grupos tratados e controles. Da mesma forma, não houve redução de fraturas de quadril, fraturas não-vertebrais, fraturas vertebrais, risco de quedas ou número total de quedas.

A suplementação combinada foi a única estratégia associada a reduções estatisticamente significativas porém discretas em alguns desfechos. Houve redução relativa de 9% no risco de qualquer fratura, de 16% no risco de fratura de quadril e de 13% no risco de fraturas não-vertebrais.

Entretanto, os benefícios absolutos foram pequenos, colocando em questão a relevância clínica dos achados. Houve diminuição aproximada de 1% em fraturas totais, 0,3% em fraturas de quadril e 1,6% em fraturas não-vertebrais. Esses valores ficaram abaixo dos limiares previamente definidos pelos autores.

Além disso, análises de sensibilidade mostraram que boa parte do benefício observado foi influenciada por um único estudo realizado em mulheres institucionalizadas muito idosas, com elevado risco basal de fraturas e deficiência importante de vitamina D. Quando esse estudo foi removido, os efeitos perderam significância estatística.

Nenhuma das estratégias avaliadas demonstrou redução clinicamente relevante do risco de quedas. Também não foram identificados efeitos consistentes em análises de subgrupos segundo idade, sexo, risco basal de fraturas, níveis de vitamina D ou características da suplementação.

Conclusões

Esta revisão sistemática envolvendo 69 ensaios clínicos e mais de 153 mil participantes concluiu que a suplementação de cálcio, vitamina D ou a combinação de ambos oferece pouco ou nenhum benefício clinicamente relevante na prevenção de fraturas e quedas em adultos.

Embora a suplementação combinada de cálcio e vitamina D tenha produzido reduções estatisticamente significativas em alguns tipos de fraturas, os benefícios absolutos foram pequenos e inferiores aos limiares considerados clinicamente importantes pelos autores. Nenhuma intervenção demonstrou redução significativa de quedas.

Os autores concluem que os resultados não sustentam a recomendação rotineira de suplementação de cálcio, vitamina D ou da combinação de ambos para prevenção de fraturas e quedas na população geral. Ressaltam, entretanto, que os achados podem não ser aplicáveis a indivíduos com doenças ósseas específicas, usuários de medicamentos para osteoporose ou pacientes em uso prolongado de corticosteroides.

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.

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