A atividade física ocupa posição central no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Os benefícios do exercício sobre controle glicêmico, composição corporal e redução do risco cardiovascular são bem estabelecidos, mas o seu impacto direto sobre a função vascular ainda recebe menor atenção na prática clínica.
A disfunção endotelial e o aumento da rigidez arterial representam etapas precoces da aterosclerose e estão diretamente relacionados ao maior risco de eventos cardiovasculares nesses pacientes. Uma recente revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 avaliou se o treinamento resistido isolado ou associado ao exercício aeróbico é capaz de melhorar marcadores de função vascular em adultos com DM2.
Os resultados reforçam que o exercício físico deve ser encarado não apenas como ferramenta para redução da hemoglobina glicada, mas também como estratégia terapêutica capaz de modificar mecanismos fisiopatológicos envolvidos na doença cardiovascular associada ao diabetes.
Metodologia:
Os autores realizaram uma revisão sistemática com metanálise incluindo apenas ensaios clínicos randomizados que investigaram os efeitos do treinamento resistido (RT – resistance training), isoladamente ou combinado ao exercício aeróbico (RT+AT), sobre diferentes parâmetros de função vascular em indivíduos com diabetes tipo 2.
Foram analisados desfechos relacionados à saúde vascular, incluindo rigidez arterial, dilatação fluxo-mediada da artéria braquial (FMD), índices de reflexão de onda e parâmetros hemodinâmicos periféricos.
A FMD merece destaque especial por representar um dos principais marcadores não invasivos de função endotelial atualmente utilizados em pesquisa clínica, possuindo associação direta com a estratificação do risco cardiovascular.
Resultados e Discussão:
A análise demonstrou que programas contendo treinamento resistido produziram melhora significativa da função vascular em indivíduos com DM2. Entre os desfechos avaliados, os resultados mais consistentes foram observados na dilatação fluxo-mediada (FMD) e os benefícios foram observados tanto com treinamento resistido isolado quanto com programas combinados envolvendo treinamento resistido associado ao exercício aeróbico. Entretanto, os efeitos foram maiores nas intervenções combinadas.
Na análise de subgrupos, os melhores resultados ocorreram em protocolos que utilizaram exercício resistido associado ao exercício aeróbico, intensidades mais elevadas, frequência de três sessões semanais, sessões com duração igual ou superior a 60 minutos e programas com duração mínima de 12 semanas.
O DM2 não é apenas uma doença metabólica. A hiperglicemia crônica promove alterações estruturais e funcionais da parede vascular, incluindo aumento do estresse oxidativo, inflamação crônica e rigidez arterial progressiva. Essas alterações antecedem frequentemente o surgimento de eventos clínicos como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.
Na prática clínica, isso reforça a necessidade de programas que combinam fortalecimento muscular e atividade aeróbica, a fim de gerar benefícios metabólicos e cardiovasculares mais abrangentes do que a utilização isolada de apenas uma modalidade.
Os achados da metanálise estão alinhados à atual Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes que recomenda que indivíduos com DM2 realizem exercícios combinados envolvendo treinamento resistido e atividade aeróbica de forma regular. A recomendação inclui a realização de exercício aeróbico por pelo menos 150 minutos semanais em intensidade moderada ou equivalente vigorosa e treinamento resistido duas a três vezes por semana, em dias não consecutivos com realização de pelo menos um ciclo de 10 a 15 repetições em cinco ou mais exercícios por sessão. Além disso, não permanecer mais de dois dias consecutivos sem atividade física.
Conclusão:
Esta revisão sistemática e metanálise reforça que programas de treinamento resistido, especialmente quando combinados ao exercício aeróbico, promovem melhora significativa de marcadores de função vascular em indivíduos com diabetes tipo 2.
Os resultados observados na função endotelial e na saúde vascular ampliam nossa compreensão sobre os benefícios da atividade física, mostrando que seus efeitos vão muito além da redução da glicemia.
Na prática, o exercício físico continua sendo uma das intervenções mais eficazes, seguras e custo-efetivas disponíveis para o tratamento do diabetes tipo 2. Os benefícios não se restringem ao controle metabólico e do peso, o risco cardiovascular reduz de forma consistente nesses pacientes, evidências cada vez mais robustas nos mostram essa mensagem.
Autoria

Raphael Lisboa
Estagiário de conteúdo na Afya. Graduando em Jornalismo pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
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