A doença hepática inflamatória associada à disfunção metabólica (MASH) tem passado por uma transformação significativa em seu manejo nos últimos anos, culminando em avanços relevantes em 2024 e 2025. Historicamente, o tratamento limitava-se quase exclusivamente a intervenções no estilo de vida, com resultados muitas vezes insuficientes para modificar a história natural da doença. Esse cenário começou a mudar com a aprovação das primeiras terapias farmacológicas direcionadas especificamente à fisiopatologia da MASH, inaugurando uma nova era no cuidado desses pacientes.
Descobertas recentes
Em 2024, o resmetirom, um agonista seletivo do receptor beta do hormônio tireoidiano no fígado, tornou-se o primeiro medicamento aprovado para o tratamento de pacientes com MASH. Esse marco representou a validação clínica do eixo metabólico-hepático como alvo terapêutico e abriu caminho para o desenvolvimento e aprovação de outras estratégias farmacológicas com impacto direto na inflamação, na esteatose e na fibrose hepática.
Já em 2025, novos dados consolidaram o papel dos agonistas do receptor de GLP-1 no tratamento da MASH. A aprovação da semaglutida injetável pela FDA para adultos com MASH e fibrose hepática moderada a avançada foi baseada nos resultados do estudo randomizado ESSENCE. Nesse ensaio, envolvendo cerca de 800 pacientes com MASH comprovada por biópsia e fibrose estágio 2 ou 3, a semaglutida 2,4 mg semanal demonstrou taxas significativamente maiores de resolução histológica da esteato-hepatite sem piora da fibrose, além de maior regressão da fibrose sem agravamento da inflamação hepática, quando comparada ao placebo após 72 semanas de seguimento.
Além dos agonistas de GLP-1, evidências emergentes em 2025 apontaram para um possível papel dos inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) no tratamento da MASH. Em um estudo randomizado realizado na China, pacientes tratados com dapagliflozina apresentaram maior probabilidade de melhora da MASH e da fibrose hepática em comparação ao placebo. Embora os dados ainda sejam iniciais e provenientes de um estudo unicêntrico, os resultados são encorajadores e reforçam o potencial benefício de terapias originalmente desenvolvidas para o diabetes no contexto da doença hepática metabólica.
Novos rumos para o tratamento da MASH
De forma geral, os avanços observados em 2025 indicam que o tratamento da MASH está deixando de ser exclusivamente preventivo ou paliativo para se tornar efetivamente modificador da doença. Tanto a semaglutida quanto a dapagliflozina demonstraram benefícios em pacientes com e sem diabetes, embora ainda existam lacunas importantes, como a eficácia em indivíduos com índice de massa corporal normal. Paralelamente, diretrizes recentes têm enfatizado o uso de métodos não invasivos, como a elastografia transitória, para identificar candidatos ao tratamento, o que pode facilitar a ampliação do diagnóstico e do manejo da MASH também em níveis primários de atenção, mantendo as referências científicas que embasam esses avanços.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
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