O avanço das terapias baseadas em incretinas, incluindo análogos de GLP-1 e tirzepatida, ampliou a discussão sobre os efeitos da perda ponderal na composição corporal. Embora a redução de massa magra seja frequentemente citada como um possível risco durante o tratamento da obesidade, uma publicação recente na seção Commentary do Diabetes, Obesity and Metabolism propõe uma leitura mais crítica desses dados.
O ponto central é que os desfechos musculares reportados em ensaios clínicos ainda são limitados e, muitas vezes, unidimensionais. Para a prática clínica, isso significa que a saúde muscular não deve ser avaliada apenas pela variação de massa magra, especialmente quando essa medida deriva de métodos como DXA.
Massa magra não é sinônimo de músculo esquelético
Avaliações de composição corporal por DXA em grandes ensaios clínicos indicam que a massa magra corresponde a cerca de 25% a 39% do peso total perdido com análogos de GLP-1 e tirzepatida. Esses números, porém, exigem interpretação cuidadosa.
A massa magra estimada por DXA não equivale diretamente ao músculo esquelético. Esse compartimento também inclui órgãos, água intracelular e extracelular, além de glicogênio e sua água associada. O músculo esquelético contrátil representa apenas 45% a 60% da massa magra.
Em contextos de perda de peso rápida, a redução de água e glicogênio pode ser capturada dentro do mesmo compartimento de massa magra, superestimando a perda muscular real.
Por isso, interpretar toda redução de massa magra como perda de músculo contrátil pode levar a conclusões clínicas equivocadas.
Qualidade muscular também deve ser considerada
A avaliação da saúde muscular exige métodos que vão além da quantificação de massa magra. Um exemplo é a análise da mioesteatose, definida como infiltração de gordura intramuscular quantificada por ressonância magnética. Esse biomarcador se associa à resistência insulínica, menor força e pior mobilidade.
No sub estudo de ressonância magnética do SURPASS-3, a tirzepatida reduziu significativamente a mioesteatose. Esse achado sugere que a perda ponderal com terapias incretínicas pode envolver mudanças qualitativas na musculatura, e não apenas redução de compartimentos corporais.
Algumas evidências pré-clínicas também apontam possíveis efeitos benéficos diretos dos análogos de GLP-1 sobre o músculo, incluindo atenuação de sinalização catabólica, melhora da função mitocondrial e redução do acúmulo de lipídios intramusculares. No entanto, esses mecanismos ainda devem ser interpretados como biologicamente plausíveis, e não definitivamente estabelecidos em humanos.
Função muscular é o desfecho mais relevante — e o menos avaliado
Do ponto de vista clínico, a dimensão mais associada a desfechos funcionais é a função muscular. Ainda assim, ela raramente é incorporada de forma sistemática aos ensaios de farmacoterapia da obesidade.
Testes objetivos e validados, como velocidade de marcha, teste de sentar e levantar, timed-up-and-go e distância no teste de caminhada de seis minutos, são pouco utilizados nesses estudos.
A força de preensão palmar, embora frequentemente empregada, tem limitações importantes. Em adultos com obesidade, ela apresenta correlação fraca com performance de membros inferiores e mobilidade funcional, não representando adequadamente atividades locomotoras essenciais, como subir escadas, levantar de uma cadeira ou manter equilíbrio.
Implicações para a prática clínica
Para médicos que acompanham pacientes em uso de análogos de GLP-1 ou tirzepatida, a principal mensagem é evitar uma leitura simplificada da perda de massa magra. A avaliação da saúde muscular deve considerar três dimensões complementares:
- quantidade de massa magra;
- qualidade muscular, incluindo infiltração gordurosa intramuscular;
- função muscular, preferencialmente por testes objetivos.
Na rotina, o texto recomenda associar treino resistido progressivo, com pelo menos duas a três sessões semanais, ao tratamento farmacológico. Também sugere garantir ingestão proteica em torno de 1,2 a 1,6 g/kg/dia, distribuída ao longo das refeições, além de incluir ao menos um teste funcional objetivo na avaliação clínica.
Mensagens práticas
A perda de massa magra observada em exames de DXA durante o tratamento com análogos de GLP-1 não deve ser interpretada automaticamente como perda equivalente de músculo esquelético contrátil.
A saúde muscular envolve quantidade, qualidade e função. Entre essas dimensões, a função muscular pode ser a mais relevante para predizer mobilidade, autonomia e desfechos clínicos.
Na prática, médicos devem combinar tratamento farmacológico da obesidade com orientação estruturada de exercício resistido, ingestão proteica adequada e avaliação funcional objetiva.
Leia também:
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.
