A incidência do diabetes mellitus tipo 1 (DM1) continua aumentando mundialmente. Paralelamente, observa-se crescimento da prevalência de sobrepeso e obesidade nessa população. O excesso de adiposidade em indivíduos com DM1 está associado a maior dificuldade para atingir metas glicêmicas, aumento das complicações micro/macrovasculares e maior risco cardiovascular. Entretanto, as opções terapêuticas para controle do peso nesses pacientes permanecem limitadas.
Os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RA) demonstraram benefícios metabólicos e cardiovasculares consistentes no diabetes tipo 2, incluindo redução de eventos cardiovasculares maiores, insuficiência cardíaca e mortalidade. Em pacientes com DM1, os estudos disponíveis concentraram-se principalmente em desfechos glicêmicos, perda ponderal e redução da necessidade de insulina, havendo escassez de dados sobre desfechos cardiovasculares e renais.
Diante dessa lacuna, um grupo de autores gregos realizou uma análise observacional em uma grande base de dados internacional para investigar se o uso de terapias baseadas em GLP-1 está associado à redução de eventos cardiovasculares, renais e de segurança em adultos com DM1 atendidos na prática clínica. Os achados foram publicados no periódico Diabetes, Obesity, and Metabolism em 2026.

Métodos
Foi realizado um estudo retrospectivo observacional utilizando a plataforma TriNetX Global Health Research Network, composta por registros eletrônicos de aproximadamente 146 milhões de pacientes provenientes de 111 serviços de saúde.
Foram incluídos adultos com diagnóstico de DM1 e índice de massa corporal ≥20 kg/m², sendo excluídos indivíduos com códigos diagnósticos compatíveis com diabetes tipo 2. Os indivíduos foram classificados em duas coortes, com base na exposição ao tratamento baseado em GLP-1 (análogos de GLP-1 ou agonistas duplos de GLP-1/GIP). O grupo de tratamento compreendeu pacientes expostos a liraglutida, dulaglutida, exenatida, lixisenatida, albiglutida, semaglutida ou tirzepatida. O grupo controle era composto por pacientes sem exposição a essas medicações.
Para minimizar vieses, foi realizado pareamento por escore de propensão na proporção 1:1, equilibrando idade, sexo, características demográficas, fatores de risco cardiometabólicos; comorbidades, uso de medicamentos e parâmetros laboratoriais, incluindo HbA1c, perfil lipídico e função renal.
Os desfechos avaliados incluíram mortalidade por todas as causas, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico, insuficiência cardíaca, doença renal crônica (DRC), hospitalizações por qualquer causa e um desfecho cardiovascular composto adaptado, formado por insuficiência cardíaca, infarto, AVC, parada cardíaca e procedimentos de revascularização. Também foram analisados desfechos de segurança, especialmente hipoglicemia, cetoacidose diabética (CAD) e pancreatite.
Para reduzir viés temporal, os eventos passaram a ser contabilizados apenas seis meses após o início da terapia.
Resultados
Inicialmente foram identificados 4.088 pacientes tratados com GLP-1RA e 87.214 controles. Após o pareamento, permaneceram duas coortes balanceadas com 4.088 indivíduos cada.
A idade mediana foi de aproximadamente 44 anos e o IMC mediano situou-se em torno de 32 kg/m². O controle glicêmico basal era semelhante entre os grupos, com HbA1c mediana de aproximadamente 7,3%.
O uso de GLP-1RA foi associado a redução de 33% na mortalidade por todas as causas. Também foi observada redução importante (62%) na incidência de insuficiência cardíaca. Já para o risco do desfecho cardiovascular composto foi demonstrada diminuição de 39%. A insuficiência cardíaca representou a maior parte dos eventos cardiovasculares observados.
Não houve redução significante em acidente vascular cerebral. Houve poucios eventos de infarto do miocárdio (menos de 10 em cada grupo). Deste modo, não foi possível analisar este desfecho. As hospitalizações por qualquer causa ocorreram com menor frequência entre os usuários de GLP-1 (redução de 30% no risco).
Quanto aos desfechos renais, não houve redução estatisticamente significativa na incidência de doença renal crônica. Entretanto, uma análise exploratória demonstrou menor risco de desenvolvimento de taxa de filtração glomerular inferior a 60 mL/min.
Em relação à segurança, o tratamento associou-se a menor risco de hipoglicemia (28%). A incidência de cetoacidose diabética não aumentou com o uso das terapias baseadas em GLP-1. Casos de pancreatite foram raros, com menos de dez eventos em cada grupo.
Conclusões
Nesta grande coorte observacional pareada por escore de propensão, o uso de terapias baseadas em GLP-1 em adultos com diabetes tipo 1 foi associado a menores riscos de mortalidade por todas as causas, insuficiência cardíaca, desfecho cardiovascular composto e hospitalização por qualquer causa.
Os autores discutem que esses resultados são consistentes com evidências observacionais previamente publicadas e destacam que, embora o pareamento por escore de propensão reduza importantes fatores de confusão, o desenho retrospectivo não permite estabelecer relação causal.
Não foi observado aumento do risco de cetoacidose diabética, enquanto o risco de hipoglicemia foi significativamente menor entre os usuários dessas terapias. Também não foram encontradas associações significativas para acidente vascular cerebral isquêmico ou doença renal crônica.
Os autores ressaltam que esses achados observacionais apoiam um potencial benefício cardiorrenal e um perfil de segurança favorável das terapias baseadas em GLP-1 no diabetes tipo 1, mas enfatizam que ensaios clínicos randomizados prospectivos são necessários para confirmar esses resultados e estabelecer causalidade.
Autoria

Fernando Giuffrida
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.
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