O início do estágio 3 do diabetes tipo 1 (DM1) caracteriza-se por uma falência endócrina mais ampla do que a simples perda de insulina.
Esse estágio é marcado por aumento do glucagon pós-prandial, comprometimento da amplificação por incretinas e estresse das células beta, agravados pela resistência à insulina.
Além disso, o estágio 3 inicial frequentemente mantém secreção de insulina endógena clinicamente significativa.
O agonismo do receptor de peptídeo 1 semelhante ao glucagon, ou GLP-1, atua sobre essas alterações ao aumentar a secreção de insulina glicose-dependente pelas células beta residuais e inibir a liberação inadequada de glucagon pós-prandial.
Com isso, pode reduzir simultaneamente a necessidade de insulina.
Ensaios clínicos randomizados com adultos recém-diagnosticados e positivos para peptídeo C demonstram menor necessidade de insulina e melhor preservação do peptídeo C estimulado durante o tratamento.
No entanto, essas vantagens frequentemente diminuem após a interrupção do uso.
Qual foi a pergunta da revisão?
O artigo, publicado em 2026 na revista Endocrinology and Metabolism Clinics of North America, colocou uma questão em evidência: o que o agonismo dos receptores de incretina pode alcançar quando o estágio 3 se inicia na parte mais íngreme da curva de Eisenbarth?
A curva de Eisenbarth consolidou uma narrativa: a secreção de insulina diminui, em seguida a glicose aumenta e chega o diagnóstico do estágio 3, quando o declínio se torna clinicamente inegável.
O estágio 3 inicial, porém, não se resume à redução da produção de insulina.
Trata-se de uma falha endócrina mais ampla, que inclui hiperglucagonemia pós-prandial, declínio do efeito incretínico e estresse das células beta, quadro agravado pela resistência à insulina.
O que mostram os estudos iniciais?
A terapia baseada em incretinas aborda cada uma dessas disfunções, e estudos iniciais sugerem que essa atuação pode ter relevância clínica significativa.
O padrão que emerge é consistente: o agonismo dos receptores de incretina pode favorecer a biologia da remissão enquanto a terapia é mantida, mas a vantagem frequentemente diminui após a interrupção do tratamento.
Os estudos iniciais sustentam algumas conclusões.
Primeiro, quando iniciada próximo ao momento do diagnóstico em adultos com peptídeo C positivo, a terapia com agonistas dos receptores de incretina pode reduzir a necessidade de insulina e prolongar o fenótipo de remissão enquanto a terapia é mantida.
Segundo, a combinação de imunomodulação com suporte metabólico baseado em incretinas pode preservar melhor os níveis de peptídeo C estimulado do que o placebo durante o período de tratamento.
Terceiro, a fase de descontinuação é crucial: a interrupção é frequentemente seguida pela perda rápida da vantagem obtida durante o tratamento, o que ressalta a necessidade de reajuste cuidadoso da dose de insulina e monitoramento adequado.
O benefício persiste após a suspensão?
O que esses estudos ainda não corroboram é a promessa abrangente de que a terapia baseada em incretinas previna a necessidade de insulina no diabetes tipo 1 em estágio 3 recém-diagnosticado de forma persistente após a interrupção do tratamento.
Ou seja, os dados sugerem redução da necessidade de insulina durante o uso em pacientes selecionados, mas não demonstram que o tratamento modifique de forma duradoura a história natural do DM1 após sua suspensão.
Mensagem prática
O estágio 3 inicial do diabetes tipo 1 não se caracteriza apenas pela redução da insulina.
Paralelamente à diminuição da secreção de insulina, os pacientes frequentemente apresentam hiperglucagonemia pós-prandial e comprometimento da amplificação por incretinas.
Esse desequilíbrio associado à ingestão de alimentos ajuda a explicar por que terapias com atividade no receptor de GLP-1 estão biologicamente alinhadas a essa fase.
Na prática, os agonistas de GLP-1 podem reduzir a necessidade de insulina em adultos com diabetes tipo 1 de início recente, especialmente quando ainda há peptídeo C positivo, mas essa estratégia deve ser interpretada como adjunta, investigacional e dependente de monitoramento cuidadoso.
Até o momento, a evidência não sustenta substituir a insulinoterapia nem prometer prevenção sustentada da necessidade de insulina após a suspensão do GLP-1.
Autoria

Letícia Japiassú
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina Unirio. Pós Graduação em Endocrinnologia PUC-RJ. Especialista em Clínica Médica, Nutrologia e Terapia Nutricional Parenteral e Enteral.
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