Os agonistas do receptor do GLP-1 (GLP-1RA) têm ampliado rapidamente suas indicações clínicas, especialmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Paralelamente aos benefícios metabólicos e cardiovasculares, cresce o interesse em compreender seus efeitos sobre o tecido ósseo. A literatura recente sugere que o impacto esquelético dessas medicações é multifatorial e pode variar conforme o perfil metabólico do paciente, incluindo a presença ou não de diabetes e a magnitude da perda ponderal associada ao tratamento. Dois estudos publicados recentemente no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism trazem novas informações sobre o tema.
O estudo de Liu e cols avaliou o impacto dessas terapias em parâmetros de saúde óssea por meio de análise longitudinal com avaliação densitométrica (DXA) e marcadores ósseos. O desenho incluiu indivíduos com obesidade, com e sem diabetes, acompanhados durante o tratamento com semaglutida e tirzepatida, agonistas de GLP-1 mais potentes. Os resultados demonstraram redução da densidade mineral óssea principalmente em quadril e colo femoral, associada à magnitude da perda de peso. A perda anualizada de massa óssea foi mais pronunciada em indivíduos sem diabetes quando comparados aos controles, sugerindo maior susceptibilidade nessa população.
O segundo estudo, conduzido por Meron e cols em Israel, foi uma coorte retrospectiva populacional de novos usuários baseada em banco nacional de saúde, incluindo mais de 46 mil idosos com diabetes tipo 2. O desenho comparou iniciadores de GLP-1RA com usuários de iSGLT2 ou iDPP-4, avaliando fraturas por fragilidade como desfecho primário durante seguimento mediano de cerca de 35 meses. Após ajuste por escore de propensão e análise de risco competitivo, o uso de GLP-1RA foi associado a aumento modesto de aproximadamente 11% no risco de fraturas em comparação às terapias alternativas.
Os dois estudos destacam mecanismos potenciais para o aumento de fraturas, incluindo perda de peso, redução da ingestão energética e possível perda de massa muscular, como fatores que podem contribuir para menor carga mecânica e maior risco de quedas, encontrando correlação entre perda ponderal e redução de massa óssea. Apesar disso, a análise demonstrou redução da mortalidade global entre usuários de GLP-1RA, ressaltando a necessidade de balancear os benefícios cardiometabólicos com possíveis riscos esqueléticos, sobretudo em populações mais idosas com diabetes.
Em conjunto, os estudos sugerem que o impacto dos análogos de GLP-1 na saúde óssea depende fortemente do contexto clínico. Em indivíduos sem diabetes, especialmente tratados por obesidade, a maior perda de peso parece associar-se a redução mais significativa da densidade mineral óssea. Já em pacientes com diabetes, os efeitos sobre a densidade podem ser mais neutros, embora dados de vida real indiquem aumento discreto do risco de fraturas em idosos. Assim, a avaliação individualizada do risco ósseo e o monitoramento da composição corporal e densidade mineral tornam-se estratégias essenciais para o uso seguro dessas terapias em diferentes perfis de pacientes.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
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