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Endocrinologia17 março 2026

Agonistas de GLP-1 e perda de massa óssea: novos dados

Dois estudos publicados recentemente no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism trazem novas informações sobre o tema. 

Os agonistas do receptor do GLP-1 (GLP-1RA) têm ampliado rapidamente suas indicações clínicas, especialmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Paralelamente aos benefícios metabólicos e cardiovasculares, cresce o interesse em compreender seus efeitos sobre o tecido ósseo. A literatura recente sugere que o impacto esquelético dessas medicações é multifatorial e pode variar conforme o perfil metabólico do paciente, incluindo a presença ou não de diabetes e a magnitude da perda ponderal associada ao tratamento. Dois estudos publicados recentemente no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism trazem novas informações sobre o tema. 

O estudo de Liu e cols avaliou o impacto dessas terapias em parâmetros de saúde óssea por meio de análise longitudinal com avaliação densitométrica (DXA) e marcadores ósseos. O desenho incluiu indivíduos com obesidade, com e sem diabetes, acompanhados durante o tratamento com semaglutida e tirzepatida, agonistas de GLP-1 mais potentes. Os resultados demonstraram redução da densidade mineral óssea principalmente em quadril e colo femoral, associada à magnitude da perda de peso. A perda anualizada de massa óssea foi mais pronunciada em indivíduos sem diabetes quando comparados aos controles, sugerindo maior susceptibilidade nessa população. 

O segundo estudo, conduzido por Meron e cols em Israel, foi uma coorte retrospectiva populacional de novos usuários baseada em banco nacional de saúde, incluindo mais de 46 mil idosos com diabetes tipo 2. O desenho comparou iniciadores de GLP-1RA com usuários de iSGLT2 ou iDPP-4, avaliando fraturas por fragilidade como desfecho primário durante seguimento mediano de cerca de 35 meses. Após ajuste por escore de propensão e análise de risco competitivo, o uso de GLP-1RA foi associado a aumento modesto de aproximadamente 11% no risco de fraturas em comparação às terapias alternativas. 

Os dois estudos destacam mecanismos potenciais para o aumento de fraturas, incluindo perda de peso, redução da ingestão energética e possível perda de massa muscular, como fatores que podem contribuir para menor carga mecânica e maior risco de quedas, encontrando correlação entre perda ponderal e redução de massa óssea.  Apesar disso, a análise demonstrou redução da mortalidade global entre usuários de GLP-1RA, ressaltando a necessidade de balancear os benefícios cardiometabólicos com possíveis riscos esqueléticos, sobretudo em populações mais idosas com diabetes. 

Em conjunto, os estudos sugerem que o impacto dos análogos de GLP-1 na saúde óssea depende fortemente do contexto clínico. Em indivíduos sem diabetes, especialmente tratados por obesidade, a maior perda de peso parece associar-se a redução mais significativa da densidade mineral óssea. Já em pacientes com diabetes, os efeitos sobre a densidade podem ser mais neutros, embora dados de vida real indiquem aumento discreto do risco de fraturas em idosos. Assim, a avaliação individualizada do risco ósseo e o monitoramento da composição corporal e densidade mineral tornam-se estratégias essenciais para o uso seguro dessas terapias em diferentes perfis de pacientes. 

 

Autoria

Foto de Luciano de França Albuquerque

Luciano de França Albuquerque

Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

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