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Endocrinologia24 junho 2025

ADA 2025: Novos alvos para o tratamento de DM2 e obesidade além do GLP-1

Qual é o verdadeiro papel do GIP? Confira algumas perguntas que foram discutidas durante o congresso.

O advento das terapias baseadas em incretinas — notadamente os agonistas de GLP-1 e os agonistas duplos GLP-1/GIP como a tirzepatida — transformou radicalmente o cenário terapêutico do diabetes tipo 2 e da obesidade nos últimos anos. Contudo, à medida que os limites dessas abordagens começam a ser explorados, cresce o interesse por novas estratégias que atuem sobre outros eixos hormonais envolvidos no metabolismo energético e no controle glicêmico. 

Durante a sessão especial “terapias de nova geração para o DM2 e obesidade” no ADA 2025, foram discutidos novos paradigmas terapêuticos que estão sendo testados em humanos: os agonistas duplos GLP-1/glucagon e o papel duplo — agonista e antagonista — da via do GIP, associados aos agonistas de GLP-1. A seguir, destacamos as apresentações. 

ANTAGONISTAS DO GLUCAGON: PORQUE SE TORNARAM OBSOLETAS MAS ABRIRAM CAMINHO PARA OS AGONISTAS DO GLUCAGON 

A Dra. Sofie Hædersdal iniciou sua apresentação relembrando sobre a história da descoberta do glucagon, desde sua identificação como produto secretado pelas células alfa pancreáticas, passando pela purificação da molécula, desenvolvimento dos primeiros ensaios de dosagem e reconhecimento da hiperglucagonemia como característica fundamental do diabetes, até a era atual, marcada inicialmente pela investigação do potencial de antagonistas do receptor de glucagon (GCGR) como intervenção farmacológica, até a era atual dos co-agonistas que empregam o agonismo do glucagon como seu principal uso, uma mudança “da água para o vinho”. 

Isso porque a relevância do glucagon vai muito além do controle da glicemia. Suas ações modulam amplamente o metabolismo hepático — incluindo glicose, lipídios e aminoácidos — e estendem-se a efeitos extra-hepáticos, configurando um eixo hormonal essencial à homeostase energética. 

EFEITOS DO GLUCAGON NO METABOLISMO HEPÁTICO E SISTÊMICO 

O glucagon estimula a produção hepática de glicose através da ativação da glicogenólise e gliconeogênese, sobretudo em condições de jejum. Atua sobretudo em oposição à insulina, regulando os níveis plasmáticos de glicose em um sistema de retroalimentação. 

Estudos com antagonistas do receptor de glucagon (GRAs) demonstraram que o bloqueio do GCGR reduz a glicemia de jejum e os níveis de HbA1c, com baixo risco de hipoglicemia. Entretanto, a Dra. Hædersdal destacou que essas intervenções podem desorganizar profundamente o eixo hepato-pancreático, resultando em efeitos adversos importantes. Estudos em camundongos knockout para o receptor de glucagon (GR-/-) demonstram níveis persistentemente baixos de glicemia (em torno de 70 mg/dL), hipoglicemia prolongada após jejum, hiperplasia de ilhotas pancreáticas com aumento das células alfa e hiperglucagonemia compensatória. O mesmo padrão foi observado em humanos com mutações inativantes no GCGR (doença de Mahvash), que exibem aumento do volume pancreático e hipoglucagonemia leve ou ausente. Esses achados sugerem que o bloqueio crônico do GCGR induz hiperplasia compensatória das células alfa e aumento paradoxal da secreção de glucagon. Além disso, reforça-se a ideia de que o glucagon não é o principal regulador da glicose em jejuns prolongados — seu papel parece ser mais relevante nas fases iniciais do jejum e na resposta rápida à hipoglicemia. 

Outro aspecto destacado foi o papel do glucagon na oxidação mitocondrial hepática. Em pacientes com esteatose hepática (MASLD), o glucagon demonstrou aumentar em 50–75% a taxa de oxidação mitocondrial quando comparado a controles com mesmo IMC, sugerindo um efeito potencialmente benéfico sobre o metabolismo lipídico intra-hepático. 

Diversos compostos GRAs foram testados em humanos, com destaque para LY2409021 (adomeglivant, Eli Lilly), MK-0893 (Merck) e REMD-477 (Volagidemab). Apesar dos efeitos glicêmicos positivos (queda de HbA1c entre -0,6% e -1,5% em diferentes doses), o desenvolvimento clínico da maioria foi descontinuado devido a efeitos adversos hepáticos e alterações no perfil lipídico, como o aumento do LDL-C (nos estudos com MK-0893, foi observado uma elevação de até 15% no LDL-C basal, mesmo com melhora glicêmica significativa); Efeitos hepáticos, como o aumento de transaminases e esteatose hepática relatados em diversos ensaios, hiperaminoacidemia e hiperplasia de células alfa: como resposta compensatória ao bloqueio do GCGR, além de preocupações extra-hepáticas: como aumento de peso e elevação da pressão arterial ambulatorial.
Os benefícios observados incluíram redução consistente da glicemia de jejum, da HbA1c e risco minimizado de hipoglicemia, além de baixa incidência de efeitos adversos relatados diretamente pelos pacientes. No entanto, esses benefícios foram contrabalançados pelos desafios metabólicos secundários à modulação do eixo hepato-pancreático, levando à descontinuação da maior parte dos programas clínicos. 

Contudo, devido aos seus outros efeitos extra-glicêmicos e a melhor compreensão sobre a resistência parcial a esse hormônio favoreceram o teste de agonistas do receptor de glucagon, associado ao GLP-1, como veremos a seguir. 

AGONISTAS GLP-1/GLUCAGON: POTENCIAIS ALIADOS NO TRATAMENTO DA OBESIDADE, DIABETES E ESTEATOSE HEPÁTICA 

Em seguida, o Dr. Dimitris Papamargaritis revisou a abordagem inversa: o uso combinado do agonismo de GLP-1 e agonista do receptor de glucagon em uma única molécula. Essa estratégia, paradoxal à anterior, se baseia na observação de que o agonismo do glucagon também possui propriedades potencialmente benéficas, como o aumento do gasto energético, estimulação da lipólise e efeito anorexígeno central. 

Apesar dos avanços com os agonistas de GLP-1, como a semaglutida e os duais como a tirzepatida, na opinião do apresentador, ainda há uma lacuna importante a ser preenchida. Nem todos os pacientes apresentam boas respostas, sendo que cerca de 30% tem perda de peso inferior a 5% — e muitos precisam de reduções superiores a 15% para obter benefícios significativos. É nesse contexto que surgem os agonistas duplos, como uma resposta farmacológica que busca se aproximar da magnitude de perda de peso promovida pela cirurgia bariátrica. 

A partir daí, a palestra mergulhou no protagonista da sessão: o glucagon. Além de seus papéis no metabolismo glicêmico, quando ativado de forma sustentada, o receptor do glucagon aumenta o gasto energético, estimula a oxidação de ácidos graxos no fígado, reduz a gordura hepática, modula o apetite e potencializa a lipólise. 

Em modelos animais, a combinação mostrou superioridade clara em perda de peso, com os knockouts dos receptores de GLP-1 ou glucagon demonstrando que ambos são essenciais para o efeito sinérgico. Estudos em humanos com infusões agudas também mostraram que a adição do glucagon aumentou a saciedade em 13% e elevou o gasto energético em repouso, algo que o GLP-1 sozinho não consegue fazer da mesma maneira. Mas o palestrante fez um alerta: tudo depende da proporção certa entre GLP-1 e glucagon. Um desequilíbrio — com glucagon demais — pode aumentar a glicemia e trazer efeitos adversos. Em seguida, foram apresentados os resultados das moléculas em desenvolvimento mais avançado até o momento. 

Começando pelo mazdutida, uma molécula chinesa que concluiu estudos de fase 3 com resultados interessantes e já publicados no NEJM. Em pacientes com obesidade, o fármaco levou a perdas de peso entre 14,5% e 16,5% em 48 semanas — com uma proporção relevante dos pacientes ultrapassando a marca dos 15%. Além disso, os dados de ressonância magnética mostraram uma redução de 80% na gordura hepática em pacientes com esteatose significativa. A composição corporal também chamou atenção: apenas 21% da perda total de peso se deu às custas de massa magra — proporção inferior à observada com semaglutida e tirzepatida. Em termos de segurança, o dado mais impressionante: menos de 2% de descontinuação por eventos adversos. Uma molécula estável, potente e bem tolerada. Já em indivíduos com diabetes tipo 2, a mazdutida também se mostrou eficaz. Em comparação direta com liraglutida, reduziu a HbA1c em até 1,8% e promoveu perda de peso de 9,2%. Novos estudos de fase 3 estão em andamento, incluindo braços para apneia do sono e disfunção hepática. 

Na sequência, o foco se voltou para a survodutida, da Boehringer. Essa molécula — também de uso semanal — mostrou perda de peso de até 18,7% em 48 semanas em obesos sem diabetes, porém em estudos de fase 2. No DM2, a perda de peso foi próxima de 9%, com redução de HbA1c de até 1,9%. Contudo, um dos principais desafios foi a taxa de descontinuação — que chegou a 29% nos estudos de fase 2. A razão? Um escalonamento de dose acelerado, agora corrigido nos protocolos de fase 3, incluindo o extenso programa SYNCHRONIZE, com braços para obesidade, esteatose, cirrose e um estudo CVOT já em andamento, com mais de 5.000 pacientes. 

Outra molécula apresentada foi a pemvidutide, com uma relação 1:1 entre GLP-1 e glucagon. Em pacientes com obesidade e sem DM2, a perda de peso alcançou 15,6% em 48 semanas (também em estudo de fase 2), com grande redução da gordura visceral. Houve ainda queda de até 35% nos triglicerídeos e redução moderada do colesterol total. Contudo, o impacto na HbA1c foi limitado, e a empresa decidiu não seguir com o desenvolvimento para diabetes. O foco agora está em estudos para doença hepática gordurosa não alcoólica (DHEM), esteato-hepatite e até transtornos por uso de álcool. Um ponto importante: mesmo com o benefício visceral e hepático, a taxa de descontinuação por efeitos adversos foi significativa, chegando a 19,6% nas doses mais altas. 

Já o efinopegdutide, da Janssen, apresentou resultados mistos. A perda de peso foi de cerca de 11%, e o efeito sobre glicemia foi modesto. Mas um achado relevante foi o efeito superior na redução da gordura hepática quando comparado à semaglutida 1 mg — mesmo com perda de peso semelhante. Isso reforça a ideia de que os efeitos do glucagon sobre o fígado são parcialmente independentes da perda de peso. No entanto, altas taxas de náusea e descontinuação limitaram seu potencial, especialmente em fases iniciais sem escalonamento adequado. 

Contudo, também há preocupações com o uso dos agonistas de glucagon. Um dos pontos mais discutidos foi a hipoaminoacidemia observada em alguns estudos com duplos agonistas — especialmente com cotadutide, uma molécula descontinuada. A queda dos níveis de aminoácidos plasmáticos pode, em teoria, comprometer a massa magra. Mas os dados clínicos com mazdutide e pemvidutide mostram que a preservação de massa magra é factível, especialmente com estratégias de escalonamento mais lentas e doses ajustadas. A proporção de perda magra foi, inclusive, menor do que com tirzepatida. 

Por fim, na opinião do Dr. Papamargaritis os agonistas GLP-1/glucagon são terapias promissoras de próxima geração, com impacto clínico relevante para obesidade, DM2 e doença hepática gordurosa. Eles ampliam a perda de peso para faixas que antes só víamos com cirurgia, reduzem gordura hepática de forma significativa, e oferecem uma alternativa para pacientes refratários às terapias atuais. O futuro ainda reserva novos dados sobre composição corporal, CVOTs e impacto e sobretudo em doenças hepáticas. 

GIP: ANTAGONIZAR OU POTENCIALIZAR? UM PARADOXO FISIOLÓGICO 

Encerrando a sessão, o Dr. David D’Alessio, um dos maiores especialistas mundiais em incretinas, abordou o tema mais controverso da manhã: o papel ambíguo do GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide), tanto como alvo para agonismo quanto para antagonismo. 

A primeira parte da palestra resgatou a trajetória histórica do GIP. Descoberto como um secretagogo de insulina em modelos humanos, o peptídeo acabou sendo preterido em favor do GLP-1, que demonstrou efeitos glicêmicos e anorexígenos mais robustos. O cenário começou a mudar com os primeiros ensaios de agonistas duplos GLP-1/GIP, como a tirzepatida. A molécula, que retém atividade plena em ambos os receptores, mostrou-se capaz de promover perda de peso significativamente superior aos agonistas isolados, via supressão de apetite e amplificação da secreção de insulina. 

Apesar disso, dados pré-clínicos já sugeriam que o GIP isoladamente pouco impactava o controle glicêmico e a saciedade. Esse “efeito silencioso” teria relação com sua baixa ação em receptores do sistema nervoso central — ainda que seus níveis plasmáticos aumentem até dez vezes após uma refeição. 

Avanços em técnicas de neuroimagem e genética revelaram que GLP-1 e GIP atuam em vias neuronais diferentes. Enquanto o GLP-1 se concentra em áreas clássicas de controle de apetite como o hipotálamo e a área postrema (AP), com receptores expressos em neurônios do núcleo arqueado, os receptores de GIP aparecem mais em neurônios GABAérgicos da área postrema, com pouca sobreposição aos do GLP-1. Modelos animais com deleção seletiva do receptor de GIP em neurônios GABA mostraram-se protegidos contra obesidade induzida por dieta rica em gordura. Esses achados indicam que o GIP pode atuar como um “permissor” do ganho de peso, o que explicaria os efeitos positivos do antagonismo farmacológico. 

ENTÃO O ANTAGONISMO DO GIP TAMBÉM EMAGRECE? 

Foi com base nesse racional que surgiram estratégias inovadoras, como o anticorpo monoclonal desenvolvido pela Amgen, que combina bloqueio do receptor de GIP com agonismo de GLP-1. A molécula, que apresenta administração mensal, já demonstrou em fase 1 efeitos relevantes de perda de peso sustentada. 

Estudos pré-clínicos confirmaram o mecanismo: a inibição da via GIP parece amplificar o efeito do agonismo do GLP-1, resultando em maior supressão do apetite e redução da massa corporal. Modelos em camundongos knockout, uso de anticorpos e antagonistas peptídicos mostraram resultados convergentes: quanto menor a sinalização do GIP, maior o impacto da semaglutida na perda ponderal. Ainda assim, os dados apontam que o efeito final depende fundamentalmente da ação no receptor de GLP-1, sendo a inibição do GIP um mecanismo “modulador” e não primário. 

QUAL O VERDADEIRO PAPEL DO GIP? PERGUNTAS EM ABERTO 

A palestra também trouxe à tona incertezas fisiológicas importantes: 

  • O antagonismo do GIP estaria somente bloqueando a ação pós-prandial de um ligante circulante desconhecido? 
  • O receptor seria constitutivamente ativo, sendo modulado pelo anticorpo como uma função de agonista inverso? 
  • Haveria um ligante alternativo ainda não identificado? 
  • O efeito paradoxal se explicaria por ativação de vias neurais distintas entre agonistas e antagonistas? 

Segundo o palestrante, o debate ainda está aberto. Em suas palavras, o “agonismo crônico poderia, por exemplo, dessensibilizar o receptor — o que no final das contas se assemelha a um antagonismo funcional. Mas isso ainda precisa ser mais bem estudado em modelos neurofisiológicos”, comentou. 

No fechamento da sessão, foi enfatizado que tirzepatida permanece como a referência atual, com cerca de 20% de perda de peso em ensaios clínicos de fase 3. No entanto, compostos como o anticorpo da Amgen —  cujos resultados de fase 2 também foram apresentados no ADA 2025 e coberto aqui no portal (o MariTide)  — podem redefinir o padrão terapêutico, sobretudo se confirmarem eficácia similar com menos eventos adversos e posologia mais conveniente. 

O FUTURO DO TRATAMENTO DO DM E OBESIDADE PROMETE 

As palestras dedicadas aos agonistas de GLP-1, glucagon e GIP no ADA 2025 nos passam a impressão de que o futuro da terapia incretínica reside na associação dos agonistas de GLP-1 com outros mecanismos. O agonismo combinado de GLP-1 com glucagon (como no caso do survodutide) tem se mostrado promissor ao induzir perda significativa de gordura corporal, melhora do perfil lipídico, redução de triglicérides e potencial ação sobre o fígado, inclusive em indivíduos com MASH. A capacidade do glucagon de aumentar o gasto energético, modular a oxidação lipídica e induzir mobilização de gordura visceral representa uma das grandes apostas para o avanço no tratamento da obesidade e suas comorbidades. 

Por outro lado, a discussão sobre o GIP trouxe um novo grau de complexidade — tanto pela via do agonismo combinado, como observado na tirzepatida, quanto pelo antagonismo seletivo, como na molécula biespecífica da Amgen. O mais intrigante é que ambos os caminhos parecem convergir para um mesmo resultado clínico: redução de peso e melhora do controle metabólico. 

Por fim, a combinação de agonistas e antagonistas hormonais, além de promissora, provavelmente permitirá que caminhemos em direção a uma medicina ainda mais personalizada, com enfoque em objetivos adicionais ao tratamento da obesidade, como hoje tem caminhado o tratamento do diabetes também. 

Autoria

Foto de Luiz Fernando Fonseca Vieira

Luiz Fernando Fonseca Vieira

Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.

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