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Endocrinologia19 abril 2026

ACP 2026: Armadilhas endócrinas no hospital - o que tratar e o que esperar

TSH alterado, hipercalcemia, hiponatremia e fratura por fragilidade no internado — quando agir, quando aguardar e como evitar iatrogenia.

Na sessão apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, a Dra. Eve Bloomgarden usou casos clínicos para discutir uma premissa incômoda, mas frequente no hospital: parte importante do dano endócrino não vem da doença em si, e sim da decisão de tratar o que não precisava de tratamento — ou de ignorar o que exigia ação imediata. A proposta foi direta: diferenciar alterações laboratoriais transitórias de emergências endócrinas verdadeiras e estruturar uma transição de cuidado segura.

Tireoide: o problema do TSH alterado no internado

Alterações da função tireoidiana são extremamente comuns durante a internação e, na maioria das vezes, refletem o efeito da doença aguda sobre o eixo tireotropo, e não uma doença tireoidiana propriamente dita. A síndrome do eutireoidiano doente é o padrão mais frequente, com queda de T3 total e TSH baixo ou normal, como resposta adaptativa ao estresse metabólico. Nessa situação, o uso de hormônio tireoidiano não melhora desfechos e não está indicado.

O caso apresentado pela palestrante ilustra bem essa armadilha: um paciente de 72 anos, internado por infecção urinária, com TSH de 8,1 mIU/L, T4 livre normal e sem história prévia de doença tireoidiana. A conduta correta não é iniciar levotiroxina. O mais provável é que se trate de alteração transitória, e o passo adequado é rever exames prévios, se disponíveis, e repetir a dosagem entre quatro e oito semanas após a recuperação. A síntese da sessão foi precisa: TSH não é troponina.

Quando a tireoide vira emergência

Há, porém, situações em que a tireoide exige ação imediata. A tempestade tireoidiana representa o padrão “quente e rápido”, com febre alta, taquicardia intensa ou fibrilação atrial, alteração do estado mental e, por vezes, insuficiência cardíaca e sintomas gastrointestinais. Já o coma mixedematoso corresponde ao padrão “frio e lento”, com hipotermia, bradicardia, hipoventilação, rebaixamento do nível de consciência, hiponatremia e hipoglicemia. Ambas são emergências de UTI e exigem reconhecimento precoce, suporte intensivo e chamada rápida da endocrinologia.

Insuficiência adrenal: a causa de hipotensão que não pode passar despercebida

Outro ponto central da sessão foi a insuficiência adrenal secundária induzida por glicocorticoide, uma das causas de hipotensão refratária mais subdiagnosticadas no hospital. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal pode estar suprimido após três a quatro semanas de corticoide sistêmico, e a redução da dose não significa recuperação imediata da função adrenal.

Na prática, a mensagem foi clara: paciente com uso recente de corticoide e hipotensão persistente apesar de hidratação vigorosa deve receber hidrocortisona IV imediatamente, sem aguardar cortisol matinal ou teste com cosintropina. Em outras palavras, se o médico não pensar no diagnóstico, vai perdê-lo.

Hiponatremia: a sequência diagnóstica organiza o raciocínio

A hiponatremia também foi abordada de forma bastante prática. A sequência proposta foi simples e útil: primeiro, confirmar que se trata de hiponatremia hipotônica pela osmolaridade sérica; depois, avaliar a osmolaridade urinária; por fim, interpretar o sódio urinário. Essa ordem ajuda a entender se o ADH está adequadamente ou inadequadamente ativado e a diferenciar depleção volêmica, SIADH, insuficiência adrenal e outras causas.

No caso apresentado, o diagnóstico foi SIADH na fase 2 do distúrbio trifásico da água após cirurgia hipofisária. A sessão reforçou que essa hiponatremia tardia é causa importante de reinternação e exige seguimento estruturado. A palestrante também lembrou que, na insuficiência adrenal secundária, a hiponatremia é dilucional, mediada por aumento de ADH, sem hiperpotassemia, já que a aldosterona permanece preservada.

Hipercalcemia: não pare no contribuidor óbvio

Outro erro frequente destacado foi atribuir a hipercalcemia a fatores aparentemente óbvios, como tiazídico ou carbonato de cálcio, sem completar a investigação. A orientação foi objetiva: o próximo passo sempre é dosar PTH intacto na mesma amostra do cálcio. Se o PTH estiver suprimido, o raciocínio deve migrar para causas não mediadas por PTH, como PTHrP, vitamina D e neoplasias.

O manejo da crise hipercalcêmica segue sequência definida: hidratação com solução isotônica, calcitonina para efeito rápido e transitório, e bisfosfonato IV ou denosumabe conforme o perfil renal.

Fratura por fragilidade: a internação é a janela de tratamento

A mensagem final da sessão foi contundente: fratura por fragilidade é diagnóstico de osteoporose. A densitometria pode servir como linha de base, mas não deve ser vista como autorização para tratar. O tratamento pode e deve ser iniciado antes da alta, sempre que possível. A palestrante ressaltou que deixar tudo para o ambulatório, sem handoff estruturado, frequentemente significa perder a chance de intervir.

O que muda na prática

A principal lição da sessão foi que nem todo exame alterado no internado exige ação imediata, mas os erros de interpretação têm consequências reais. TSH discretamente elevado costuma ser transitório e não deve levar ao início automático de levotiroxina. Hipotensão refratária em paciente com uso recente de corticoide deve levantar fortemente a hipótese de insuficiência adrenal. Hipercalcemia com PTH suprimido exige investigação de malignidade. Hiponatremia pós-cirurgia hipofisária deve ser reconhecida como situação de risco com padrão evolutivo específico. E fratura por fragilidade deve ser tratada como osteoporose já durante a internação.

Autoria

Foto de Bruno Anello Mottini Horlle

Bruno Anello Mottini Horlle

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência, e Clinica Médica.

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