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Endocrinologia9 julho 2026

Ácidos graxos ômega-3 no perioperatório do câncer de cólon: há benefício?

Ensaio clínico avalia ômega-3 intravenoso no perioperatório do câncer de cólon e não demonstra benefício, além de sugerir maior risco de infecção.

cirurgia para câncer colorretal está associada à morbidade pós-operatória grave. Complicações infecciosas podem evoluir com sepse, piorar a morbidade geral e específica do câncer e, a longo prazoa sobrevida. 

A resposta inflamatória pós-operatória contribui para a cicatrização e recuperação dos tecidos, mas a inflamação excessiva está associada a complicações infecciosas no pós-operatório. Foi demonstrado que a magnitude da resposta sérica pós-operatória de IL-6 se correlaciona com a extensão da lesão tecidual e está associada a complicações infecciosas, com estudos relatando um valor de corte de 432 pg/mL para essa associação 

A imunomodulação pode fornecer um meio de prevenir complicações infecciosas e os ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (n-3 PUFAs) modulam as respostas inflamatórias e podem ajudar a prevenir uma cascata pró-inflamatória. 

Metodologia: 

Este estudo é um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado em dezembro de 2019 na revista American Journal of Clinical Nutrition, cujo objetivo foi investigar os efeitos da administração intravenosa perioperatória de n-3 PUFAs sobre as citocinas inflamatórias em cirurgias de câncer de cólon. Quarenta e quatro pacientes submetidos a ressecção eletiva de cólon para câncer não metastático foram randomizados para receber duas infusões intravenosas de n-3 PUFAs ou solução salina (controle) na noite anterior e na manhã seguinte à cirurgia. Amostras de sangue foram coletadas em seis momentos perioperatórios para análise das alterações nas citocinas no soro e em amostras de sangue total estimuladas com LPS, bem como nos perfis de ácidos graxos da membrana leucocitária. 

Resultados encontrados e discussão: 

Vinte e três pacientes receberam solução salina e 21 pacientes receberam n-3 PUFAs. A IL-6 ex vivo após estimulação com LPS foi significativamente maior no grupo n-3 PUFA no primeiro dia após a cirurgia (P = 0,014), mas não houve diferença no segundo dia após a cirurgia (P = 0,467). A contagem de leucócitos foi maior no grupo n-3 PUFA no quarto dia após a cirurgia (P = 0,029). 

Houve mais pacientes com complicações infecciosas no grupo n-3 PUFA (8 comparado a 3, P = 0,036). Não houve diferenças gerais nos níveis séricos de IL-6, IL-10, proteína C-reativa e tempo de internação. A administração de n-3 PUFAs resultou em aumentos rápidos no conteúdo de n-3 PUFA na membrana dos leucócitos. 

Conclusão: 

No grupo n-3 PUFA, não foi encontrada uma relação clara com as citocinas séricas e estimuladas por LPS, mas, inesperadamente, ocorreram mais complicações infecciosas. Portanto, é necessário cautela com o uso não convencional de uma emulsão intravenosa perioperatória de n-3 PUFA como infusão isolada na sequência temporal relatada neste estudo em ressecções de cólon com anastomose primária. 

Esses resultados questionam o uso isolado e não aprovado de n-3 PUFA intravenosos usando o presente desenho de estudo em pacientes submetidos a ressecção de câncer de cólon. Mais pesquisas são necessárias para elucidar os mecanismos de ação e os potenciais efeitos adversos dos n-3 PUFA derivados de óleo de peixe, especialmente em contextos pós-operatórios. 

Autoria

Foto de Letícia Japiassú

Letícia Japiassú

Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina Unirio. Pós Graduação em Endocrinnologia PUC-RJ. Especialista em Clínica Médica, Nutrologia e Terapia Nutricional Parenteral e Enteral.

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