O guideline de 2026 da ACC/AHA sobre manejo da dislipidemia enfatiza que, em idosos, a decisão de iniciar, manter ou descontinuar terapia hipolipemiante deve ser guiada por uma avaliação individualizada do balanço risco-benefício, incorporando prioridades do paciente, status funcional, multimorbidades, fragilidade, polifarmácia e expectativa de vida. A diretriz destaca explicitamente que decisões sobre introdução ou suspensão de terapias hipolipemiantes não devem ser baseadas apenas na idade cronológica, mas no contexto clínico global do paciente.

Por que a idade isoladamente não deve definir a terapia hipolipemiante
A diretriz reforça que a idade cronológica, isoladamente, não deve definir a decisão terapêutica. Em vez disso, devem ser considerados status funcional, multimorbidades, fragilidade, polifarmácia, expectativa de vida e preferências do paciente.
Quando pode ser razoável iniciar estatina após os 75 anos
Para adultos com mais de 75 anos, o guideline recomenda que, em pacientes com expectativa de vida estimada de pelo menos 2,5 anos, pode ser razoável iniciar estatina de intensidade moderada após discussão clínica detalhada dos potenciais benefícios e riscos. Essa recomendação reflete a evidência de que o benefício de prevenção de eventos cardiovasculares pode existir nessa faixa etária, embora o efeito absoluto seja menor do que em adultos mais jovens, e os dados de ensaios clínicos randomizados permaneçam limitados.
Em que situações a suspensão da terapia pode ser apropriada
A diretriz também estabelece que, em indivíduos com expectativa de vida inferior a 1 ano, pode ser apropriado descontinuar terapias redutoras de LDL-C para evitar carga terapêutica desnecessária e possíveis efeitos adversos. Essa recomendação se baseia em evidências de que, em pacientes com doença avançada ou prognóstico limitado, a suspensão da terapia pode melhorar a qualidade de vida sem aumentar eventos adversos clinicamente relevantes.
Como o escore de cálcio coronariano pode ajudar na decisão
Em idosos acima de 75 anos nos quais a decisão terapêutica permanece incerta, o guideline recomenda que a mensuração do escore de cálcio coronariano (CAC) pode ser utilizada para refinar a estratificação de risco. Em pacientes com CAC zero ou mínimo, de 1 a 10, pode ser razoável evitar o início de terapia hipolipemiante, uma vez que o benefício potencial tende a ser baixo nesses casos.
Por que a conduta deve ser revisitada ao longo do tempo
Por fim, a diretriz ressalta que a tomada de decisão deve ser dinâmica e revisitada ao longo do tempo, uma vez que o equilíbrio entre benefício e risco pode se modificar com o envelhecimento, surgimento de novas comorbidades, alterações funcionais e mudanças nas preferências do paciente. A decisão de continuar ou descontinuar terapia deve resultar de uma discussão compartilhada entre paciente e equipe assistencial, com foco na preservação da funcionalidade e na qualidade de vida.
Autoria

Erik Trovão
Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE
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