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Endocrinologia1 setembro 2026

Ablação por ultrassom pode tratar doença de Graves?

Revisão avalia ablação térmica guiada por ultrassom na doença de Graves, mas evidência ainda é limitada.

A doença de Graves é uma das principais causas de hipertireoidismo no mundo.

Na maioria dos casos, o tratamento inicial costuma ser feito com drogas antitireoidianas. Cirurgia, por tireoidectomia total, e radioiodoterapia costumam ficar reservadas para casos refratários, recidivantes ou com contraindicações ao tratamento medicamentoso.

Nesse cenário, surge a possibilidade de ablação térmica guiada por ultrassonografia, ou U-GTA, como alternativa minimamente invasiva para pacientes selecionados.

A revisão sistemática avaliou justamente o papel da U-GTA no manejo de pacientes com doença de Graves, especialmente em casos persistentes ou recidivantes. O artigo define U-GTA como um grupo de técnicas que inclui ablação por radiofrequência e ablação por micro-ondas.

Como foi conduzida a revisão?

A revisão sistemática e metanálise realizou busca nas bases PubMed/MEDLINE, Web of Science e Scopus, com atualização até 31 de janeiro de 2026.

Foram incluídos estudos com pacientes com doença de Graves que avaliaram técnicas de ablação térmica guiada por ultrassonografia, incluindo:

  • ablação por radiofrequência, ou RFA;
  • ablação por micro-ondas, ou MWA.

Os estudos precisavam relatar função tireoidiana ou autoimunidade após o tratamento, ser publicados em inglês e envolver seres humanos.

Foram excluídos artigos de revisão, cartas, comentários, editoriais, resumos de congresso, estudos em animais e estudos sem avaliação do desfecho de interesse.

Quais estudos foram incluídos?

Foram inicialmente selecionados 196 artigos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, quatro estudos permaneceram para a análise do desfecho proposto.

Ao todo, os estudos incluíram 82 pacientes, a maioria mulheres.

De modo geral, a qualidade dos estudos foi considerada de moderada a alta. No entanto, alguns eram observacionais, com amostras pequenas ou dados incompletos, o que limita a generalização dos resultados.

Quais foram os principais resultados?

Em 2023, Fung e colaboradores avaliaram 15 pacientes com doença de Graves persistente ou recidivante. A maioria era do sexo feminino, com média de idade de 37 anos.

Após 1 ano da RFA, a taxa de remissão foi de 73,3%. Entre os participantes que precisaram retomar drogas antitireoidianas, as doses foram menores, e não houve complicações reportadas.

Em 2024, Cai e colaboradores conduziram um estudo retrospectivo com 29 pacientes, sendo 83% mulheres, com média de idade de 41 anos. Nesse estudo, 1 ano após RFA para doença de Graves, a taxa de remissão chegou a 75,8%, com 5 pacientes apresentando complicações após o procedimento.

Também em 2024, Fung e colaboradores recrutaram 30 pacientes, com média de idade de 36 anos, 93% mulheres, com doença de Graves persistente ou recidivante. Nesse estudo, a taxa de remissão após 1 ano de RFA foi de 60%.

Por fim, Zhu e colaboradores avaliaram 8 pacientes tratados com MWA guiada por ultrassonografia. Após 1 ano de seguimento, 62,5% dos pacientes entraram em remissão.

Qual é o papel da U-GTA na prática?

O tratamento tradicional da doença de Graves envolve drogas antitireoidianas, cirurgia ou radioiodoterapia.

Embora o tratamento medicamentoso seja frequentemente a primeira escolha, as taxas de remissão podem ser limitadas, e parte dos pacientes necessita de tratamento definitivo.

A tireoidectomia e a radioiodoterapia são opções definitivas, mas ambas podem cursar com hipotireoidismo pós-procedimento. A cirurgia, além disso, é mais invasiva e envolve riscos próprios.

Nesse contexto, a U-GTA surge como alternativa potencialmente promissora para pacientes selecionados, sobretudo aqueles com doença persistente ou recidivante e interesse em uma abordagem minimamente invasiva.

No entanto, a revisão destaca que a evidência atual ainda é limitada e que o papel da ablação no algoritmo terapêutico da doença de Graves ainda não está definido.

Quais são as limitações da evidência?

A revisão apresenta limitações importantes.

Entre elas:

  • poucos estudos incluídos;
  • pequeno número total de pacientes;
  • desenhos observacionais em parte dos estudos;
  • tempo de seguimento limitado;
  • dados incompletos em alguns trabalhos;
  • falta de padronização da indicação da U-GTA;
  • ausência de padronização do procedimento.

Essas limitações impedem concluir que a U-GTA deva ser incorporada de forma rotineira ao manejo da doença de Graves.

Mensagem prática

A ablação térmica guiada por ultrassonografia representa uma estratégia potencialmente segura e minimamente invasiva para pacientes selecionados com doença de Graves.

As taxas de remissão em 1 ano variaram entre os estudos, com resultados em torno de 60% a 75,8%.

No entanto, a evidência ainda é limitada por poucos estudos, amostras pequenas, seguimento curto e falta de padronização técnica.

Na prática, a U-GTA deve ser interpretada como uma alternativa promissora, mas ainda investigacional, especialmente quando comparada a tratamentos já consolidados, como drogas antitireoidianas, radioiodoterapia e cirurgia.

Antes de incorporar a técnica de forma rotineira aos algoritmos terapêuticos da doença de Graves, são necessários estudos prospectivos, padronizados e com seguimento de longo prazo.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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