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Endocrinologia30 maio 2026

A influência da genética na resposta ao tratamento cirúrgico da obesidade

Genética na cirurgia bariátrica pode ajudar a explicar obesidade residual, resposta metabólica variável e risco de complicações após bypass.
Por Paulo Melo

A cirurgia bariátrica é uma das estratégias mais eficaz para perda ponderal e melhora das complicações metabólicas associadas à obesidade. Entretanto, há uma grande heterogeneidade da resposta pós-operatória, enquanto alguns pacientes apresentam remissão metabólica consistente, perda ponderal expressiva e melhora rápida das comorbidades, outros mantêm obesidade residual, dificuldades metabólicas persistentes ou complicações associadas. 

Um recente estudo piloto brasileiro explora justamente essa questão ao investigar a possível influência de polimorfismos genéticos inflamatórios sobre os desfechos pós-operatórios em mulheres idosas submetidas ao bypass gástrico em Y-de-Roux. 

Leia mais: Bypass gástrico ou sleeve: quais os melhores resultados a longo prazo?

Metodologia: 

Os autores realizaram um estudo piloto, transversal e exploratório envolvendo 21 mulheres com idade igual ou superior a 50 anos, avaliadas um ano após cirurgia bariátrica do tipo bypass gástrico em Y-de-Roux. Foram analisados dois polimorfismos genéticos relacionados a citocinas inflamatórias: IL6-174G/C (rs1800795) e TNFA-308G/A (rs1800629), ambos previamente associados à inflamação crônica, resistência insulínica e complicações metabólicas. 

Além da genotipagem, as participantes foram submetidas à avaliação antropométrica, composição corporal por densitometria, perfil metabólico, marcadores inflamatórios e análise de complicações clínicas persistentes após a cirurgia. 

O estudo tem caráter exploratório em virtude da pequena amostra, o que gera uma baixa potência estatística e uma limitação para validação externa dos achados. Na prática, os resultados devem ser interpretados como geradores de hipóteses e trazem achados interessantes para a complexidade multifatorial da fisiopatologia da obesidade. 

Resultados e Discussão: 

Os principais achados do estudo foram duas associações específicas: maior prevalência de obesidade persistente entre portadoras do genótipo IL6-174 CC e maior prevalência de retinopatia diabética em portadoras do alelo A do TNFA-308. As demais variáveis metabólicas, inflamatórias e antropométricas melhoraram independentemente do perfil genético. 

Corroborando com a prática clínica, nota-se que existe uma resposta individual distinta à cirurgia bariátrica. Pacientes com o mesmo IMC, mesma faixa etária, mesmo procedimento cirúrgico e adesão semelhante podem apresentar evoluções diferentes. Alguns mantêm perda ponderal sustentada, enquanto outros evoluem com recidiva precoce ou obesidade residual. 

O mesmo ocorre no tratamento medicamentoso, onde há indivíduos com excelente resposta metabólica aos agonistas de GLP-1, enquanto outros apresentam benefício muito mais discreto, mesmo utilizando doses semelhantes. A genética provavelmente ajuda a explicar parte importante dessa heterogeneidade. 

Apesar dos achados, existe uma distância muito grande entre pesquisa genética e aplicabilidade clínica real. Os testes genéticos utilizados nesses estudos ainda possuem custo elevado, baixa disponibilidade e pouca padronização para uso assistencial rotineiro. Fora de grandes centros acadêmicos e protocolos de pesquisa, sua utilização permanece praticamente inviável na maioria dos serviços. 

Conclusão:

A genética provavelmente participa de forma importante da variabilidade individual da obesidade e da resposta terapêutica. Entretanto, os resultados devem ser interpretados com cautela devido ao pequeno número de participantes e ao caráter exploratório da análise. 

Talvez estejamos caminhando para um tratamento da obesidade mais personalizado, onde fatores genéticos, inflamatórios e metabólicos possam ajudar na resposta terapêutica, risco de recidiva e necessidade de estratégias individualizadas. O estudo nos mostra que compreender melhor os mecanismos genéticos da obesidade pode ser uma das chaves para o futuro do tratamento. 

 

Autoria

Foto de Paulo Melo

Paulo Melo

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Residência Médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Piauí e Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Belo Horizonte. Possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. É mestrando e professor da área de endocrinologia na Afya Educação Médica.

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