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Dermatologia27 maio 2026

Queda de cabelo associada aos agonistas do receptor de GLP-1: quais as evidências?

Estudo avaliou a relação entre agonistas do receptor de GLP-1 com queda de cabelo, discutindo subtipos de alopecia e mecanismos subjacentes

O uso crescente dos agonistas do receptor de GLP-1 (ARGLP-1) — capazes de promover perdas de até 15-20% do peso corporal — transformou o cenário terapêutico da obesidade e trouxe à atenção efeitos adversos que não foram proeminentes nos primeiros ensaios clínicos. Entre eles, a perda capilar vem ganhando relevância. Uma revisão sistemática publicada em abril de 2026 na revista Science Progress consolidou as evidências sobre queda de cabelo associada aos agonistas do receptor de GLP-1 e oferece subsídios para o aconselhamento clínico.

Queda de cabelo associada aos agonistas do receptor de GLP-1: quais as evidências?

Como a revisão foi conduzida e quais estudos foram analisados

A revisão foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA-ScR, com protocolo registrado no PROSPERO. A busca foi realizada em janeiro de 2026 nas bases PubMed, Embase, Scopus e Web of Science. Foram incluídos estudos primários que relatavam perda capilar em pacientes em uso de ARGLP-1: ensaios clínicos randomizados, coortes retrospectivas e estudos de farmacovigilância. Revisões, metanálises e relatos de caso foram excluídos. Dos 133 estudos identificados, 24 preencheram os critérios de inclusão.

Semaglutida e tirzepatida são os agentes com maior sinal de risco para queda de cabelo

A perda capilar foi mais frequentemente associada à semaglutida e à tirzepatida, os agentes também relacionados à maior perda ponderal entre os estudados. Quando o subtipo foi especificado, as formas não cicatriciais predominaram, especialmente o eflúvio telógeno e a alopecia androgenética.

Nos estudos com tirzepatida para obesidade, a alopecia foi relatada em proporções superiores às do placebo. Para a semaglutida, os relatos foram mais frequentes nas doses mais altas utilizadas para perda de peso. Liraglutida, dulaglutida, exenatida e lixisenatida apresentaram evidências mais limitadas e, em geral, menor sinal de risco.

Leia também: Tirzepatida versus semaglutida: qual a melhor para o tratamento da obesidade?

Por que os GLP-1 podem causar queda de cabelo?

A queda capilar associada aos ARGLP-1 é provavelmente multifatorial. O mecanismo mais aceito é o eflúvio telógeno desencadeado por perda de peso rápida, restrição calórica, estresse metabólico e possíveis deficiências nutricionais, incluindo ferro, vitamina D, zinco, proteínas e outros micronutrientes. A tirzepatida foi particularmente relacionada ao eflúvio telógeno, possivelmente por induzir reduções ponderais mais intensas e rápidas.

Um ponto clinicamente relevante: o eflúvio telógeno pode desmascarar uma alopecia androgenética previamente subclínica, o que dificulta a interpretação clínica dos casos.

Saiba mais: Alopecia no consultório: principais causas e tratamento

Os autores também discutem a possível influência de alterações hormonais e metabólicas sobre o ciclo folicular. Embora alguns estudos sugiram maior frequência de perda capilar em mulheres, essa diferença pode decorrer tanto de fatores biológicos quanto de viés de percepção e notificação. O artigo enfatiza que não há evidência robusta de dano folicular permanente ou de efeito tóxico direto sobre o folículo piloso.

O que fazer na prática para manejar a alopecia associada aos GLP-1

Clinicamente, os autores recomendam orientar os pacientes sobre a possibilidade de queda difusa não cicatricial, avaliar o padrão da alopecia e considerar investigação laboratorial em casos persistentes ou associados a perda ponderal rápida.

Entenda: Uso de GLP-1 para perda de peso pode levar a complicações anestésicas

Associação possível mas causalidade ainda incerta: o que já se sabe e o que ainda falta responder

Há uma associação possível entre agonistas do receptor de GLP-1 e perda capilar não cicatricial, principalmente com semaglutida e tirzepatida, embora a causalidade ainda não esteja totalmente estabelecida. A relação parece estar fortemente vinculada à magnitude e à velocidade da perda de peso. Estudos prospectivos maiores são necessários para definir temporalidade, grupos de maior risco, mecanismos envolvidos e estratégias de prevenção, como suporte nutricional e acompanhamento dermatológico adequado.

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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