O hemangioma infantil é o tumor vascular benigno mais frequente da infância e atualmente o propranolol é considerado o tratamento sistêmico de primeira linha para casos que necessitam de intervenção. Apesar de ter eficácia reconhecida, ainda existem questionamentos sobre protocolos de monitorização, necessidade de internação e perfil de segurança durante o tratamento. Nesse contexto, o objetivo deste estudo foi avaliar a segurança e a eficácia do propranolol oral em condições de prática clínica real, buscando fornecer orientações para seu uso seguro em pacientes com hemangioma infantil.

Propranolol oral no hemangioma infantil
O artigo em questão trata-se de um estudo transversal descritivo, com coleta retrospectiva de dados de prontuários eletrônicos de 64 crianças tratadas entre 2015 e 2023 em um centro universitário da Arábia Saudita. Foram incluídos pacientes com diagnóstico de hemangioma infantil que receberam propranolol oral, sendo excluídas crianças com doenças cardiovasculares, asma grave ou hipotensão.
O protocolo adotado consistiu em iniciar o medicamento na dose de 1 mg/Kg/dia, com aumento para 2 mg/Kg/dia após uma semana, caso não houvesse alterações clínicas ou laboratoriais. Foram analisadas características clínicas das lesões, resposta terapêutica, efeitos adversos e ocorrência de recidiva após a suspensão do tratamento.
Resultados clínicos e efeitos adversos
A maioria dos pacientes do estudo era do sexo feminino (81,3%) e apresentava hemangiomas localizados na face (56,3%). Cerca de 70% das lesões mediam menos de 10cm². Em relação à eficácia, houve resolução completa em 81,3% dos casos, melhora parcial em 7,8% e ausência de resposta em 7,8%. A taxa de recidiva foi de apenas 3,1%. Os eventos adversos foram incomuns e, em sua maioria, leves. Os mais frequentes foram hipercalemia (23,4%), hipotensão (9,4%) e pesadelos (9,4%), seguidos por distúrbios do sono, redução do apetite, irritabilidade, bradicardia, vômitos, extremidades frias e hipoglicemia. Nenhum caso de hipercalemia foi sintomático ou associado a complicações graves.
Na discussão, os autores destacam que seus achados reforçam a eficácia e a segurança do propranolol oral já demonstradas em estudos anteriores. O medicamento atua por mecanismos que incluem a vasoconstrição, redução da expressão do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) e modulação do sistema renina-angiotensina.
Manejo ambulatorial e recomendações
Os autores propõem um modelo de tratamento ambulatorial, com avaliação clínica inicial, monitorização básica e escalonamento gradual da dose. Destacam ainda que a baixa frequência de hipoglicemia pode estar relacionada à orientação de administrar o propranolol após as refeições. A taxa reduzida de recidiva foi atribuída ao início precoce do tratamento, sua manutenção até os 2 anos de idade e à retirada gradual da medicação.
Mensagem prática
O estudo conclui demonstrando que o propranolol oral apresenta elevada eficácia e um perfil de segurança favorável no tratamento dos hemangiomas infantis. A maioria dos pacientes pode ser manejada de forma segura em regime ambulatorial, com monitorização clínica adequada e acompanhamento regular. Os autores ressaltam que essa abordagem pode ser benéfica para reduzir custos, ampliar o acesso ao tratamento e aumentar a adesão das famílias, embora reconheçam como limitações o tamanho relativamente pequeno da amostra e o caráter retrospectivo da pesquisa.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Editora médica da Afya. Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além da atuação na Afya, também é preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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