O documento da ESR, endossado pela ESSR, é bem claro que para suspeita de metástase óssea de tumor sólido e para estadiamento do mieloma, a RM de medula óssea deve ser primeira linha, e deve substituir radiografia, cintilografia e TC nessas indicações. Eles colocam isso como recomendação de alto nível de evidência, sustentada por coortes prospectivas, revisões sistemáticas e diretrizes internacionais.
Por que isso importa, de forma muito concreta? Porque radiografia, cintilografia e TC enxergam, em grande parte, consequências tardias, como esclerose, lise, reação osteoblástica, alteração cortical. A RM vê o problema antes, vê a substituição da gordura da medula por células tumorais. É como comparar uma fotografia de um incêndio quando já há fumaça no prédio, com o sensor que detecta aumento de temperatura no primeiro cômodo. Quem trata câncer sabe o custo de perder tempo. Um paciente com dor lombar e PSA alto pode ter lesão medular difusa sem uma lesão “bonita” na cortical. O paciente com mieloma pode ter doença focal ativa sem lesão lítica evidente. Se você usa uma ferramenta que detecta tarde, você estagia tarde, e trata tarde.
Há ainda um ponto de prática moderna. Hoje se fala muito em tratamento “guiado por resposta”. Só que, no osso, o uso do RECIST é muito limitado. Lesão óssea tradicionalmente é “não mensurável”, e a cintilografia sofre com flare. A RM, especialmente com DWI e métricas quantitativas, permite avaliar a resposta de forma mais objetiva, inclusive em lesões que antes ficavam no limbo do “parece estável”. O artigo insiste nisso. ADC e fração de gordura são biomarcadores úteis, quando usados com critério.

Metodologia
Este texto faz parte da série ESR Essentials, que é uma revisão prática com recomendações de execução e interpretação. A proposta é orientar o radiologista generalista e o serviço de imagem sobre quando pedir, como adquirir, como interpretar e como reportar RM de medula óssea em oncologia. O documento não é um estudo clínico com novos números de eficácia; ele organiza evidência e traduz em padrão de prática. A mensagem é repetida de modo intencional. RM deve ser integrada ao cuidado oncológico, não usada como “exame de exceção”.
Eles fazem escolhas importantes, e explicitam. O foco é metástase de tumor sólido e mieloma, que são os cenários com melhor validação e maior impacto de guideline; linfoma e leucemias ficam fora por complexidade e necessidade de validação maior. Também deixam claro a comparação com PET/TC. PET é excelente quando existe traçador apropriado, mas RM ganha por independência de traçador e ausência de radiação, além de boa performance em infiltração difusa.
População envolvida
Como é recomendação, não há “uma coorte”, mas o artigo delineia bem para quem isso se aplica. Primeiro, pacientes com tumor sólido e suspeita de acometimento ósseo, especialmente tumores com predileção por osso, como próstata e alguns subtipos de mama. Nesses, a RM do esqueleto axial pode ser suficiente como abordagem rápida e confiável para confirmar medula comprometida e para seguimento; e pode ser combinada com TC tóraco-abdomino-pélvica contrastada quando se quer mapear metástase visceral e linfonodal.
Segundo, pacientes com mieloma múltiplo, plasmocitoma solitário, smoldering myeloma e MGUS de alto risco. Aqui a recomendação é mais forte ainda. RM de corpo inteiro (WB-MRI) com DWI deve ser primeira linha.
Terceiro, para pacientes em acompanhamento para avaliação de resposta, detecção de recidiva e de complicações, como fratura patológica, extensão epidural e compressão medular. Eles enfatizam que RM é o método de escolha nessas complicações; e TC entra como complemento quando é preciso entender detalhe estrutural e estabilidade.
Resultados
RM como primeira linha, e por quê? O documento afirma que WB-MRI se tornou primeira linha em várias malignidades, e que, para medula óssea, oferece detecção precoce de substituição medular, algo que radiografia, cintilografia e TC não fazem. PET é ótimo quando há traçador eficaz; WB-MRI tem vantagem de ser “one size fits all”, sem radiação e sem depender de avidade por FDG. WB-MRI é menos sensível para nódulos pulmonares pequenos, enquanto PET/CT ganha no pulmão; por outro lado, PET/CT pode perder lesões não ávidas, como parte de mieloma e certos tumores.
Escolha entre AS-MRI (RM de esqueleto axial) e WB-MRI. Aqui há uma recomendação pragmática, onde a AS-MRI é alternativa rápida, com foco em coluna, bacia e fêmures proximais, e isso captura grande parte da medula vermelha onde doença metastática e mieloma preferem se instalar. Mas não basta coluna apenas; eles insistem que incluir pelve é crucial, porque os protocolos de somente esqueleto axial perdem lesões relevantes. WB-MRI, por outro lado, é o padrão quando se quer estadiamento abrangente e quando a pergunta inclui acometimento extraósseo, carga tumoral total e resposta global.
Os três pilares do protocolo. Eles deixam claro, de forma didática, que as sequências sensíveis à gordura, sequências sensíveis a líquido com supressão de gordura, e DWI são o pilar do exame. Sugerem um desenho moderno usando Dixon, que entrega múltiplos conjuntos de imagem a partir de uma única aquisição T2 FSE Dixon, gerando in-phase, out-of-phase, water-only e fat-only.
Na prática, as recomendações ficam assim: use T1 ou Dixon fat-only para avaliar integridade da medula; lesão maligna tipicamente perde gordura, fica hipointensa em T1, mais baixa que disco e músculo, e vira “void” no fat-only; use T2 Dixon water-only para detecção, porque destaca a lesão em meio à medula; use out-of-phase versus in-phase para demonstrar presença de gordura, aqui eles citam um limiar prático de queda de sinal, em torno de 20%, podendo subir para 25–30% em abordagem mais conservadora, como sinal a favor de malignidade em lesões mistas.
Eles ilustram isso muito bem, mostrando um foco de hiperplasia medular nodular em paciente com câncer de mama, onde o drop de sinal em out-of-phase foi de 73%, sendo um argumento forte de preservação de gordura e benignidade. Por outro lado, na metástase de próstata, não se observou quase nenhum drop, de 1,3%, sugerindo substituição tumoral.
DWI. A recomendação é usar DWI com supressão de gordura, com dois b-values, por exemplo 50 e 800-1000; e incorporar mapas de ADC. Eles colocam faixas de referência úteis. ADC em lesões tumorais tende a ficar mais baixo que o calor de ADC da medula normal. E o ponto prático para resposta é que aumentar ADC e fração de gordura sugere resposta; diminuir sugere progressão ou recidiva. Eles ainda sugerem um corte operacional, com aumento de 25% de ADC como sinal de resposta, em linha com critérios já validados em protocolos tumor-específicos. Aqui, reproduzimos o que já observamos no dia a dia: DWI alto pode enganar por efeito “shine-through” e por isso o ADC é obrigatório na interpretação, para diferenciar tumor viável de necrose ou alteração pós-tratamento.
Contraste venoso, nem sempre. Isso ajuda muito serviços que têm a tentação de usar contraste sempre. Eles dizem claramente que contraste e DCE não devem ser sistemáticos; devem ser reservados para perguntas específicas, como avaliação de perfusão, angiogênese em mieloma, ou distinção de lesão ativa versus inativa em caso ambíguo.
Mimetizadores e armadilha. O texto dedica espaço a isso porque é onde o radiologista erra e onde o oncologista sofre. Hiperplasia medular difusa por anemia ou G-CSF pode parecer infiltração maligna. Eles recomendam sempre checar história de uso de fator estimulador de colônia, e sugerem que hiperplasia benigna tende a ter sinal mais uniforme e baixo em T2/STIR, enquanto malignidade difusa tende a ser heterogênea ou alta; e que Dixon pode mostrar gordura residual, argumento contra malignidade. Eles listam mimetizadores focais importantes, como hemangioma, fratura benigna, Paget, enostose, tumor notocordal benigno; e dão chaves de diagnóstico, inclusive densidade na TC para enostose e trabéculas grosseiras em hemangioma.
Resposta e complicações. Eles sugerem uma abordagem “RECIST-like”, como olhar número e tamanho de lesões, e associar sinais morfológicos de resposta, como halo gorduroso periférico, desaparecimento do halo celular, redução de componente de partes moles. Ele lembra que fratura patológica e aumento de extensão de partes moles também são sinais de progressão. Para complicações, reforçam que RM é um método de escolha para fratura maligna, extensão epidural e compressão; TC é complementar quando precisa avaliar estrutura e estabilidade.
Mensagem Prática
Se você quer transformar este documento em prática de serviço, pense em três decisões.
Primeira, escolha RM como primeira linha quando a pergunta é avaliar a medula óssea. Na metástase de tumor sólido, e em mieloma, esse é o recado central. Prefira RM a radiografia, cintilografia e TC. Se há PET/TC com bom traçador disponível, ótimo, mas não esqueça que a RM é independente de traçador, não irradia, e é excelente para doença difusa.
Segunda, padronize protocolo. Se o serviço não consegue WB-MRI para todos, implemente ao menos RM de esqueleto axial bem feito, incluindo coluna mais pelve mais fêmures proximais; e use a tríade de sequências (T2 Dixon FSE com water-only e fat-only, DWI com ADC, e uma sequência sensível à gordura tipo T1). Use avaliação quantitativa como apoio, não como sentença; ADC e fração de gordura ajudam muito em resposta, especialmente quando a avaliação morfológica parece estável e o quadro clínico diz o contrário.
Terceira, treine armadilhas. Pergunte sempre por uso de G-CSF e anemia. Olhe out-of-phase e procure queda de sinal significativa para declarar benignidade. Não declare metástase com base em DWI isolado; confirme com ADC e com Dixon. E, quando a dúvida persiste, o documento dá caminhos sensatos. Comparar com exames prévios, estender cobertura, repetir em curto intervalo para ver evolução, usar TC direcionado para ver esclerose típica, e, quando ainda não fecha, biopsiar.
Autoria

Gabriel Madeira Werberich
Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.
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