O crescente aumento de incidência de câncer de pele, associado ao elevado número de encaminhamentos por lesões suspeitas, tem resultado em uma importante sobrecarga aos serviços de dermatologia. Nesse contexto, o estudo publicado na Health technology assessment propõe uma análise do papel de sistemas de inteligência artificial (IA) como ferramentas de triagem diagnóstica, avaliando especialmente duas tecnologias: DERM (Deep Ensemble for Recognition of Malignancy) e Moleanalyzer Pro (FotoFinder). O objetivo foi investigar a acurácia diagnóstica das ferramentas, impacto clínico potencial e viabilidade econômica dentro do fluxo assistencial, como auxílio à decisão após encaminhamento para cuidados primários.
Metodologia e resultados
Os autores realizaram uma revisão sistemática, com síntese narrativa e metanálise de estudos de acurácia diagnóstica, além de uma avaliação conceitual de custo-efetividade. O objetivo não foi apenas comparar o desempenho diagnóstico, mas compreender como essas tecnologias poderiam modificar o percurso assistencial, especialmente reduzindo encaminhamentos desnecessários à atenção especializada.
Os resultados demonstraram que o sistema DERM apresentou elevada sensibilidade para a detecção de lesões malignas (aproximadamente 96%), embora com especificidade moderada. Por outro lado, o algoritmo mostrou desempenho razoável na identificação de lesões benignas, com potencial para atuar como ferramenta de triagem inicial e reduzir avaliações presenciais por dermatologistas. Algumas modelagens do estudo indicaram que aproximadamente metade dos pacientes encaminhados poderia ser liberada sem consulta especializada, ainda que com o risco de perda de um número pequeno de tumores malignos.
O Moleanalyzer Pro apresentou menor sensibilidade global, porém maior especificidade para melanoma quando comparado a avaliações clínicas remotas realizadas por dermatologistas, sugerindo utilidade complementar em cenários específicos. Entretanto, a base de evidências disponível para essa tecnologia foi considerada limitada, com pequeno número de estudos e heterogeneidade metodológica relevante.

Considerações importantes: Inteligência artificial na triagem de lesões cutâneas suspeitas
Um dos aspectos mais pertinentes discutido pelos autores é que a acurácia diagnóstica isolada não determina, necessariamente, benefício clínico real. Ainda permanece incerto como a introdução da IA poderia impactar desfechos como tempo até o diagnóstico, estágios tumorais detectados ou segurança do paciente em condições práticas reais. Além disso, entrevistas e avaliações de aceitabilidade demonstraram resistência importante dos pacientes e profissionais ao uso autônomo da IA sem validação médica, evidenciando barreiras culturais e éticas importantes.
Do ponto de vista econômico, não foram identificados estudos robustos de custo/efetividade específicos para as tecnologias avaliadas. Os modelos disponíveis apresentaram limitações estruturais, especialmente na forma como a acurácia diagnóstica foi traduzida em benefícios clínicos e econômicos de longo prazo.
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O estudo reforçou que a IA possui potencial para otimizar os fluxos diagnósticos em dermatologia, sobretudo na identificação de lesões benignas e na racionalização de encaminhamentos. Entretanto, o campo ainda se encontra em fase de maturação científica, tendo como principais lacunas a ausência de estudos comparativos robustos, escassez de dados prospectivos em cenários reais e incertezas quanto ao impacto clínico e econômico em maior escala.
Mensagem prática
Para médicos e residentes, a mensagem central é que algoritmos diagnósticos representam ferramentas promissoras de apoio à decisão, mas ainda não substituem o julgamento clínico especializado, sendo necessário que sua adoção seja guiada por evidências sólidas de benefício ao paciente.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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