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Dermatologia4 março 2026

Inteligência artificial na triagem de lesões cutâneas suspeitas

Estudo analisou do papel da inteligência artificial (IA) na triagem diagnóstica, sua acurácia, impacto clínico e viabilidade econômica

O crescente aumento de incidência de câncer de pele, associado ao elevado número de encaminhamentos por lesões suspeitas, tem resultado em uma importante sobrecarga aos serviços de dermatologia. Nesse contexto, o estudo publicado na Health technology assessment propõe uma análise do papel de sistemas de inteligência artificial (IA) como ferramentas de triagem diagnóstica, avaliando especialmente duas tecnologias: DERM (Deep Ensemble for Recognition of Malignancy) e Moleanalyzer Pro (FotoFinder). O objetivo foi investigar a acurácia diagnóstica das ferramentas, impacto clínico potencial e viabilidade econômica dentro do fluxo assistencial, como auxílio à decisão após encaminhamento para cuidados primários. 

Metodologia e resultados 

Os autores realizaram uma revisão sistemática, com síntese narrativa e metanálise de estudos de acurácia diagnóstica, além de uma avaliação conceitual de custo-efetividade. O objetivo não foi apenas comparar o desempenho diagnóstico, mas compreender como essas tecnologias poderiam modificar o percurso assistencial, especialmente reduzindo encaminhamentos desnecessários à atenção especializada. 

Os resultados demonstraram que o sistema DERM apresentou elevada sensibilidade para a detecção de lesões malignas (aproximadamente 96%), embora com especificidade moderada. Por outro lado, o algoritmo mostrou desempenho razoável na identificação de lesões benignas, com potencial para atuar como ferramenta de triagem inicial e reduzir avaliações presenciais por dermatologistas. Algumas modelagens do estudo indicaram que aproximadamente metade dos pacientes encaminhados poderia ser liberada sem consulta especializada, ainda que com o risco de perda de um número pequeno de tumores malignos. 

O Moleanalyzer Pro apresentou menor sensibilidade global, porém maior especificidade para melanoma quando comparado a avaliações clínicas remotas realizadas por dermatologistas, sugerindo utilidade complementar em cenários específicos. Entretanto, a base de evidências disponível para essa tecnologia foi considerada limitada, com pequeno número de estudos e heterogeneidade metodológica relevante. 

Inteligência artificial na triagem de lesões cutâneas suspeitas

Considerações importantes: Inteligência artificial na triagem de lesões cutâneas suspeitas 

Um dos aspectos mais pertinentes discutido pelos autores é que a acurácia diagnóstica isolada não determina, necessariamente, benefício clínico real. Ainda permanece incerto como a introdução da IA poderia impactar desfechos como tempo até o diagnóstico, estágios tumorais detectados ou segurança do paciente em condições práticas reais. Além disso, entrevistas e avaliações de aceitabilidade demonstraram resistência importante dos pacientes e profissionais ao uso autônomo da IA sem validação médica, evidenciando barreiras culturais e éticas importantes. 

Do ponto de vista econômico, não foram identificados estudos robustos de custo/efetividade específicos para as tecnologias avaliadas. Os modelos disponíveis apresentaram limitações estruturais, especialmente na forma como a acurácia diagnóstica foi traduzida em benefícios clínicos e econômicos de longo prazo. 

Leia também: Brasil regulamenta uso de IA na medicina e reforça decisão clínica como ato humano

O estudo reforçou que a IA possui potencial para otimizar os fluxos diagnósticos em dermatologia, sobretudo na identificação de lesões benignas e na racionalização de encaminhamentos. Entretanto, o campo ainda se encontra em fase de maturação científica, tendo como principais lacunas a ausência de estudos comparativos robustos, escassez de dados prospectivos em cenários reais e incertezas quanto ao impacto clínico e econômico em maior escala.  

Mensagem prática 

Para médicos e residentes, a mensagem central é que algoritmos diagnósticos representam ferramentas promissoras de apoio à decisão, mas ainda não substituem o julgamento clínico especializado, sendo necessário que sua adoção seja guiada por evidências sólidas de benefício ao paciente. 

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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