Logotipo Afya
Anúncio
Dermatologia23 junho 2026

Infestação delirante: o que diz o novo consenso sobre a condição?

A publicação orienta diagnóstico e manejo da infestação delirante com recomendações práticas sobre antipsicóticos e colaboração entre especialidades

A infestação delirante é um transtorno psiquiátrico caracterizado pela crença fixa e falsa de estar infestado por organismos vivos ou partículas inanimadas, mesmo na ausência de evidências objetivas. Embora pouco prevalente, a condição impõe desafios diagnósticos significativos em ambulatórios de dermatologia e psiquiatria, em que os pacientes frequentemente chegam com amostras do material supostamente retirado da pele e resistência acentuada a explicações psiquiátricas. Um consenso internacional Delphi conduzido pela Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria (ESDaP), publicado no Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology em 2026, estabeleceu 20 recomendações práticas sobre definição, diagnóstico e manejo da condição.

Infestação delirante: o que diz o novo consenso sobre a condição?

Por que a infestação delirante desafia dermatologistas e psiquiatras

A psicordermatologia ocupa uma posição peculiar na medicina: o paciente chega ao dermatologista com queixas cutâneas, mas a causa subjacente é psiquiátrica. Na infestação delirante, esse desalinhamento é especialmente marcante. Os pacientes relatam sensações táteis intensas, apresentam escoriações por automutilação e trazem materiais coletados para confirmar a infestação. A baixa prevalência da condição, somada à ausência de ensaios clínicos randomizados e à variabilidade de práticas entre países europeus, motivou a construção deste consenso baseado em opinião qualificada de especialistas.

Saiba mais: Dermatologia além da pele e o impacto na saúde mental dos pacientes

Como o estudo Delphi foi construído

O painel reuniu 34 especialistas de 13 países nas áreas de dermatologia, psiquiatria e medicina tropical, todos com experiência clínica superior a cinco pacientes por ano. O processo envolveu duas rodadas anônimas por formulário eletrônico, seguidas de reunião final por videoconferência. O limiar de consenso foi definido em 75% de concordância ou discordância em cada afirmação. Das 22 propostas avaliadas, 20 alcançaram esse patamar: 11 na primeira rodada, 2 na segunda e 6 durante a reunião final.

Definição e classificação: o que o consenso estabeleceu

A definição acordada descreve a infestação delirante como uma condição psiquiátrica em que o paciente mantém crença fixa e falsa de estar infestado por patógenos vivos ou inanimados, a despeito de evidências contrárias. O consenso recomenda distinguir entre DI primária, que ocorre sem causa subjacente identificável, e DI secundária, associada a outro transtorno psiquiátrico, neurológico ou clínico. Essa distinção orienta a estratégia terapêutica: na DI secundária, tratar a causa-raiz é prioritário.

A doença de Morgellons foi classificada como subtipo da infestação delirante, e não como entidade clínica independente, posição consistente com a literatura científica atual. O impacto na qualidade de vida, incluindo sofrimento psicológico, prejuízo funcional e aumento do uso de serviços de saúde, foi formalmente incorporado ao escopo da avaliação clínica.

Diagnóstico e exame clínico

O exame do material trazido pelo paciente atingiu 100% de concordância no painel, sendo valorizado tanto pelo seu papel no diagnóstico diferencial da infestação quanto pela construção da relação médico-paciente. Exames de sangue foram recomendados para exclusão de causas orgânicas, e a triagem toxicológica urinária foi indicada para avaliação de uso de substâncias, dada sua frequência nessa população. A neuroimagem deve ser solicitada seletivamente, em casos com sinais neurológicos ou cognitivos que levantem suspeita de condição estrutural ou neurodegenerativa. A colaboração entre dermatologistas e psiquiatras foi considerada essencial por 86% dos especialistas.

Tratamento

O consenso foi claro: antipsicóticos devem ser ofertados como tratamento de primeira linha para infestação delirante. A escolha do fármaco deve ser guiada pela evidência disponível e por fatores individuais do paciente, incluindo histórico, tolerabilidade e experiência do prescritor.

Saiba mais: Você sabe como escolher um antipsicótico?

Dermatologistas com treinamento adequado foram reconhecidos como aptos a prescrever antipsicóticos para esses pacientes, o que é relevante dado seu papel como primeiro contato clínico. O uso de antipsicóticos de depósito foi considerado inadequado na maioria dos casos, em razão dos efeitos adversos potenciais e da dificuldade de administrá-los sem adesão plena do paciente. O consenso também estabeleceu que os antipsicóticos não devem ser interrompidos de forma abrupta após resposta clínica satisfatória, e que recomendações sobre duração e desmame precisam ser sistematizadas em diretrizes futuras. A terapia cognitivo-comportamental não demonstrou valor adicional nessa população com base na literatura atual.

Os especialistas também destacaram que a adaptação da linguagem utilizada durante a consulta pode favorecer o vínculo terapêutico e a adesão ao tratamento, sem comprometer a integridade clínica. Por fim, houve forte concordância de que os pacientes devem sempre ser informados quando um antipsicótico é prescrito em respeito aos princípios do consentimento informado e da transparência na prática médica

Saiba mais: Efeitos colaterais de antidepressivos e antipsicóticos e prescrição personalizada

Se o paciente resiste ao diagnóstico, como comunicar

O manejo do transtorno delirante somático envolve um componente comunicacional delicado. Não houve consenso sobre nomear o diagnóstico explicitamente, com apenas 45% dos especialistas apoiando essa prática, mesmo em contexto de vínculo estabelecido. O receio predominante é que a revelação precoce comprometa o engajamento terapêutico, especialmente nas fases iniciais do tratamento. Por outro lado, 77,7% concordaram que terminologias adaptadas podem ser usadas para preservar a relação terapêutica e favorecer o engajamento do paciente. 83% dos participantes reafirmaram que o paciente deve ser sempre informado sobre o uso de antipsicótico, seja qual for a estratégia de comunicação adotada, garantindo o princípio do consentimento informado.

O que muda na prática clínica com esse consenso?

Para o médico que atende em ambulatório ou pronto-atendimento, as implicações são diretas. O dermatologista com treinamento adequado não precisa aguardar encaminhamento psiquiátrico para iniciar o tratamento farmacológico. A abordagem deve ser simultânea: tratar a condição cutânea coexistente e iniciar o antipsicótico de forma precoce, com adaptação da linguagem, que preserve o vínculo.

O material trazido pelo paciente deve ser examinado, e não descartado, pois esse gesto constrói confiança e permite excluir infestação real. Casos com sinais neurológicos ou histórico de uso de substâncias requerem investigação complementar dirigida antes de se confirmar o diagnóstico. Na ausência de estudos de alta evidência, esse consenso oferece a base mais robusta disponível para a tomada de decisão clínica.

Limitações do estudo

As recomendações baseiam-se predominantemente na opinião de especialistas, devido à escassez de ensaios clínicos randomizados sobre o tema. Além disso, a maioria dos participantes era composta por dermatologistas com experiência em psicodermatologia, principalmente de países de alta renda, o que pode limitar a representatividade de outras especialidades, contextos assistenciais e sistemas de saúde. Por fim, o método Delphi e o limiar de consenso adotado (75%) apresentam limitações inerentes, podendo não refletir concordância plena em todos os tópicos.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Editora médica da Afya. Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além da atuação na Afya, também é preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Dermatologia