Os corticosteroides tópicos (CET) são peças-chave na estratégia terapêutica de diversas doenças inflamatórias cutâneas.1 Os corticosteroides de alta potência são especialmente recomendados para as doenças inflamatórias cutâneas graves, como a dermatite atópica grave, líquen plano e psoríase grave, em áreas não intertriginosas e não faciais, e em associação com outras terapias sistêmicas.2,3,4 A seguir, entenda mais sobre o funcionamento, a classificação, a seleção e o uso dos CET.
A ação dos corticoesteroides se dá através da redução da expressão de mediadores inflamatórios, como as prostaglandinas, e do aumento da expressão de genes com ações anti-inflamatórias.5 Os CET também provocam vasoconstrição, que se correlaciona com sua potência.6 Tal potência depende não apenas da molécula utilizada, mas também da concentração e do veículo (loção, creme, pomada, etc).6
Como exemplo prático, em uma revisão sistemática da Cochrane de 2022, a comparação do efeito relativo entre o CET de alta potência versus CET de baixa potência em pacientes com dermatite atópica teve um odds ratio (OD) de 3.71 (2.04 to 6.72), indicando maiores chances de melhora com uso de CET de alta potência nessa população.5

Cuidados essenciais no uso dos corticoesteroides tópicos
Embora eficazes, os CET de alta e muito alta potência exigem atenção para que se reduza a chance de efeitos adversos.
- Atrofia cutânea: pode ocorrer com qualquer CET, no entanto é mais comum com os de maior potência, uso prolongado, sob oclusão, em pacientes idosos e em áreas de pele fina.2
- Absorção sistêmica: o risco é maior com CET de alta potência, uso em grandes áreas, terapia prolongada e uso concomitante de outras formas de corticosteroides (inalatório, nasal ou oral).2 Evidências sugerem que há menor risco de efeitos adversos sistêmicos quando a quantidade não excede 50g de produto por semana.8
- Taquifilaxia: a redução da resposta à administração repetida (tolerância) aos CET foi demonstrada em estudos experimentais. No entanto, estudos clínicos falharam em demonstrar o fenômeno na prática. Postula-se que a redução de eficácia se deva à redução da adesão dos pacientes ao tratamento.9
Estratégia de uso
- Limite o uso contínuo de CET de média ou alta potência a menos de 12 semanas, e os de muito alta potência a menos de três semanas consecutivas. Prefira CET de baixa potência em crianças, doenças leves de grande extensão, áreas de pele fina e áreas sob oclusão (como intertriginosas). Também nessas áreas, não exceda o uso por mais de uma a duas semanas.8
- Em tratamentos prolongados, os CET de alta potência podem ser utilizados de forma intermitente (por exemplo, duas vezes por semana) ou desmamado para um CET de média ou baixa potência. A terapia deve ser suspensa após a melhora das lesões.2,8
- Na psoríase, o uso de análogos de vitamina D, como calcipotriol, ou queratolíticos tópicos, como o ácido salicílico, são utilizados em terapia combinada com os CET, aumentando a eficácia e a duração do período de remissão, e reduzindo efeitos colaterais. O uso de tais agentes tópicos de forma intermitente também é uma alternativa aos CET no período de manutenção proativa na fase de remissão da doença.3
- Na dermatite atópica, as medicações tópicas alternativas mais comuns são os inibidores de calcineurina, como o tacrolimo e o pimecrolimo, que são especialmente úteis em áreas de pele fina e sob oclusão e também na terapia proativa na fase de remissão da doença.10
- Na refratariedade à terapia tópica nos pacientes com dermatite atópica ou psoríase moderados a graves, opções sistêmicas incluem imunobiológicos, imunossupressores e fototerapia.3,10
Fica claro que a individualização do tratamento, com a escolha do tipo de CET e sua duração, deve ser feita com a consideração das características do paciente e particularidades da doença, de forma a manter a eficácia do tratamento e minimizar os efeitos adversos. O acompanhamento cuidadoso é fundamental para a observação dos primeiros sinais de toxicidade e suspensão da medicação, garantindo segurança ao paciente.
Autoria
Fabiana Gadotti
Graduação em Medicina pela Universidade de São Paulo, Residência médica em Dermatologia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Título de Especialista em Dermatologia (TED) pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, Pós-Graduação em Pesquisa Clínica pela Harvard T. Chan School of Public Health - Principles and Practice of Clinical Research (PPCR), Teacher Assistant PPCR 2023-2024.
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