O omeprazol, um dos medicamentos mais prescritos para condições como azia, refluxo gastroesofágico e gastrite, tem seu uso prolongado feito de forma indiscriminada pelos pacientes, muitas das vezes sem prescrição. Uma recente pesquisa brasileira aponta para potenciais desequilíbrios na absorção de minerais essenciais e impactos na saúde óssea, levantando um alerta importante para a comunidade médica e pacientes.
Detalhes da Pesquisa
Conduzido por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), o estudo foi publicado na renomada revista científica “ACS Omega”. A investigação utilizou modelos animais, especificamente ratos, submetidos ao tratamento contínuo com omeprazol por períodos de 10, 30 e 60 dias. Ao término de cada fase, análises detalhadas de sangue e órgãos como estômago, fígado e baço foram realizadas para identificar alterações.
Principais Achados
Os resultados revelaram uma série de alterações preocupantes:
- Aumento do cálcio sanguíneo: Observou-se um aumento significativo nos níveis de cálcio no sangue dos animais, um achado que pode sugerir a mobilização do mineral dos ossos, potencialmente elevando o risco de osteoporose a longo prazo. No entanto, os pesquisadores ressaltam a necessidade de estudos mais extensos para confirmar essa hipótese em humanos.
- Redução do ferro circulante: Foi identificada uma queda nos níveis de ferro circulante, indicando um cenário compatível com anemia.
- Alterações em outros minerais: O estudo também apontou desequilíbrios em magnésio, zinco, cobre e potássio, minerais cruciais para diversas funções fisiológicas, incluindo a saúde neuromuscular, imunológica e cardiovascular.
- Impacto no sistema imune: Foram notadas mudanças em parâmetros relacionados ao sistema imunológico dos ratos.
Mecanismo de Ação e Interferência Nutricional
Medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol atuam inibindo a bomba de prótons, o que resulta na redução da produção de ácido clorídrico no estômago. Embora essa ação seja eficaz no alívio de sintomas gástricos, o ambiente ácido estomacal é fundamental para a adequada absorção de minerais como ferro e cálcio. A diminuição dessa acidez, portanto, pode comprometer a biodisponibilidade desses nutrientes.
Uso Banalizado e Riscos Potenciais
Com mais de três décadas no mercado, o omeprazol tornou-se um dos fármacos mais consumidos no Brasil, frequentemente utilizado sem prescrição médica e por períodos prolongados. A pesquisadora Andréa Santana de Brito, da Unifesp, enfatiza que, embora o medicamento seja eficaz para diversas condições gástricas, seu uso indiscriminado, mesmo para sintomas leves como azia, e por meses ou anos, não deve ter seus efeitos adversos negligenciados.
Alerta da Venda Sem Receita
A relevância do estudo é amplificada pela recente decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em novembro de 2025, de liberar a venda de omeprazol 20 mg sem a necessidade de prescrição médica. A Anvisa justifica a medida como um incentivo ao uso responsável, com recomendação de tratamento limitado a 14 dias. Contudo, especialistas alertam que a facilidade de acesso pode, paradoxalmente, fomentar a automedicação e o uso prolongado sem o devido acompanhamento profissional, aumentando os riscos à saúde.
Metodologia e Limitações
A pesquisa envolveu 36 ratos adultos, divididos em grupos controle e tratados, com acompanhamento de até 60 dias. A análise de parâmetros hematológicos, bioquímicos e a concentração de minerais nos órgãos foi realizada por espectrometria de massa, conferindo alta precisão aos dados. Os pontos fortes do estudo incluem a análise detalhada de múltiplos órgãos, a avaliação simultânea de diversos minerais e a precisão do método laboratorial.
Entretanto, os próprios autores destacam ressalvas importantes:
Os resultados foram obtidos em animais e não podem ser diretamente extrapolados para humanos sem validação adicional.
- O estudo não avaliou efeitos clínicos diretos, como a ocorrência de fraturas ósseas.
- Não é possível estabelecer uma relação de causalidade em longo prazo em pessoas com base exclusivamente nestes achados.
Os pesquisadores concluem que “são necessários estudos mais longos e em humanos para confirmar esses achados”, reforçando a importância da cautela e do acompanhamento médico no uso de inibidores da bomba de prótons.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
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