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Clínica Médica10 agosto 2026

Ultrassonografia na predição de atividade da doença de Crohn

Meta-análise avalia a acurácia da ultrassonografia intestinal na detecção de recorrência pós-operatória da doença de Crohn.

A recorrência da doença de Crohn após ressecção ileocólica é frequente e, muitas vezes, assintomática.  

A sua identificação precoce, contudo, permite otimização terapêutica que precede a recorrência clínica, minimizando o risco de novas complicações e cirurgias.  

A ileocolonoscopia permanece o padrão-ouro, através da avaliação direita da anastomose e aplicação do escore de Rutgeerts,  porém é invasiva, onerosa e pouco prática para monitorização seriada.  

Em revisão sistemática publicada em julho de 2026 no Journal of Crohn’s and Colitis, um dos periódicos mais importantes quando o assunto é doença inflamatória intestinal, Viviana  e colaboradores avaliaram a acurácia da ultrassonografia intestinal para a detecção de recorrência pós-operatória da doença de Crohn. 

Desenho do estudo  

Trata-se de uma revisão sistemática e meta-análise, pautada em um modelo hierárquico bivariado de efeitos aleatórios (ferramenta estatística recomendada pela Cochrane que permite combinar os resultados de múltiplos testes diagnósticos sem “mascarar” o efeito do ponto de corte escolhido nem a variação entre diferentes serviços de saúde) e que seguiu as diretrizes PRISMA. 

Foram avaliadas diversas modalidades de ultrassonografia: convencional, com doppler, precedida por contraste oral neutro (PEG ou macrogol) para o preenchimento do intestino delgado e realce da parede (SICUS) e contraste endovenoso com microbolhas (CEUS).  

Os critérios diagnósticos, heterogêneos entre os estudos, incluíram espessura da parede intestinal (BWT), padrão de vascularização/hiperemia ao Doppler, complicações transmurais e realce pelo contraste. 

Resultados 

Foram incluídos 12 estudos europeus, publicados entre 1986 e 2023, tendo a ileocolonoscopia como padrão de referência. 

O desempenho global do método foi considerado satisfatório, corroborado pelas curvas SROC de sensibilidade e especificidade, com destaque para o os seguintes dados de: 

  • Sensibilidade: 87,6%; 
  • Especificidade: 80,2%; 
  • Razão de verossimilhança positiva (LR+): 4,44 (capacidade confirmatória de recidiva moderada a boa); 
  • Razão de verossimilhança negativa (LR): 0,15 (capacidade de exclusão de recidiva boa); 
  • Odds ratio diagnóstica (DOR): 28,8. 

Em relação aos parâmetros isolados, pontuamos os seguintes: espessura parietal ≥3 mm teve sensibilidade de 88,9% e especificidade de 74%. Entretanto, elevando-se o ponto de corte para 5 mm, a especificidade naturalmente subiu, alcançando 96,8%. CEUS teve sensibilidade superior à ultrassonografia convencional (94,1% vs. 79,3%; p = 0,0004), mas às custas de menor especificidade (61,8% vs. 86,3%). 

Limitações 

As principais limitações do estudo foram a grande heterogeneidade metodológica primária relacionada aos estudos disponíveis; ausência de protocolos ultrassonográficos padronizados; intervalo variável, por vezes longo, entre a ultrassonografia e ileocolonoscopia, o que pode ter desacoplado a atividade da doença nos diferentes períodos; e número amostral modesto (N entre 25 e 108 pacientes/estudo) de população proveniente majoritariamente da Itália e Espanha.   

Mensagens práticas 

A ultrassonografia intestinal desponta como uma ferramenta não invasiva de monitorização seriada no pós-operatório de ileocolectomia na doença de Crohn. Combinada à análise multiparamétrica, integrando sintomas e calprotectina fecal, tem potencial de reduzir o número de ileocolonoscopias de vigilância após ileocolectomia, sobretudo ao identificar indivíduos com menor probabilidade de recorrência.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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