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Clínica Médica27 maio 2026

Sutura meniscal na meia-idade: será que compensa?

Estudo compara sutura meniscal e meniscectomia parcial em pacientes acima de 45 anos, com foco em função e osteoartrite.
Por Rafael Erthal

A lesão meniscal em pacientes com mais de 45 anos preocupa os cirurgiões em relação à capacidade de cicatrização do menisco nessa faixa etária. Muitos ortopedistas acreditam que nesses casos, a degeneração do menisco aliada à pouca vascularização indicam uma meniscectomia parcial. Afinal, para que tentar suturar se o risco de falha é alto? Um estudo recente vem desafiar essa lógica. 

sutura meniscal

Sobre o Estudo 

Pesquisadores chineses do Primeiro Hospital Popular de Jiashan, na província de Zhejiang, conduziram um estudo retrospectivo comparando sutura meniscal e meniscectomia parcial em 80 pacientes com idade entre 45 e 75 anos, todos submetidos a tratamento artroscópico entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022. O trabalho, publicado no periódico “The Knee” em 2026, teve como objetivo avaliar desfechos funcionais, qualidade de vida e progressão da osteoartrite do joelho em 12 meses nos pacientes tratados com meniscectomia versus sutura meniscal. 

A sutura meniscal trouxe melhores resultados funcionais? 

Sim, em diversos desfechos. Aos 12 meses, o grupo submetido à sutura apresentou escores Lysholm superiores (88,2 vs 82,6; p = 0,012), IKDC mais elevados (84,5 vs 77,8; p = 0,008) e melhores escores WOMAC (16,2 vs 22,7; p = 0,003) em comparação ao grupo da meniscectomia. A dor, avaliada pela escala visual analógica, também foi menor no grupo da sutura (1,8 vs 2,6; p = 0,023). 

É importante, no entanto, discutir o significado clínico dessas diferenças. A diferença média no escore de Lysholm foi de 5,6 pontos, o que a torna estatisticamente significativa, mas abaixo da diferença clinicamente importante mínima estabelecida de 10 pontos. Já as diferenças no IKDC (6,7 pontos) e no WOMAC (6,5 pontos) aproximaram-se ou atingiram os limiares de diferença clinicamente importante, indicando benefício clínico relevante nesses domínios. 

A qualidade de vida também melhorou? 

O grupo da sutura apresentou escores superiores no componente físico do SF-36 (46,8 vs 42,1; p = 0,015), sugerindo que a preservação meniscal pode impactar positivamente o bem-estar geral dos pacientes, para além das medidas específicas do joelho. 

E a progressão da osteoartrite? 

Aos 12 meses, a progressão radiográfica da osteoartrite (avaliada pela classificação de Kellgren-Lawrence) foi menor no grupo da sutura: 12,5% contra 27,5% no grupo da meniscectomia (p = 0,035). Embora esse dado seja promissor, o seguimento de apenas um ano é curto para avaliar adequadamente alterações degenerativas, que tipicamente se manifestam em prazos mais longos (2 a 5 anos). Os autores reconhecem a limitação e estão conduzindo acompanhamento estendido. 

Quais pacientes se beneficiaram mais? 

A análise de subgrupos, embora com limitações de poder estatístico, mostrou tendências interessantes. Pacientes mais jovens dentro da faixa etária (45 a 60 anos), com lesões longitudinais/verticais e com mecanismo traumático apresentaram os melhores resultados após a sutura. Lesões localizadas nas zonas vermelha e vermelho-branca também tiveram desfechos superiores. Após correção para comparações múltiplas, porém, esses achados perderam significância, indicando a necessidade de estudos maiores para confirmação. 

A sutura é segura nessa faixa etária? 

Sim. A taxa de falha da sutura no grupo de reparo foi de 7,5%, similar à reportada na literatura para pacientes mais jovens. As taxas de complicações foram baixas e comparáveis entre os grupos. 

Qual a mensagem prática? 

O estudo não defende a sutura de toda e qualquer lesão meniscal no paciente de meia-idade, mas propõe uma mudança de paradigma: a decisão deve ser guiada pelas características da lesão e pela qualidade do tecido, não apenas pela idade cronológica. Lesões periféricas, com boa vascularização e tecido de qualidade, podem se beneficiar da sutura mesmo em pacientes acima dos 45 anos. 

As diretrizes atuais já recomendam considerar o reparo como primeira linha para lesões reparáveis, independentemente da idade. O presente estudo adiciona evidência de mundo real a essa recomendação, ainda que com as limitações inerentes a um estudo com desenho retrospectivo. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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