Em revisão narrativa publicada em outubro de 2025 no Critical Care Clinics, um tema crucial para a Medicina Interna foi abordado:
Como realizar a sedoanalgesia em pacientes com sepse que foram intubados e introduzidos na ventilação mecânica (VM)?
Definitivamente, essa não deve ser uma preocupação exclusiva da Terapia Intensiva, uma vez que a condução desses casos nas primeiras horas ou mesmo dias se dará sob a responsabilidade de clínicos médicos na maioria das enfermarias brasileiras.
O objetivo da sedoanalgesia, independentemente do cenário, é claro: equilibrar conforto, sincronia ventilatória e segurança do paciente, sem aumentar desfechos adversos como delirium (triado por escalas padronizadas, como o CAM-ICU), tempo de VM ou atraso na recuperação cognitiva.
Na sepse, espera-se certa imprevisibilidade e maior propensão à toxicidade da sedoanalgesia em decorrência das alterações farmacocinéticas impostas pela:
- Disfunção circulatória, hepática e renal;
- Interações medicamentosas;
- Hipoalbuminemia, aumento da permeabilidade capilar e do volume de distribuição.
Diante do exposto, é evidente que automatismos prescricionais devem ceder lugar a intervenções individualizadas, guiadas por alvo de sedação superficial (escala de Richmond Agitation-Sedation entre -2 e 0); primazia pela analgesia (sobretudo com fentanil), com emprego sistemático de escalas da avaliação da dor, como a Behavioral Pain Scale; e busca pela estratégia de despertar diário, viabilizando avaliação repetida da prontidão para retirada da VM.
Uma área conflituosa nessa temática é quanto a possível superioridade dos sedativos não benzodiazepínicos (dexmedetomidina ou propofol) em relação ao midazolam em termos de delirium, dias livres de VM, mortalidade, tempo em UTI e recuperação cognitiva. Como a sepse comporta grande heterogeneidade fenotípica, devemos nos abster de simplificações falaciosas.
De modo geral, há preferência pela dexmedetomidina ou propofol, mas as indicações específicas de benzodiazepínicos devem ser recordadas:
- Abstinência alcoólica e/ou benzodiazepínicos;
- Intoxicação por drogas simpaticomiméticas (cocaína e anfetamina);
- Status epilepticus (cenário em que o propofol e os barbitúricos também podem ser considerados);
- Indicação de planos mais profundos de sedação (SDRA grave, assincronia ventilatória significativa e uso de bloqueador neuromuscular).

Mensagens práticas
- A sedoanalgesia pós-intubação orotraqueal dedicada a pacientes sépticos em ventilação mecânica na enfermaria deve ser apoiada nas metas de sedação superficial (escala de RASS entre -2 e 0), primazia da analgesia, promoção de despertares diários com testes de respiração espontânea e tendência à preferência por sedativos não benzodiazepínicos.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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