O emprego dos análogos do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (aGLP-1) e do polipeptídeo inibidor gástrico (aGLP1-GIP) tem sido crescente no Brasil.
As indicações clássicas (DM2 e obesidade) se contrastam com o uso inadequado com finalidade estética exclusiva, enquanto polêmicas se aglomeram em relação aos relatos de contrabando, furtos e falsificação desses medicamentos.
| Análogos de GLP-1 | Análogos de GLP-1/GIP | Análogos de GLP-1/GIP e glucagon |
| ● Exenatida
● Liraglutida ● Semaglutida ● Dulaglutida | ● Tirzepatida | ● Retatutida |
No início de 2026, os casos de pancreatite aguda (PA) têm sido enfatizados pela mídia brasileira. A ANVISA emitiu, em fevereiro, um alerta sobre a necessidade de restrição do uso dos aGLP-1 para as suas indicações oficiais, bem como orientando a notificação de eventos adversos ao VigMed. Desde 2025, a receita médica já é de retenção obrigatória, com prescrição em duas vias e validade de 90 dias, reforçando a necessidade de acompanhamento médico próximo durante o tratamento.
Dados de farmacovigilância sugerem risco de PA para todos os aGLP-1, especialmente a liraglutida, mas a incidência absoluta é baixa e a relação de causalidade não é definitiva. Entretanto, o risco real, segundo grandes estudos e meta-análises, é baixo e não significativamente maior do que outros antidiabéticos. Há, contudo, associação bem definida, mas pequena, com o surgimento de colecistolitíase e suas complicações, principalmente entre pacientes obesos e com doses elevadas de aGLP1.
Em uma coorte retrospectiva publicada no American Journal of Gastroenterology, publicada em fevereiro de 2026, que incluiu mais de 740.000 pacientes diabéticos (idade mediana de 58 anos e equilíbrio na proporção entre homens e mulheres), cerca de 30.000 utilizaram aGLP-1, e 20.000 foram pareados com não usuários. O uso de aGLP-1 associou-se à redução do risco de PA complicada (HR 0,32; IC 95% 0,14–0,74) e da mortalidade por todas as causas (HR 0,45; IC95% 0,41–0,49). Observou-se ainda tendência à menor ocorrência de pancreatite não complicada (HR 0,71; IC95% 0,49–1,01), porém sem significância estatística.
Dessa forma, trata-se de área do conhecimento em que há evidências mistas. De toda forma, deve-se manter a vigilância para a ocorrência de PA, sobretudo em pacientes com histórico de pancreatite ou elevação de lipase.
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Conclusão e Mensagens Práticas
- Os análogos de GLP-1 e agonistas GLP-1/GIP não aumentam significativamente o risco de pancreatite aguda (PA) na população geral com diabetes tipo 2. Entretanto, sugere-se vigilância com o uso de doses maiores, especialmente em pacientes obesos, com histórico prévio de PA, elevação da lipase ou desenvolvimento de colecistolitíase.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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