O consenso da Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) sobre insuficiência cardíaca (IC) e doença renal crônica (DRC) foi publicado em janeiro de 2026 no JACC Heart Failure.

Introdução, epidemiologia e fisiopatologia
A IC e a DRC frequentemente coexistem, compartilhando fatores de risco, como obesidade, DM2 e HAS, em um continuum fisiopatológico de intrincada interdependência cardiorrenal.
Aproximadamente 10–30% dos pacientes com DRC apresentam IC, enquanto 30–60% dos indivíduos com IC apresentam DRC. A associação é nefasta e aumenta o risco de hospitalização, progressão das disfunções orgânicas e mortalidade.
A interação entre os dois órgãos é complexa, bidirecional e envolve mecanismos hemodinâmicos, neuro-hormonais, inflamatórios e metabólicos.
Do ponto de vista fisiopatológico, 4 eixos principais explicam a interação coração-rim:
- Alterações hemodinâmicas com congestão venosa renal, aumento da pressão venosa central e redução do débito cardíaco levando à diminuição da taxa de filtração glomerular (TFG), um importante mediador de desfechos desfavoráveis nas duas condições;
- Ativação neuro-hormonal com estímulo do sistema nervoso simpático, sistema renina-angiotensina-aldosterona e da vasopressina, motivados por redução da pressão arterial, favorecendo vasoconstrição da arteríola eferente, aumento da reabsorção proximal de sódio e, consequente, retenção hidrossalina;
- Mecanismos inflamatórios e metabólicos envolvendo estresse oxidativo, disfunção endotelial, toxinas urêmicas e disbiose intestinal;
- Alterações tubulares adaptativas com aumento da reabsorção de sódio e modulação de transportadores renais.
Diagnóstico
A creatinina sérica apresenta limitações relevantes, pois depende da massa muscular e responde de forma tardia às mudanças dinâmicas da função renal.
Em pacientes com IC aguda, elevações da creatinina podem representar apenas alterações hemodinâmicas decorrentes da descongestão efetiva, e não necessariamente lesão renal intrínseca.
A relação albumina-creatinina urinária (UA-UC) é fundamental tanto na identificação de DRC quanto na averiguação do risco cardiovascular, tendo sido incorporada na calculadora PREVENTTM .
O diagnóstico de IC deve se apoiar nos critérios de Framingham, reconhecendo que os elementos de maior especificidade são a dispneia paroxística noturna e ortopneia, bem como a turgência venosa jugular, B3 e cardiomegalia.
Os peptídeos natriuréticos permanecem úteis no diagnóstico e prognóstico da IC, porém seus níveis estão frequentemente elevados na DRC devido à redução da depuração renal, o que dificulta a utilização de pontos de corte específicos.
A sugestão é levar em conta os valores basais individuais e a evolução temporal, cientes de que os tradicionais pontos de corte hospitalares (BNP ≥ 100 pg/mL e NT-pró-BNP ≥ 300 pg/mL) têm menor especificidade nesse contexto. Além disso, a sua sensibilidade é reduzida na obesidade e IC com fração de ejeção preservada (ICFEP).
Ecocardiografia com avaliação da fração de ejeção, pressões de enchimento (relação E/A, E/e’) e identificação de lesões estruturais é fundamental. Em situações selecionadas, avaliação hemodinâmica invasiva com cateterismo direito pode auxiliar na definição do mecanismo predominante da congestão: renal vs. cardíaco.
Terapia modificadora da IC
No tratamento, pequenas reduções iniciais da TFG são esperadas após a introdução de terapias modificadoras da IC e geralmente atribuídas a alterações hemodinâmicas que não devem motivar a suspensão automática do tratamento.
Na IC com fração de ejeção reduzida (ICFER), permanecem recomendadas as 4 classes terapêuticas:
- Inibidores do receptor de angiotensina-neprilisina (sacubitril-valsartana) ou IECA/BRA;
- Inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2);
- Antagonistas do receptor mineralocorticoide (finerenona);
- Betabloqueadores seletivos (carvedilol, succinato de metoprolol e nebivolol).
Nos pacientes com ICFEP e DRC, evidências recentes apontam para os benefícios dos iSGLT2 e potencial dos antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide, como a finerenona. Agonistas do receptor de GLP-1 podem melhorar sintomas e capacidade funcional em populações com IC associada à obesidade.
Na DRC, contudo, há lacunas importantes de evidência nesse subgrupo de maior risco. A redução inicial da TFG após a introdução de bloqueadores do sistema renina-angiotensina-aldosterona, inibidores de neprilisina (ARNI), antagonistas mineralocorticoides ou iSGLT2 geralmente situa-se entre 10% e 30% e não está associado a pior prognóstico clínico. Representa, na maioria das vezes, ressalta-se, apenas mecanismo hemodinâmico, e não insulto renal propriamente dito.
O desafio terapêutico reside também na titulação das doses das terapias indicadas por guideline para IC na presença da DRC em decorrência do risco de elevação da creatinina e desenvolvimento de hipotensão arterial sintomática e hipercalemia. Nesse contexto, a European Society of Cardiology (ESC) recomenda a suspensão dos antagonistas do sistema renina-angiotensina-aldosterona somente se elevação da creatinina > 50%, creatinina > 3 mg/dL, TFG < 25 mL/min/1,73m² SC ou hipercalemia grave ou persistente, que não pode ser mitigada com o emprego de resinas (ciclossilicato de zircônio ou patiromer).
Na DRC avançada em terapia renal substitutiva ou transplante renal, os dados da segurança e eficácia das terapias dedicadas à IC são escassos.
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Terapia |
Elegibilidade renal |
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iSGLT2 |
TFGe > 20 mL/min/1,73m² |
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Finerenona |
TFGe > 25 mL/min/1,73m² UA-UC > 30 mg/g Potássio < 5 mEq/L |
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Espironolactona |
Cr < 2,5 mg/DL, TFG > 30 mL/min/1,73m² Potássio < 5 mEq/L |
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Análogos de GLP-1 |
DM2, TFG ≥ 25 mL/min/1,73m² e UA-UC |
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ARNI |
TFG > 30 mL/min/m² (abaixo desses valores, doses iniciais mais baixas e titulação cuidadosa) Potássio < 5 mEq/L |
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IECA/BRA |
DRC, albuminúria moderada a intensa, com manutenção mesmo que a TFG < 30 mL/min Potássio < 5 mEq/L |
Manejo da congestão
Em relação ao manejo da congestão, diuréticos continuam sendo fundamentais para alívio sintomático e controle do volume, embora não apresentem impacto sobre a mortalidade. Estratégias modernas incluem bloqueio sequencial do néfron (furosemida + hidroclorotiazida + espironolactona), combinação de diuréticos e monitorização da resposta por meio de parâmetros como diurese (alvo > 100-150 mL/h), sódio urinário (alvo > 50-70 mEq/L) e níveis de peptídeos natriuréticos.
A diálise peritoneal é um reduto interessante na hipervolemia refratária, pois dispensa o acesso vascular, reduz o risco de bacteremia e preserva a função renal residual. Ademais, permite controle volêmico mais consistente, sem imposição de insulto hemodinâmico significativo.
Conclusão e Mensagens práticas
- A insuficiência cardíaca (IC) e doença renal crônica (DRC) devem ser compreendidas como manifestações interdependentes.
- Pequenas elevações da creatinina após início de terapias cardiovasculares e nefroprotetoras não devem ser interpretadas isoladamente como lesão renal.
- Peptídeos natriuréticos são úteis na comorbidade cardiorrenal, mas exigem interpretação contextual.
- A terapia modificadora de doença, especialmente com iSGLT2, bloqueadores do sistema renina-angiotensina-aldosterona e antagonistas mineralocorticoides, deve ser mantida sempre que possível, com monitorização clínica cuidadosa.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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