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Clínica Médica6 agosto 2026

Infigratinibe oral aumenta crescimento em crianças com acondroplasia

Estudo de fase 3 mostra que o infigratinibe oral aumenta a velocidade de crescimento em crianças com acondroplasia, com segurança favorável.

A acondroplasia é a forma mais frequente de nanismo desproporcional e resulta, na maioria dos casos, de uma mutação ativadora no gene FGFR3, responsável por inibir o crescimento ósseo endocondral. Além da baixa estatura, a doença está ligada a diversas complicações clínicas, como estenose do forame magno, estenose do canal vertebral, apneia obstrutiva do sono, infecções recorrentes de vias aéreas superiores, deformidades ortopédicas e limitação funcional ao longo da vida. Nos últimos anos, terapias direcionadas à via molecular do FGFR3 vêm modificando o cenário terapêutico da doença, com o objetivo não apenas de aumentar a velocidade de crescimento, mas também de melhorar a qualidade de vida e reduzir complicações relacionadas ao desenvolvimento esquelético. 

Objetivo do estudo 

Um estudo internacional de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine avaliou a eficácia e a segurança do infigratinibe oral em crianças com acondroplasia. O medicamento é um inibidor seletivo do receptor FGFR3 e busca atuar diretamente sobre o principal mecanismo fisiopatológico responsável pela doença.  

Como o estudo foi realizado 

Trata-se de um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Foram incluídas crianças entre 3 e 17 anos de idade com diagnóstico molecular confirmado de acondroplasia. 

Os participantes foram randomizados para receber infigratinibe oral ou placebo durante o período do estudo. O desfecho primário foi a alteração da velocidade anualizada de crescimento. Também foram avaliados parâmetros de segurança, ocorrência de eventos adversos, alterações laboratoriais e outros desfechos relacionados ao crescimento esquelético.  

Principais resultados 

O tratamento com infigratinibe promoveu aumento significativo da velocidade anual de crescimento em comparação ao placebo, atingindo o desfecho primário do estudo. 

Além do benefício sobre o crescimento linear, os resultados demonstraram perfil de segurança considerado favorável durante o período de acompanhamento. A maioria dos eventos adversos foi classificada como leve ou moderada, sem identificação de novos sinais relevantes de toxicidade. 

Os achados reforçam que o bloqueio seletivo do FGFR3 consegue restaurar parcialmente o crescimento ósseo comprometido pela mutação genética característica da acondroplasia.  

Análises dos pesquisadores 

Os autores destacam que o estudo representa uma importante validação clínica da estratégia de inibição farmacológica do FGFR3. 

Diferentemente das abordagens que atuam em vias regulatórias indiretas, o infigratinibe interfere diretamente no receptor cuja hiperatividade causa a doença. Essa estratégia pode ampliar as opções terapêuticas disponíveis para crianças com acondroplasia, especialmente considerando a possibilidade de administração por via oral. 

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que ainda será necessário acompanhamento em longo prazo para determinar se o aumento da velocidade de crescimento se traduz em benefícios permanentes sobre estatura final, função motora, necessidade de cirurgias ortopédicas e redução das complicações neurológicas e respiratórias da doença.  

Impacto clínico 

Os resultados representam um avanço importante no tratamento da acondroplasia. Embora o aumento da velocidade de crescimento seja um desfecho relevante, o potencial impacto clínico vai além da estatura. 

Se os benefícios forem mantidos em estudos de longo prazo, a terapia poderá contribuir para melhorar mobilidade, independência funcional, desenvolvimento físico e qualidade de vida, além de possivelmente reduzir complicações associadas ao crescimento ósseo anormal. 

Outro aspecto de destaque é a administração por via oral, que pode representar uma alternativa mais conveniente para pacientes pediátricos quando comparada a tratamentos injetáveis, favorecendo adesão ao tratamento. 

É possível identificar a acondroplasia ainda durante a gestação e iniciar o tratamento? 

Em muitos casos, a acondroplasia pode ser suspeitada ainda durante o pré-natal por meio da ultrassonografia obstétrica, especialmente a partir do segundo semestre da gestação, quando se observa encurtamento progressivo dos ossos longos, como fêmur e úmero, além de outros achados sugestivos de displasia esquelética. Apesar disso, ainda não existe tratamento aprovado para ser iniciado durante a gestação. O infigratinibe avaliado neste estudo foi administrado apenas em crianças após o nascimento. Embora pesquisas pré-clínicas em modelos animais tenham demonstrado resultados promissores com o uso intrauterino de inibidores do FGFR3, essa estratégia permanece experimental e ainda não há estudos clínicos que comprovem segurança e eficácia em gestantes. 

Existe teste genético que possa confirmar o diagnóstico durante a gravidez? 

Sim. Quando há suspeita de acondroplasia no exame ultrassonográfico ou histórico familiar da doença, o diagnóstico pode ser confirmado por testes genéticos pré-natais. A identificação da mutação no gene FGFR3 pode ser realizada por meio da análise do DNA fetal obtido por procedimentos invasivos, como a biópsia de vilo coriônico, geralmente realizada entre 10 e 13 semanas de gestação, ou pela amniocentese, indicada a partir da 15ª semana. Em centros especializados, tambéé possível utilizar testes pré-natais não invasivos baseados em DNA fetal livre circulante para pesquisa direcionada da mutação, embora essa estratégia ainda não esteja amplamente disponível para todos os casos. A confirmação molecular é fundamental para o aconselhamento genético da família e poderá, no futuro, permitir a seleção precoce de candidatos a terapias modificadoras da doença caso tratamentos fetais sejam aprovados. 

Conclusão 

O estudo de fase 3 demonstra que o infigratinibe oral aumenta significativamente a velocidade anualizada de crescimento em crianças com acondroplasia, mantendo um perfil de segurança considerado favorável durante o acompanhamento. Os resultados consolidam a inibição do FGFR3 como uma estratégia terapêutica promissora e reforçam a perspectiva de uma nova opção de tratamento modificador da doença, embora sejam necessários dados de seguimento prolongado para confirmar seu impacto sobre desfechos funcionais e complicações clínicas. 

Autoria

Foto de Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.

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