A infecção pelo Helicobacter pylori, bactéria gram-negativa, é um dos principais fatores de risco para gastrite crônica, úlcera péptica e adenocarcinoma gástrico. Em 2024, o American College of Gastroenterology (ACG) publicou uma atualização de suas diretrizes terapêuticas, considerando o impacto crescente da resistência antimicrobiana, especialmente à claritromicina e ao levofloxacino, além de novas opções terapêuticas, como os bloqueadores competitivos do potássio (PCABs).
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Como as diretrizes do ACG orientam a terapia inicial?
Nas novas diretrizes do ACG, a terapia quádrupla foi consolidada como primeira linha para pacientes virgens de tratamento. O esquema inclui inibidor de bomba protônica (IBP) em dose padrão duas vezes ao dia, bismuto, tetraciclina e metronidazol.
A recomendação foi embasada por uma metanálise em rede com mais de 20 mil pacientes, que demonstrou superioridade desse esquema em relação ao esquema triplo clássico, composto por IBP, amoxicilina e claritromicina. As taxas de erradicação foram de 81,3% e 75,7%, respectivamente.
Taxas de erradicação favorecem terapia quádrupla com bismuto
Entre as alternativas emergentes, a vonoprazana ganhou destaque. O PCAB apresenta supressão ácida mais potente e rápida que os IBPs tradicionais, favorecendo a ação antibiótica. Assim, a terapia dupla com vonoprazana e amoxicilina, ou a terapia tripla com vonoprazana, amoxicilina e claritromicina, despontam como opções, especialmente diante da indisponibilidade do bismuto, com taxas de erradicação próximas a 80%.
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Escolha esquemas de resgate conforme falha terapêutica
Outro ponto importante é o manejo da falha terapêutica. As diretrizes enfatizam que o esquema de resgate deve ser guiado pelo tratamento prévio.
Quando há falha com a terapia tripla baseada em IBP, a indicação é utilizar terapia contendo bismuto. Quando há falha com terapia contendo bismuto, a recomendação é empregar terapia tripla com rifabutina, descrita no texto como opção com melhor perfil de tolerância e maior adesão em comparação ao esquema anterior.
Se o tratamento termina, a confirmação de erradicação deve ser planejada
As diretrizes reforçam a importância da confirmação de erradicação terapêutica pelo menos 4 semanas após o término do tratamento. Os métodos preferenciais são o teste respiratório de ureia ou a pesquisa de antígeno fecal, por serem menos invasivos que a repetição da endoscopia digestiva alta com biópsias gástricas.
Saiba mais: H. pylori: Tratamento empírico vs. guiado.
Resistência antimicrobiana muda a mensagem prática para o médico
Regimes terapêuticos para infecção pelo Helicobacter pylori:
| Opção | Drogas e doses |
|---|---|
| Bismuto | IBP em dose padrão 12/12h + subcitrato de bismuto 120–300 mg ou subsalicilato de bismuto 300 mg 6/6h + tetraciclina 500 mg 6/6h + metronidazol 500 mg 6/6h ou 8/8h por 14 dias |
| Tripla com rifabutina | Omeprazol 40 mg 12/12h + amoxicilina 1 g 12/12h + rifabutina 50 mg 8/8h por 14 dias |
| Dupla com PCAB | Vonoprazana 20 mg 12/12h + amoxicilina 1 g 8/8h por 14 dias |
| Tripla com PCAB | Vonoprazana 20 mg 12/12h + claritromicina 500 mg 12/12h + amoxicilina 1 g 12/12h por 14 dias |
| Tripla com IBP | IBP 12/12h + claritromicina 500 mg 12/12h + amoxicilina 1 g 12/12h por 14 dias |
Não há uma sugestão específica de IBP para a erradicação do H. pylori, embora esomeprazol e rabeprazol, assim como os PCABs, não estejam sujeitos aos genótipos de metabolizadores ultrarrápidos do CYP2C19.
Mensagem prática
A terapia quádrupla com bismuto por 14 dias se consolidou como primeira opção terapêutica; esquemas empíricos com claritromicina têm perdido espaço devido à resistência antimicrobiana crescente; a vonoprazana desponta como alternativa em cenários selecionados; o tratamento de resgate deve considerar a exposição antibiótica prévia; e o teste de erradicação é obrigatório após o tratamento. No Brasil, conforme prévia do novo Consenso Brasileiro sobre a infecção por H. pylori, apresentada pelo Dr. Luiz Vaz Gonzaga na SBAD de 2025, a tendência é acompanhar as recomendações norte-americanas.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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