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Clínica Médica24 março 2026

Esquistossomose Humana: Panorama Atual

Esquistossomose mansônica: revisão atual aborda fisiopatologia, diagnóstico e manejo, destacando risco de hipertensão portal e importância do tratamento precoce.
Por Leandro Lima

esquistossomose é uma doença tropical, negligenciada e causada por trematódeos do gênero Schistosoma, sendo o S. mansoni a espécie mais prevalente no Brasil.  

A infecção humana decorre da penetração da pele por cercárias provenientes de caramujos de água doce: o Biomphalaria 

Ao contrário do que se possa imaginar, é a retenção tecidual dos ovos, e não a presença de vermes adultos em circulação, o principal mediador da patogênese, por meio da indução de resposta granulomatosa crônica e fibrose progressiva. 

A Dra. Teresa Cristina de Abreu Ferrari, ilustre médica e pesquisadora da UFMG, foi a representante brasileira de uma brilhante revisão, publicada no periódico Lancet 

Epidemiologia 

Globalmente, cerca de 1 bilhão de pessoas estão em risco de desenvolvimento de esquistossomose e aproximadamente 250 milhões estão infectadas. A América Latina permanece uma área endêmica relevante, sobretudo para S. mansoni. 

No contexto brasileiro, a esquistossomose mansônica é tipicamente intestinal e hepatointestinal, atrelada à deposição de ovos no plexo mesentérico e nos espaços periportais hepáticos. Em menor grau, observam-se os casos de mielorradiculopatia esquistossomótica.  

A carga parasitária, duração da infecção e fatores imunogenéticos modulam a gravidade da doença, explicando por que parte dos indivíduos permanece assintomática enquanto outros evoluem para formas graves. 

Fisiopatologia 

A patogênese é dominada pela resposta granulomatosa aos ovos retidos nos tecidos, levando à inflamação crônica, microlesões intestinais e fibrose periportal (fibrose de Symmers).  

Em infecções crônicas, a fibrose periportal pode se desenvolver ao longo de 5–15 anos em cerca de 4–8% dos pacientes, culminando na clássica forma hepatoesplênica com hipertensão portal, esplenomegalia, hiperesplenismo e varizes esofagogástricas, frequentemente com função hepatocelular preservada. 

Manifestações clínicas 

A esquistossomose mansônica pode ser dividida em fases: 

  • Dermatite cercariana (penetração cutânea nas “lagoas de coceira”, geralmente expressa sob a forma de rash urticariforme pruriginosos em membros inferiores); 
  • Fase aguda (síndrome de Katayama, 2–12 semanas pós-exposição, é uma reação de hipersensibilidade semelhante à síndrome de Loeffler e caracterizada por febre, tosse seca, diarreia, dor abdominal, fadiga, mialgia, linfadenopatia, elevação das enzimas hepáticas e eosinofilia – o tratamento consiste em corticoides, seguidos pelo praziquantel); 
  • Forma crônica intestinal (dor abdominal e diarreia que pode ser sanguinolenta); 
  • Forma hepatointestinal/hepatoesplênica (hepatomegalia, fibrose periportal e hipertensão portal pré-sinusoidal). 

As complicações da hipertensão portal incluem a hemorragia digestiva alta por varizes, esplenomegalia maciça/hiperesplenismo e encefalopatia hepática. A disfunção sintética hepática (icterícia, coagulopatia e ascite), entretanto, é incomum. 

Diagnóstico e tratamento 

O diagnóstico convencional se baseia na detecção de ovos em fezes (método de Kato-Katz), com sensibilidade limitada em cargas parasitárias baixas, sendo complementado por testes imunológicos (CCA/CAA).  

Um método muito prático é o oograma, obtido por amostras de fragmentos da mucosa retal. Por meio de retossigmoidoscopia (rígida ou flexível), a retoscopia é realizada e amostras das válvulas de Houston são coletadas por meio de pinças. O resultado é imediato a partir da análise microscópica de fragmentos de tecido prensados entre a lâmina e a lamínula, dispensando qualquer coloração. A imagem abaixo ilustra o oograma, tratando-se de uma recordação carinhosa de um exame realizado sob orientação do saudoso mestre Dr. Aloísio Sales da Cunha, professor emérito e ex-diretor da faculdade de medicina da UFMG.  

O praziquantel (40 mg/kg em dose única) permanece como tratamento de primeira linha e é amplamente utilizado em estratégias de quimioterapia preventiva em áreas endêmicas. O sucesso terapêutico, contudo, é de 76,7%. O oxaminiquine é considerado tratamento alternativo diante de intolerância ao praziquantel. 

Os betabloqueadores, como propranolol e carvedilol, são utilizados na profilaxia de hemorragia digestiva alta varicosa, à semelhança de outras etiologias de hipertensão portal, em combinação aos métodos de hemostasia endoscópicos e radiointervencionistas, aplicados sobretudo com o intuito de profilaxia secundária. 

Conclusão e Mensagens Práticas 

  • Em regiões endêmicas brasileiras, todo paciente com esplenomegalia, plaquetopenia e sinais de hipertensão portal, especialmente se função hepática relativamente preservada, deve ser considerado de forte suspeita para esquistossomose mansônica.  
  • O diagnóstico precoce e o tratamento oportuno reduzem progressão da fibrose periportal e impacto na morbidade, além de possuir relevância em saúde pública pela redução da eliminação de ovos no ambiente.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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Referências bibliográficas

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