A esquistossomose é uma doença tropical, negligenciada e causada por trematódeos do gênero Schistosoma, sendo o S. mansoni a espécie mais prevalente no Brasil.
A infecção humana decorre da penetração da pele por cercárias provenientes de caramujos de água doce: o Biomphalaria.
Ao contrário do que se possa imaginar, é a retenção tecidual dos ovos, e não a presença de vermes adultos em circulação, o principal mediador da patogênese, por meio da indução de resposta granulomatosa crônica e fibrose progressiva.
A Dra. Teresa Cristina de Abreu Ferrari, ilustre médica e pesquisadora da UFMG, foi a representante brasileira de uma brilhante revisão, publicada no periódico Lancet.
Epidemiologia
Globalmente, cerca de 1 bilhão de pessoas estão em risco de desenvolvimento de esquistossomose e aproximadamente 250 milhões estão infectadas. A América Latina permanece uma área endêmica relevante, sobretudo para S. mansoni.
No contexto brasileiro, a esquistossomose mansônica é tipicamente intestinal e hepatointestinal, atrelada à deposição de ovos no plexo mesentérico e nos espaços periportais hepáticos. Em menor grau, observam-se os casos de mielorradiculopatia esquistossomótica.
A carga parasitária, duração da infecção e fatores imunogenéticos modulam a gravidade da doença, explicando por que parte dos indivíduos permanece assintomática enquanto outros evoluem para formas graves.
Fisiopatologia
A patogênese é dominada pela resposta granulomatosa aos ovos retidos nos tecidos, levando à inflamação crônica, microlesões intestinais e fibrose periportal (fibrose de Symmers).
Em infecções crônicas, a fibrose periportal pode se desenvolver ao longo de 5–15 anos em cerca de 4–8% dos pacientes, culminando na clássica forma hepatoesplênica com hipertensão portal, esplenomegalia, hiperesplenismo e varizes esofagogástricas, frequentemente com função hepatocelular preservada.
Manifestações clínicas
A esquistossomose mansônica pode ser dividida em fases:
- Dermatite cercariana (penetração cutânea nas “lagoas de coceira”, geralmente expressa sob a forma de rash urticariforme pruriginosos em membros inferiores);
- Fase aguda (síndrome de Katayama, 2–12 semanas pós-exposição, é uma reação de hipersensibilidade semelhante à síndrome de Loeffler e caracterizada por febre, tosse seca, diarreia, dor abdominal, fadiga, mialgia, linfadenopatia, elevação das enzimas hepáticas e eosinofilia – o tratamento consiste em corticoides, seguidos pelo praziquantel);
- Forma crônica intestinal (dor abdominal e diarreia que pode ser sanguinolenta);
- Forma hepatointestinal/hepatoesplênica (hepatomegalia, fibrose periportal e hipertensão portal pré-sinusoidal).
As complicações da hipertensão portal incluem a hemorragia digestiva alta por varizes, esplenomegalia maciça/hiperesplenismo e encefalopatia hepática. A disfunção sintética hepática (icterícia, coagulopatia e ascite), entretanto, é incomum.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico convencional se baseia na detecção de ovos em fezes (método de Kato-Katz), com sensibilidade limitada em cargas parasitárias baixas, sendo complementado por testes imunológicos (CCA/CAA).
Um método muito prático é o oograma, obtido por amostras de fragmentos da mucosa retal. Por meio de retossigmoidoscopia (rígida ou flexível), a retoscopia é realizada e amostras das válvulas de Houston são coletadas por meio de pinças. O resultado é imediato a partir da análise microscópica de fragmentos de tecido prensados entre a lâmina e a lamínula, dispensando qualquer coloração. A imagem abaixo ilustra o oograma, tratando-se de uma recordação carinhosa de um exame realizado sob orientação do saudoso mestre Dr. Aloísio Sales da Cunha, professor emérito e ex-diretor da faculdade de medicina da UFMG.
O praziquantel (40 mg/kg em dose única) permanece como tratamento de primeira linha e é amplamente utilizado em estratégias de quimioterapia preventiva em áreas endêmicas. O sucesso terapêutico, contudo, é de 76,7%. O oxaminiquine é considerado tratamento alternativo diante de intolerância ao praziquantel.
Os betabloqueadores, como propranolol e carvedilol, são utilizados na profilaxia de hemorragia digestiva alta varicosa, à semelhança de outras etiologias de hipertensão portal, em combinação aos métodos de hemostasia endoscópicos e radiointervencionistas, aplicados sobretudo com o intuito de profilaxia secundária.

Conclusão e Mensagens Práticas
- Em regiões endêmicas brasileiras, todo paciente com esplenomegalia, plaquetopenia e sinais de hipertensão portal, especialmente se função hepática relativamente preservada, deve ser considerado de forte suspeita para esquistossomose mansônica.
- O diagnóstico precoce e o tratamento oportuno reduzem progressão da fibrose periportal e impacto na morbidade, além de possuir relevância em saúde pública pela redução da eliminação de ovos no ambiente.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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