A prática em cuidados paliativos exige, antes de qualquer intervenção terapêutica, a capacidade de reconhecer e mensurar o sofrimento do paciente de forma sistemática. Em um cenário caracterizado por múltiplos sintomas simultâneos, a ausência de ferramentas estruturadas pode levar a falhas importantes no cuidado.
A Escala de Edmonton para Avaliação de Sintomas (Edmonton Symptom Assessment System – ESAS) surgiu justamente para preencher essa lacuna. Trata-se de um instrumento simples, de rápida aplicação e centrado na percepção do paciente, que permite quantificar a intensidade dos sintomas e acompanhar sua evolução.
Ao longo das últimas décadas, a ESAS deixou de ser apenas uma ferramenta de registro para se consolidar como um elemento ativo no manejo clínico. Estudos recentes demonstram que sua utilização sistemática está associada não apenas à melhor identificação de sintomas, mas também à redução de sua intensidade, melhora da qualidade de vida e otimização do uso de recursos de saúde.

Descrição da Escala de Edmonton
A ESAS foi desenvolvida por Bruera et al., em 1991, com o objetivo de padronizar a avaliação de sintomas em pacientes em cuidados paliativos, inicialmente no contexto oncológico.
A escala baseia-se no autorrelato do paciente e avalia a intensidade dos sintomas nas últimas 24 horas, utilizando uma escala numérica de 0 a 10. Os sintomas clássicos incluem:
– Dor
– Fadiga
– Náusea
– Depressão
– Ansiedade
– Sonolência
– Apetite
– Sensação de bem-estar
– Dispneia
Versões modificadas da escala incorporam outros sintomas relevantes, como distúrbios do sono e constipação, além de um campo aberto para sintomas adicionais individualizados. O paciente é questionado e dá uma nota que varia de zero a dez em cada um dos sintomas, seguindo a seguinte interpretação:
– 0: ausência do sintoma
– 1–3: leve
– 4–6: moderado
– 7–10: grave
A análise individual dos sintomas é fundamental para orientar intervenções específicas.
A sintomatologia observada
Os sintomas avaliados pela ESAS refletem processos fisiopatológicos complexos e frequentemente interdependentes. A dor, por exemplo, pode ter componentes nociceptivos, neuropáticos ou mistos, sendo frequentemente relacionada à invasão tumoral, inflamação ou efeitos adversos do tratamento. Já a fadiga — um dos sintomas mais prevalentes — apresenta caráter multifatorial, envolvendo citocinas inflamatórias (como IL-6 e TNF-alfa), alterações metabólicas, anemia e descondicionamento físico.
A dispneia, resulta de mecanismos que vão desde alterações ventilatórias até componentes centrais e emocionais, enquanto a náusea pode ser mediada por estímulos centrais (zona gatilho quimiorreceptora), disfunção gastrointestinal ou efeito adversos de medicamentos.
Os sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão, envolvem alterações neuroquímicas e fatores existenciais profundos, frequentemente exacerbados pelo contexto de doença avançada.
Essa complexidade reforça a importância de uma abordagem integrada, na qual a ESAS se destaca por permitir a avaliação simultânea de múltiplos domínios do sofrimento.
Evidência científica: análise do estudo original
O estudo original de Bruera et al. (1991) foi pioneiro ao demonstrar a viabilidade da ESAS na prática clínica. A escala apresentou alta aceitação pelos pacientes, com taxa superior a 90%, e tempo médio de aplicação inferior a cinco minutos.
Os dados iniciais já evidenciaram uma elevada carga sintomática:
– Fadiga: aproximadamente 80%
– Dor: cerca de 60%
– Ansiedade/depressão: entre 40% e 50%
– Dispneia: cerca de 30%
Além disso, a escala mostrou boa correlação com a avaliação clínica global, validando seu uso como ferramenta de monitoramento.
Evidências recentes da Escala ESAS
Nos últimos anos, a literatura reforçou de maneira consistente o papel da ESAS como instrumento capaz de impactar diretamente os desfechos clínicos. Entre os estudos mais recentes, destacam-se as análises de Watanabe et al. (2022) e Ospina et al. (2023), que exploram diferentes dimensões da aplicação da escala.
O estudo de Watanabe et al. (2022) avaliou a utilização da ESAS em pacientes com doenças avançadas em um modelo de cuidados paliativos precoces. Os autores observaram elevada prevalência de sintomas no momento inicial da avaliação, com fadiga presente em 75% dos pacientes, dor em 68%, ansiedade em 50% e dispneia em 38%.
A aplicação sistemática da escala permitiu identificar precocemente sintomas em 85% dos pacientes, o que se traduziu em intervenções mais oportunas. Como consequência, houve melhora significativa dos desfechos clínicos, com redução média da dor de 6,8 para 3,9 (queda de aproximadamente 42%), diminuição da dispneia em cerca de 35% e redução dos sintomas depressivos em torno de 28%.
Já o estudo de Ospina et al. (2023) avaliou a integração da ESAS a plataformas digitais de monitoramento remoto. Nesse contexto, a adesão à avaliação sintomática atingiu 94%, evidenciando maior engajamento dos pacientes.
Além disso, foram observados impactos relevantes nos desfechos assistenciais, incluindo redução de 27% nas internações não planejadas e melhora da comunicação entre pacientes e equipes de saúde em aproximadamente 63% dos casos. O monitoramento contínuo também permitiu detecção mais precoce de deterioração clínica.
A análise conjunta desses estudos evidencia que, embora a carga sintomática permaneça elevada, a utilização estruturada da ESAS modifica de maneira significativa a trajetória clínica dos pacientes, tanto no controle de sintomas quanto na organização do cuidado.
Mensagens para casa
– A ESAS é uma ferramenta simples, rápida e altamente eficaz para avaliação de sintomas em cuidados paliativos
– O uso sistemático da escala permite identificar precocemente sintomas em até 85% dos pacientes
– Intervenções guiadas pela ESAS reduzem a intensidade dos sintomas em até 40%
– A integração com tecnologias digitais aumenta adesão e reduz internações em cerca de 27%
– A avaliação contínua dos sintomas melhora a comunicação e a qualidade do cuidado
– Medir sintomas de forma estruturada é, por si só, uma intervenção clínica relevante
Autoria

Lavínia Barcellos
Médica formada pela Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - FCMS/JF. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Central da Polícia Militar do Rio de Janeiro - HCPM/RJ. Pós-graduanda em Cuidados Paliativos pelo Américas/Afya - RJ.
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