A insuficiência pancreática exócrina (IPE) exige a integração entre a exposição a fatores de risco, sintomatologia compatível, achados radiológicos característicos e marcadores laboratoriais sugestivos de síndrome malabsortiva, e geralmente só se estabelece quando a função residual exócrina do órgão declina para menos de 10%.
Indicações
Nos casos suspeitos de IPE, a dosagem de elastase fecal-1 ocupa protagonismo por ser simples, não invasiva e acessível. Entretanto, a ferramenta deve ser reservada para cenários de probabilidade pré-teste elevada:
- Histórico de pancreatite crônica, pancreatite aguda, câncer de pâncreas, fibrose cística ou cirurgia pancreática;
- Síndrome malabsortiva incluindo esteatorreia, emagrecimento não intencional, sarcopenia, deficiência de vitaminas lipossolúveis e osteoporose;
- Alterações estruturais em exames de imagem: atrofia, calcificações ou massas pancreáticas, bem como dilatações ductais.
Por outro lado, a elastase fecal não deve ser utilizada como exame de rastreamento indiscriminado em pacientes com diarreia crônica inespecífica. Quando aplicada em populações de baixa prevalência de IPE, a taxa de resultados falso-positivos aumenta substancialmente.
Cuidados
A qualidade da amostra é outro aspecto crítico. A dosagem deve ser realizada em fezes formadas ou semiformadas, pois amostras líquidas/aquosas podem diluir a concentração da elastase e gerar resultados artificialmente baixos, simulando IPE.
Ao contrário do observado com a dosagem de gordura fecal, a reposição enzimática não interfere na dosagem da elastase fecal, de modo que não há necessidade de suspender a pancreatina antes da coleta.
Interpretação
Um guia para interpretação da elastase fecal-1:
- > 200 µg/g: IPE clinicamente significativa é improvável;
- 100-200 µg/g: zona cinzenta;
- < 100 µg/g: probabilidade substancial de IPE verdadeira.
De todo modo, nenhum ponto de corte deve ser interpretado isoladamente, pois valores baixos podem ser encontrados em idosos, diabéticos e celíacos, bem como portadores de supercrescimento bacteriano do intestino delgado, doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino curto ou síndrome do intestino irritável.
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Ponto de corte |
Sensibilidade |
Especificidade |
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< 200 µg/g |
94% |
69% |
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< 100 µg/g |
88% |
82% |
Mensagens práticas
- A elastase fecal é atualmente o exame inicial mais útil para avaliação da função exócrina pancreática, desde que aplicada em pacientes com contexto clínico apropriado. Valores reduzidos, portanto, não equivalem automaticamente ao diagnóstico automático de insuficiência pancreática exócrina.
Autoria

Leandro Lima
Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.
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