Uma nova diretriz visual do American College of Physicians (ACP), lançada em junho, aborda o manejo de adultos não grávidos com obesidade e sobrepeso e, se analisado de forma superficial, pode induzir a um erro. Ao apresentar quatro linhas de tratamento farmacológico para obesidade, é natural imaginar uma sequência rígida: começa-se pela primeira, avança-se para a segunda apenas após falha, depois para a terceira e assim sucessivamente. Não é isso que a diretriz propõe.
As linhas representam uma hierarquia de evidência e benefício clínico, não uma escada terapêutica obrigatória. A principal mudança não está apenas em indicar novos medicamentos, mas em abandonar a ideia de que todos ocupam o mesmo lugar na prática clínica. Escolher um tratamento deixa de ser um exercício de preferência individual e passa a refletir a qualidade das evidências disponíveis, o perfil do paciente e os objetivos terapêuticos.
Nem todos os medicamentos oferecem o mesmo nível de evidência
Para adultos não gestantes com obesidade (IMC ≥30 kg/m²), a diretriz recomenda associar farmacoterapia às intervenções sobre estilo de vida. Entretanto, as opções disponíveis não recebem o mesmo peso.
Semaglutida e tirzepatida ocupam a primeira linha por reunirem evidências de qualidade moderada e demonstrarem os maiores benefícios em perda ponderal e desfechos cardiometabólicos. Em seguida aparecem fentermina-topiramato, liraglutida e naltrexona-bupropiona, todas sustentadas por evidências de menor qualidade e com recomendações mais fracas.
Essa diferença é mais importante do que parece. Não significa que os medicamentos das linhas seguintes sejam inadequados. Significa que a confiança nos benefícios esperados é diferente. A diretriz, portanto, organiza uma hierarquia de evidências e não uma lista de opções equivalentes.
A hierarquia organiza a evidência, não impõe uma sequência terapêutica
Outro erro frequente é acreditar que todo paciente deve obrigatoriamente iniciar pela primeira linha e migrar para as demais apenas após insucesso.
Na realidade, a escolha continua sendo individualizada. Comorbidades, contraindicações, perfil de segurança, custo, disponibilidade, acesso ao tratamento, expectativa de vida e preferências do paciente permanecem determinantes na decisão clínica.
Um paciente com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular tende a se beneficiar mais de um agonista do receptor de GLP-1 ou de um agonista duplo GIP/GLP-1. Outro, com contraindicação, intolerância ou impossibilidade de acesso a essas medicações, pode ser adequadamente tratado com outra opção farmacológica sem que isso represente uma falha terapêutica.
Em outras palavras, a diretriz não exige que todos percorram as quatro linhas. Ela fornece uma estrutura para que a escolha seja feita de forma racional e baseada em evidências.
Quando custo e acesso mudam a decisão
A principal barreira para utilização dos medicamentos de primeira linha continua sendo o acesso.
Em muitos cenários, o custo faz com que opções orais sejam consideradas antes de semaglutida ou tirzepatida. Essa decisão pode ser perfeitamente justificável, desde que seja tomada de forma consciente e compartilhada.
Quando custo ou disponibilidade obrigam a optar por um medicamento sustentado por evidência menos robusta, médico e paciente precisam compreender claramente o equilíbrio entre benefício esperado, qualidade da evidência e viabilidade prática. A escolha continua sendo legítima. O que não deve acontecer é substituir uma recomendação baseada em melhor evidência sem que essa decisão seja discutida de forma transparente.
A diretriz incorpora esse raciocínio ao recomendar que benefícios, eventos adversos, custo, acesso, comorbidades e preferências individuais façam parte da conversa antes mesmo da primeira prescrição.
Obesidade continua sendo uma doença crônica
Outro ponto frequentemente negligenciado é a expectativa criada em torno da duração do tratamento.
Ainda existe a percepção de que a farmacoterapia representa uma intervenção temporária, encerrada assim que o paciente alcança determinada meta de peso. A diretriz reforça uma visão diferente.
A obesidade permanece uma doença crônica. Em muitos pacientes, interromper a medicação resulta em recuperação parcial ou completa do peso perdido. Como acontece em outras doenças crônicas, suspender o tratamento frequentemente significa perder parte do benefício conquistado.
Essa informação precisa ser discutida desde o início. Prescrever um medicamento sem abordar a possibilidade de tratamento prolongado aumenta a chance de frustração, abandono terapêutico e reganho ponderal.
Perder peso não basta
Outro aspecto valorizado pela diretriz é que o sucesso do tratamento não deve ser medido exclusivamente pela balança.
A perda ponderal pode ser acompanhada de redução de massa muscular e diminuição da densidade mineral óssea, especialmente em pacientes idosos ou mais vulneráveis à fragilidade. Por isso, o acompanhamento deve incluir orientação nutricional adequada, incentivo ao treinamento resistido e estratégias para preservar função física durante o emagrecimento.
Da mesma forma, intervenções sobre alimentação, atividade física e comportamento permanecem parte essencial do tratamento. A farmacoterapia potencializa essas medidas, mas não as substitui. O controle da obesidade continua dependendo de uma abordagem integrada e longitudinal.
O que realmente muda na prática?
A principal contribuição da diretriz do ACP não foi criar uma nova escada terapêutica, mas organizar a escolha do tratamento farmacológico de acordo com a qualidade das evidências disponíveis.
A escolha do medicamento deixa de ser guiada apenas pela magnitude da perda de peso e passa a incorporar qualidade da evidência, perfil clínico, segurança, acesso, custo e objetivos do paciente. Semaglutida e tirzepatida ocupam a primeira linha porque hoje concentram o melhor conjunto de evidências, não porque todos os pacientes devam obrigatoriamente iniciar por elas.
Depois desta diretriz, a pergunta mais importante já não é qual medicamento faz o paciente emagrecer mais. É qual estratégia oferece a maior probabilidade de produzir benefício clínico sustentável para aquela pessoa. Em obesidade, a melhor prescrição não é necessariamente a mais potente, mas a mais adequada ao contexto clínico do paciente. É essa mudança de lógica — mais do que a chegada de novos fármacos — que redefine a prática clínica.
Autoria

Bruno Anello Mottini Horlle
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência e Clinica Médica.
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