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Clínica Médica17 abril 2026

ACP 2026: Não é fibrilação atrial - manejo de outras arritmias comuns

Diferencie TRNAV, TV idiopática e bloqueio AV e evite erros críticos no manejo de arritmias.

Palpitações, pré-síncope e intolerância ao esforço não são sinônimos de fibrilação atrial. Na sessão It’s Not AFib: Management of Other Common Arrhythmias, apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, o foco esteve no reconhecimento e manejo de arritmias frequentemente confundidas com FA, como TRNAV, taquicardias ventriculares idiopáticas e bloqueios atrioventriculares avançados. Nesses casos, o diagnóstico correto muda completamente a conduta.

Por que isso importa

A fibrilação atrial costuma dominar o raciocínio clínico diante de sintomas arrítmicos, mas uma parcela relevante dos pacientes apresenta outros diagnósticos. Confundir uma taquicardia por reentrada nodal AV com FA pode levar à anticoagulação desnecessária. Da mesma forma, subestimar extrassístoles ventriculares frequentes pode favorecer evolução para cardiomiopatia induzida por PVC. Já o não reconhecimento de um bloqueio AV avançado pode resultar em eventos graves, inclusive morte súbita.

O ECG de 12 derivações continua sendo a principal ferramenta diagnóstica, complementado por monitorização ambulatorial e, quando necessário, ressonância cardíaca.

TRNAV: do diagnóstico ao tratamento definitivo

Um dos casos apresentados mostrou uma paciente idosa com taquicardia de QRS estreito e instabilidade hemodinâmica. O ECG trazia pseudo-R’ em V1 e pseudo-S’ nas derivações inferiores, padrão típico de TRNAV.

A reversão com manobra de Valsalva reforçou o mecanismo dependente do nó AV, mas a recorrência evidenciou a limitação das medidas não invasivas. O uso de beta-bloqueador levou à bradicardia importante, ilustrando um cenário frequente de intolerância medicamentosa. Nesse contexto, a ablação por radiofrequência da via lenta nodal foi curativa, com alta taxa de sucesso e baixo risco de complicações, consolidando-se como opção de primeira linha na TRNAV sintomática recorrente.

Taquicardia ventricular idiopática: quando não é coração estrutural

Outro caso envolveu um paciente com palpitações pós-esforço, carga de extrassístoles de 8,2% e episódios de taquicardia ventricular não sustentada. O ecocardiograma, o teste ergométrico e a ressonância cardíaca não mostraram cardiopatia estrutural.

O padrão eletrocardiográfico, com morfologia de bloqueio de ramo esquerdo e eixo inferior, sugeria origem no trato de saída do ventrículo direito, cenário clássico de taquicardia ventricular idiopática. Embora o prognóstico em geral seja favorável, cargas elevadas de extrassístoles podem levar a disfunção ventricular ao longo do tempo. O beta-bloqueador pode ser útil inicialmente, mas o tratamento definitivo costuma envolver estudo eletrofisiológico e ablação, especialmente em pacientes sintomáticos ou com carga arrítmica relevante.

Bloqueio AV total: reconhecimento e decisão rápida

A sessão também destacou uma paciente idosa com pré-síncope e intolerância ao esforço, cujo ECG evidenciava bloqueio AV completo com ritmo de escape. Após exclusão de causas reversíveis, como distúrbios eletrolíticos, fármacos bradicardizantes e infecções, o diagnóstico foi atribuído à degeneração do sistema de condução.

Nesse contexto, a indicação de marcapasso permanente é mandatória, independentemente da persistência dos sintomas. A apresentação chamou atenção para o marcapasso de sistema de condução, que permite captura distal ao bloqueio, com QRS mais estreito e melhor preservação da sincronia ventricular.

O papel da monitorização na prática

A monitorização ambulatorial estruturada foi apresentada como um dos pilares da avaliação. Registros contínuos por 7 a 14 dias ajudam não apenas a confirmar o diagnóstico, mas também a quantificar carga arrítmica, definir padrões temporais e identificar a coexistência de diferentes arritmias. Essas informações são decisivas para indicar intervenção, planejar ablação e orientar o seguimento clínico.

O que muda na prática

A sessão reforça três decisões centrais: taquicardia de QRS estreito com início e término abruptos deve levantar suspeita de TRNAV; extrassístoles ventriculares frequentes não devem ser automaticamente tratadas como benignas; e bloqueio AV total ou de alto grau exige reconhecimento imediato e não deve ser manejado de forma expectante. Em todos esses cenários, o acerto no ECG muda a trajetória do paciente.

Autoria

Foto de Bruno Anello Mottini Horlle

Bruno Anello Mottini Horlle

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência, e Clinica Médica.

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