Apresentada pela Dra. Meena B. Bansal, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, a sessão MASLD and MASH in Primary Care, no ACP Internal Medicine Meeting 2026, destacou como o clínico pode rastrear, estratificar risco e iniciar tratamento com terapias já aprovadas, com impacto direto no consultório.

Por que isso importa
A antiga NAFLD foi redefinida como MASLD, e a esteato-hepatite associada passou a ser chamada de MASH, mudança que reflete o papel central da síndrome metabólica na fisiopatologia da doença. Mais do que uma atualização de nomenclatura, essa transição acompanha uma mudança prática importante: hoje já existem tratamentos farmacológicos aprovados e ferramentas não invasivas que permitem diagnóstico e seguimento sem necessidade de biópsia na maioria dos casos.
A prevalência é alta e se concentra justamente nos grupos de maior risco. Entre pacientes com diabetes tipo 2, mais da metade apresenta MASLD, e até 40% têm MASH. Em indivíduos com obesidade, a prevalência pode chegar a 90%. Ainda assim, a principal causa de morte nesses pacientes continua sendo cardiovascular, e não hepática.
Fibrose define prognóstico e deve guiar o rastreio
O principal determinante de desfecho em MASLD é o grau de fibrose, e não a presença isolada de esteatose. Pacientes com fibrose moderada a avançada apresentam aumento significativo de mortalidade hepática ao longo do tempo.
Na prática, isso muda o objetivo do rastreamento: mais do que identificar gordura hepática, o foco deve ser reconhecer quem já evoluiu para estágios com risco clínico relevante.
Rastreamento na atenção primária: FIB-4 como primeira etapa
O FIB-4 foi apresentado como a ferramenta inicial recomendada e pode ser calculado com exames laboratoriais rotineiros. Valores baixos sugerem baixo risco e permitem seguimento na atenção primária. Valores intermediários exigem avaliação adicional, enquanto valores altos aumentam a probabilidade de fibrose avançada e justificam encaminhamento.
Essa abordagem sequencial permite estratificação eficiente sem necessidade de exames complexos para a maioria dos pacientes.
Quando avançar: elastografia e testes séricos
Nos casos indeterminados, a elastografia hepática, especialmente o FibroScan, é o método mais utilizado para avaliar rigidez hepática. O teste ELF aparece como alternativa baseada em marcadores séricos e pode ajudar tanto na exclusão quanto na confirmação de fibrose avançada, a depender do contexto clínico.
A escolha entre esses métodos deve considerar disponibilidade e cenário de aplicação.
Quem tratar: foco em MASH com fibrose F2–F3
Os estudos que levaram à aprovação das terapias farmacológicas incluíram pacientes com MASH associada a fibrose moderada a avançada, sem cirrose. Esse é o grupo com maior risco de progressão e no qual o tratamento mostrou benefício mais claro. Pacientes com cirrose devem seguir manejo em ambiente especializado.
Resmetirom e semaglutida: como escolher na prática
O resmetirom atua como agonista seletivo do receptor beta do hormônio tireoidiano, aumentando a oxidação de ácidos graxos e reduzindo lipotoxicidade hepática. No estudo de fase 3, houve resolução de MASH em cerca de 26% a 30% dos pacientes tratados, além de melhora de fibrose em aproximadamente 24% a 26% dos casos. Também foi observada redução significativa de LDL-colesterol, o que sugere benefício metabólico adicional.
A semaglutida, por sua vez, mostrou benefício importante na resolução da esteato-hepatite, com taxas próximas de 63%, contra cerca de 34% no placebo. A melhora da fibrose também foi superior, embora em menor magnitude. Seu efeito parece ocorrer principalmente por perda de peso e melhora da resistência à insulina, sendo especialmente útil em pacientes com obesidade e diabetes.
Na prática, a escolha deve ser individualizada. O resmetirom pode ser mais interessante em pacientes com dislipidemia predominante e menor carga metabólica global. Já a semaglutida tende a ser preferida em indivíduos com obesidade, diabetes tipo 2 ou alto risco cardiovascular. Nenhuma das duas terapias é indicada para cirrose.
O que muda no consultório
Pacientes com diabetes, obesidade ou síndrome metabólica devem ser avaliados de forma sistemática com FIB-4. Valores alterados devem direcionar investigação adicional com elastografia. Pacientes com fibrose significativa passam a ser candidatos a tratamento farmacológico, além de intervenção intensiva sobre fatores de risco.
Com isso, o manejo se torna mais estruturado, com estratificação de risco mais clara e decisões terapêuticas mais objetivas.
Autoria
Bruno Anello Mottini Horlle
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência, e Clinica Médica.
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