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Clínica Médica18 abril 2026

ACP 2026: manejo do choque circulatório com POCUS e triagem hemodinâmica

Como reconhecer, classificar e tratar o choque circulatório com abordagem personalizada e uso de POCUS — atualização do ACP 2026.

Em um cenário clínico familiar a qualquer plantonista — um jovem usuário de drogas intravenosas admitido com dor torácica e febre que, horas depois, evolui com colapso hemodinâmico —, o Dr. Kevin Piro, da Oregon Health & Science University, abriu sua apresentação no ACP Internal Medicine Meeting 2026 com uma pergunta direta: como distinguir rapidamente o tipo de choque e escolher a intervenção correta sem cair na armadilha do protocolo único para todos os pacientes?

A resposta, desenvolvida ao longo da sessão, aponta para uma transição já em curso. O choque deixou de ser manejado como uma condição uniforme, orientada apenas por bundles padronizados, e passa a exigir cuidado individualizado, com fenótipos distintos, metas adaptadas e uso de ferramentas à beira do leito, especialmente o POCUS.

O que é choque circulatório — e por que ele ainda mata tanto

O choque circulatório é definido como uma forma generalizada de falência circulatória aguda, associada à utilização inadequada de oxigênio pelas células. A definição permanece atual: choque não é sinônimo de hipotensão, e pressão arterial normal não exclui o diagnóstico.

Do ponto de vista epidemiológico, o choque distributivo, predominantemente séptico, responde por 62% dos casos, seguido pelo cardiogênico e pelo hipovolêmico, com 16% cada, e pelo obstrutivo, com 2%. A mortalidade global varia entre 25% e 40%, sendo ainda maior nas formas cardiogênicas e mistas.

Quatro tipos, quatro perfis — e o POCUS como organizador do raciocínio

A distinção precoce entre os tipos de choque define a terapia. O distributivo tende a cursar com extremidades quentes, febre e sudorese; o obstrutivo, com palidez, abafamento de bulhas e má perfusão; o hipovolêmico, com extremidades frias, síncope e tontura; e o cardiogênico, com dor torácica, ortopneia, turgência jugular e edema periférico.

Nesse contexto, o POCUS organiza essas diferenças de forma objetiva. Na avaliação cardíaca, o choque distributivo costuma mostrar função hiperdinâmica; o cardiogênico, disfunção sistólica importante; o obstrutivo, sinais de sobrecarga de ventrículo direito ou derrame pericárdico; e o hipovolêmico, câmaras colapsadas e hiperdinâmicas. No pulmão, B-lines bilaterais apontam para congestão cardiogênica, enquanto A-lines preservadas sugerem hipovolemia ou obstrução. A veia cava inferior e a jugular interna ajudam na estimativa da pré-carga.

Uma metanálise publicada em 2023 no Critical Care mostrou alta acurácia diagnóstica do POCUS para choque obstrutivo e distributivo. Em enfermarias, seu uso sistemático durante emergências associou-se a maior taxa de diagnóstico correto, menor tempo até tratamento e menor mortalidade intra-hospitalar.

Reconhecimento precoce: as ferramentas que o médico já tem nas mãos

A sessão também comparou os principais escores de triagem. O NEWS2 apresentou alta sensibilidade para prever admissão em UTI e mortalidade em 28 dias, ao custo de menor especificidade. Já o qSOFA mostrou maior especificidade, mas sensibilidade menor. Na prática, a mensagem foi simples: NEWS2 funciona melhor como ferramenta de triagem; qSOFA, como instrumento de confirmação.

Quatro fases de manejo — e como o POCUS atravessa todas elas

O modelo de quatro fases de Vincent e De Backer segue como referência: salvamento, otimização, estabilização e desescalonamento. O que mudou foi o conteúdo de cada etapa, agora mais personalizado.

No salvamento, o foco é identificar rapidamente o tipo de choque e estimar débito cardíaco. Na otimização, a avaliação repetida da responsividade volêmica orienta o uso de fluidos. Na estabilização, busca-se manter perfusão tecidual e reavaliar a função cardíaca. Por fim, no desescalonamento, o objetivo é obter balanço hídrico negativo e retirar progressivamente vasopressores e inotrópicos. Em todas essas fases, o POCUS aparece como ferramenta transversal.

Volume e vasopressores: personalizar importa

Uma das mensagens mais práticas da apresentação foi que a pergunta correta não é quanto volume administrar, mas se o paciente é responsivo, tolerante ou intolerante ao fluido. Metanálises e ensaios recentes mostraram associação entre sobrecarga hídrica e pior prognóstico, sem benefício claro de estratégias liberalmente baseadas em volume fixo.

Da mesma forma, uma metanálise de 2023 mostrou que o uso precoce de vasopressores no choque séptico esteve associado à redução de mortalidade. Isso reforça que vasopressores não devem ser vistos apenas como resgate tardio, especialmente quando o paciente já demonstra intolerância à expansão volêmica.

O que muda na prática clínica

A principal mudança é abandonar o bundle fixo como resposta automática. O internista que atende um paciente em choque hoje precisa estabelecer rapidamente o fenótipo hemodinâmico, usar POCUS desde a avaliação inicial, repetir esse exame conforme a evolução e guiar a reposição volêmica pela responsividade real, não pelo volume total infundido. O tempo de repreenchimento capilar também surge como marcador acessível e validado de microcirculação, útil na ressuscitação personalizada.

Mais do que tratar hipotensão, o objetivo passa a ser reconhecer o tipo de choque, corrigir a fisiopatologia predominante e evitar intervenções padronizadas que podem atrasar a recuperação.

Autoria

Foto de Bruno Anello Mottini Horlle

Bruno Anello Mottini Horlle

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência, e Clinica Médica.

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